quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Resoluções de Ano Novo


1. Encontrar a minha meia-laranja e plantar um laranjal, onde crescerão muitas laranjas, para fazer laranjada, compota de laranja e sumo de laranja (quem sabe se não será um médico, alto, argentino e moreno, mas na sua falta ficaria bem satisfeita com um piloto alto, tuga e menos moreno)
2. Retomar o contacto com amigos que ao longo do tempo foram desaparecendo da minha vida
3. Controlar a minha faceta desastrada, pelo menos para não cair nunca mais em plena conferência
4. Abandonar hábitos adquiridos de bicho-do-mato e dinamizar a vida social, de forma a nunca me esquecer o que é possível fazer num Sábado à noite
5. Aprender a controlar melhor os meus acessos de fúrias para que deixe de circular o rumor de que tenho maus feitio
6. Desenvolver os dotes de mestre de culinária, eventualmente aventurando-me além de sandes de atum e comida pré-cozinhada
7. Aperfeiçoar a técnica fotográfica para nunca mais cortar cabeças
8. Praticar a arte de viajar com menos bagagem… isto de pagar excesso de peso começa a dar-me ataques de pânico que não tem nada que ver com entrar no avião
9. Encontrar uma casa que tenha espaço suficiente para a minha cabeça gigante, as minhas pilhas de livros e as minhas caixas de sapatos
10. Impor a regra de cortar as pontas espigadas do cabelo de três em três meses, na vã expectativa de conseguir finalmente usar cabelo comprido
11. Viver mais pacificamente com as minhas variadíssimas imperfeições físicas
12. Perder peso por baixo da cintura e ganhar peso acima da cintura
13. Deixar de comprar roupa um número abaixo do meu movida pela tola esperança de que na próxima semana vou emagrecer e conseguir meter-me dentro da roupa
14. Redireccionar parte do dinheiro que gato actualmente em roupa, malas e carteias para a poupança do meu futuro T3
15. Terminar a tese para ser Exma. Senhor Professora Doutora
16. Aprender a dançar o tango (na ausência de um médico alto, argentino e moreno, vou tentar convencer o referido piloto a acompanhar-me a aulas de dança )
17. Avançar nos meus estudos de alemão para que a minha professora não tenha vergonha de mim
18. Impor a regra de dormir, pelo menos 6 horas por noite porque dormir pouco provoca ruas e papos debaixo dos olhos e faz-nos ficar velhinhas mais cedo
19. Abandonar de vez o hábito de mexer no cabelo, muitas vezes confundido com mecanismos baratas de sedução
20. Reduzir o número de cafés a 3 por dia
21. Praticar a técnica de cortar e pintar as unhas dos pés
22. Só verter lágrimas por coisas que valem efectiva e realmente a pena
23. Perdoar todos os que me magoaram e desiludiram ao longo deste ano
24. Ser perdoada por todos os que magoei e desiludi ao longo deste ano
25. Visitar Buenos Aires, mas sem que me obriguem a comer carne (se não for com o tal médico que seja com o dito piloto)
26. Ensinar a minha mamã a mexer no computador
27. No final do ano não me sentir frustrada por não ter conseguido completar as resoluções feitas no início do ano

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Nós, que nascemos nos 70


Quando eu era pequenina os 30 anos eram qualquer coisa de tremendamente distante. Tão distante que nunca sequer me imaginei com essa idade. O mais longe que a minha imaginação conseguiu chegar foi aos 24 anos, e isto porque coincidiam com a mudança de milénio. Mas na minha cabecinha, povoadas por centenas de episódios do “Era uma vez o espaço” e do “Buck Rogers no século XXI”, nessa altura eu viveria numa nave espacial e vestiria sempre um fato justo branco, de algum tecido ainda por inventar, e botinha branca a condizer. Sim, os meus fashion devaneios evidenciaram-se em idade precoce.
Mas para além desses 24 anos numa era espacial nada mais havia, até porque para mim qualquer pessoa que saísse da casa dos 20 estava em pé de igualdade com os meus avozinhos, nessa altura já bem velhinhos. De modo que aos olhos dos meus 6 ou 7 anos, eu sou, neste preciso momento, uma senhora da idade.
E, francamente, uma senhora que não sabe muito bem como viver a sua idade. Talvez porque nunca me tenha imaginado assim. Ou talvez porque quando olho para os meus supostos role-models a disparidade entre os modos de vida é tão grande que me causa confusão e me deixa perdida. Onde, onde pertenço eu? Ou melhor, a que década? Se é verdade que, como dizem, os 40 são os novos 30, e os 30 os novos 20, deveria requerer um novo cartão-jovem e fumar ganzas pela noite dentro?
Metade dos meus amigos e conhecidos está casado (alguns já em segundas núpcias) ou, pelo menos, monogamicamente acasalado. Vivem com uma cara-metade e um bando de crianças maravilhosas que me olham com um misto de admiração e temor. Não saem à noite, excepto se for um jantar por volta das 8h, mas de qualquer forma têm que estar em casa às 9h. E o dito jantar serve-me sempre para recolher uma série de informações úteis sofre diarreias provocadas por novas marcas de leite, dentinhos a romper e bacios. Enviam-me fotos dos filhotes pela net, passam as noites enroscados um no outro a ver filmes de há 10 anos e fazem-se sentir egoísta e encalhada. Não creio que pensem isso de mim, mas a verdade é que se me comparar a eles sou exactamente isso.
A outra metade dos meus amigos e conhecidos vive sozinha, não sei ao certo se por opção ou porque não têm mesmo outra opção (os mistérios da mente humana são insondáveis). Todos os meses me falam de um novo namorado/namorada, ou de qualquer coisa parecida com isso, porque a verdade é que as relações de hoje são mais fugazes que um par de sapatos em saldos. Trabalham como bestas, conhecem todos os restaurantes da cidade, nos fins de semana dormem quase até à hora de se aperaltarem e sair de novo, e ainda mantém alguns hábitos dos tempos de teen tais como o de vomitar atrás dos carros nas noites mais intensas. Estão sempre a par das últimas modas e fazem-se sentir antiquada e desadequada. Provavelmente pensam isso de mim, embora nunca me o tenham dito frontalmente.
Quem somos nós, os trintões do século XXI? Que tipo de responsabilidades se espera de nós? É suposto termos assentado ou continuarmos a gastar os últimos cartuchos de uma juventude que teima em arrastar-se até à meia-idade? Estaremos a ser inconsequentes para com a geração futura? Mal agradecidos para com a antecedente? Ou andamos todos ainda à procura do nosso lugar no mundo?
Mais propriamente, onde estou eu no meio disto tudo? Bem, por um lado, I’m living the dream, baby. Em certa medida tenho exactamente a vida que sempre quis ter (o que me leva a pensar nas sábias palavras da mamã: cuidado com o que desejas, pois pode concretizar-se). Ora, a questão é que esta vida de liberdade, leveza, e inevitável solidão, era desejada para os meus vinte anos. Nunca desejei mais que isso porque tão-pouco fui mais além na minha prospecção de futuro. Mas neste momento, que estou nos trintas e…, sabe-me a pouco. A questão é que também não sei exactamente o que me saberia bem a mim. Sei que não seria feliz se tivesse que abdicar das minhas viagens, das minhas conferencias, das minhas saídas nocturnas, ainda que esporádicas, das minhas orgias de compras e das pilhas de caixas de sapatos, substituídas por berços e roupinhas de bebé. Mas sei também, e ainda com maior convicção, que também não seria feliz como uma party girl.
Não vejam nisto qualquer juízo de censura face a algum destes modos de vista. Quem sou euzinha para ajuizar a vida de pessoas felizes, ou, menos pelos, que se conseguiram encontrar a si mesmas mais do que eu consegui? Só digo que eu não sou isso. Nem isso, nem aquilo, nem o outro. Não sei bem o que sou. Ter 30 anos hoje em dia é complicado e provavelmente eu estou a querer tudo. Quero o príncipe, os bebés, os sapatos e as malas, o sucesso profissional e os jantares em família. E quero tudo porque conheço quem o tenha tudo. Therefore, é possível.
Mas enquanto não se concretiza para mim, por aqui continuo um bocado à deriva, à procura de uma vida que me sirva, algures entre fraldas e sapatos de salto alto.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Regressando a casa pelo Natal


Não vindo de uma família de católicos praticantes – talvez nem mesmo sejam católicos – os meus Natais sempre tiveram muito pouco de religioso. Mas isso não me impediu de ter criado um leque fabuloso de memórias natalícias.
Suspeito que as almas mais católicas estarão nesta altura chocadas comigo por não vir aqui falar do nascimento do Messias, do amor cristão, da celebração da paz entre os povos. Nem sequer uma mísera referência à missa do Galo. Peço as minhas mais humildes desculpas, mas estaria a ser hipócrita se viesse para aqui puxar de memórias que não tenho e louvar coisas em que não acredito.
As minhas memoriazinhas são bem mais terra-a-terra. As luzes de natal. A árvore. Os doces. As listas de presentes para comprar. Tudo coisas fúteis e reveladoras de um espírito comercial, bem sei.
Mas não assustem que este post tem também a sua vertente sentimental. É que vos quero falar essencialmente das minhas recordações dos Natais passados em família.
Recordo-me do meu avôzinho afogar o bacalhau que tinha no prato em azeite não fosse o bicho sobreviver e querer-lhe saltar na boca. Ora, isto deixava-me doida. Primeiro, porque acho repugnante qualquer coisa que bóie em azeite. Segundo, porque durante anos e anos a fio não fui muito adepta de comezainas e passava entediada aquelas longas horas que tardava à ceia de Natal, à qual só sobrevivia desperta porque o meu coração não parava de pupular na ânsia dos presentes que certamente me esperavam debaixo da árvore. Aos 6 anos não há couve, pata de peru ou mesmo filhós que sobreleve em importância qualquer um dos embrulhos coloridos que nos esperam. Nem que dentro tenham apenas uma afiadeira…
Nunca vos aconteceu uma destas? É porque não cresceram com duas primas um par de anos mais velhas que faziam de vocês cobaias para todas as experiências e maldades, inclusive embrulhar uma enorme caixa de papelão como se fosse um guloso presente, e sussurra-nos ao ouvido que aquele misterioso e gigante presente era a tão ansiada boneca que falava e fechava os olhitos, alimentando assim as inocentes esperanças e expectativas de uma mente ingénua como a minha. Não é difícil prever o berreiro que se gerou quando me deitei ao caixote como um cão raivoso para descobrir dentro dele uma caixa mais pequena, e dentro outra ainda menor, e dentro desta um embrulho, que finalmente desembocava numa afiadeira cor-de-rosa com um Topo Giggo em cima (sim, eu já era nascida nos tempos áureos do Topo).
Lembram-se daqueles Pais Natais gigantes de chocolate? As crianças da família tinham uma forma muito própria de os comer: depois de despidos da sua prata, a mais velha de nós destruía-os aos pedacinhos com um soco certeiro na cabeça e depois era um assalto de mãos aos cacos de chocolate. Bizarro? Sim. Um pouco violento? Sem dúvida. Mas não são as coisas bizarras e violentas que criam laços entre as pessoas?
Tardes passadas junto à lareira, naquele bom hábito português de comer, beber e contar histórias. Presentes para os animais da família. O processo de decoração da árvore de Natal, com gatos a subir pelo pinheiro acima. As escassas peregrinações à fogueira de Natal quando se conseguia convencer os tipos e os primos a sair de casa no meio da gelada noite alentejana.
E foram estes os Natais da minha infância e dos meus primeiros anos na idade adulta.
Muitos destes episódios nunca mais se repetiram. Desde logo algumas das presenças mais constantes desses Natais já desapareceram da minha vida para sempre. Outros cresceram, casaram, tiveram filhos, e agora juntam-se a nós de dois em dois anos, porque afinal há dois ramos da família por quem compartir as festividades. Os meus pais estão mais velhinhos. Eu cada vez menos entusiasmada com o desembrulhar dos presentes.
E, sobretudo, confronto-me com a forma como fui perdendo as minhas raízes. Por motivos que me escapam, e em relação aos quais não sou completamente inocente, fui perdendo a ligação a essas pessoas que estiveram presentes desde os meus primeiros momentos de vida. Digo para mim que as várias estadias fora propiciaram esse afastamento, mas racionalmente sei que não são justificação suficiente.
Ainda assim não me imagino a passar o Natal sem eles. Já estive em risco disso. Um ano, durante a experiência angolana, o meu passaporte desapareceu misteriosamente na época natalícia, quando me preparava para embarcar de regresso a casa. Restava-me passar o Natal com um punhado de bons amigos que entretanto se haviam transformado na minha família adoptiva. Podia ser bem pior, reconheço. Podia restar-me passar o Natal sozinha. Na praia, mas sozinha. Contudo, no último momento o desaparecido passaporte lá deu ares da sua graça e consegui meter-me no avião que me trouxe de regresso a casa.
Porque todos devemos voltar a casa no Natal, que mais não seja para que a última das raízes não desapareça.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Como sobreviver a um coração partido


Volta e meia o meu cérebro precisa de junk food intelectual. Precisa de coisas fúteis, bonitas e brilhantes, de vestidos, festas e palermices. É um tonto este cérebro, mas é o que tenho, tem-me dado muitas alegrias, de modo que lhe faço a vontade. Gravo os documentos e faço um zapping na televisão ou uma navegação na web para ver as últimas novidades naquele mundo lá fora onde se bebe champanhe ao pequeno-almoço e se dão gorjetas de 10 mil dólares.
E uma coisa posso concluir: quando se tem dinheiro sobrevive-se melhor a um coração partido.
Há um par de dias atrás sofri um choque emocional quando ouvi num canal da especialidade que a Scarlett Johansson e o marido, aquele cavalheiro de abdominais bem definidos chamado Ryan Reynolds, se divorciaram. Ora, isto deixa-me triste.
Os finais de contos de fadas deixa-me sempre perturbada, sejam desgostos de amigos íntimos sejam de gente que nunca vi. Sou atacada por uma angústia, um desânimo, um descrédito. No fundo, cada vez que a coisa corre mal com os outros torna-se mais real o mal que pode correr – e corre – comigo.
Um amigo com o qual partilhei o meu nó na garganta apontou-me alguns aspectos positivos deste desastre amoroso.
Mas…
Que me interessa a mim que o senhor das abdominais esteja agora no mercado? Eu opero num diferente círculo comercial, de modo que pouco me aproveita a sua recém-adquirida disponibilidade amorosa, até porque estou em crer que já existia antes.
Que me importa a mim que possam ser mais felizes separados? Talvez sejam, talvez não. Este argumento, que tantas ouvi em relação aos desfechos trágicos das minhas próprias histórias, nunca me deu alivio. Porque até chegarmos ao ponto em que efectivamente no sentimos melhor ainda há espaço e tempo para nos sentirmos pior, muito mal mesmo.
Não é que eu esteja propriamente a viver dores que não são minhas. Já me bastam as que tenho, não sou masoquista ao ponto de chorar o desgosto dos outros. Mas tão-pouco posso evitar sentir um bocadinho daquela dor (talvez porque já a vivi e revivi na pele).
Mas sobretudo o que me custa é aceitar que aquele rompimento seja (mais uma) prova de que nada dura para sempre.
Agora, uma coisa é certa: por muito desgostosa que a menina Scarlett esteja neste momento (e acredito que sim, porque ser humano implica que não se passe incólume por episódios destes) a verdade é que a sua fabulosa vida e o seu fabuloso dinheiro vão tornar bem mais fácil a cicatrização do pobre coração despedaçado.
É que enquanto eu me fecho em casa uma semana, a carpir as mágoas, a olhar para uma pilha de livros e uma sala vazia, a menina foi para Jamaica com as amigas, apanhar sol e beber cocktails. E provavelmente quando regressar vai gastar mais um milhão em compras, fazer uma lipo ou uma plástica ao nariz (que não precisa, mas só porque pode) e arranjar um boy toy 5 anos mais novo e 10 abdominais mais acima.
Não é que estas coisas sejam remédio milagroso para desgostos de amor mas… caramba, não seria tão mais fácil se eu estivesse agora numa praia paradisíaca a afundar tristezas num mojito?
Provavelmente não.
Provavelmente eu continuaria a comportar-me da mesma forma patética. Estou em crer que por mais dinheiro, fama e sucesso que tivesse continuaria a meter pensinhos rápidos no coração e a tomar xaropes de lágrimas e soluços para ver se a dor passava.
Devo dizer que até acho que lido com relativa graciosidade com contrariedades, mas só as de outro tipo. Os desgostos amorosos, esses malvados, deitam-me completamente abaixo.
Por isso se há coisa que eu admiro nos outros é a capacidade de passar por estes atribulados revés como se fosse um mero tropeção na calçada.
Há dias uma amiga confidenciou-me que o seu casamento tinha acabado. E eu entrei naquele pânico súbito que estas notícias sempre me trazem e perguntei-lhe em aflição se estava tudo bem, se precisava de alguma coisa, garanti-lhe que eu estava aqui para a ouvir. E ela respondeu com a maior das tranquilidades que estava óptima, que a decisão tinha sido dela, que continuavam amigos, e que estava super feliz com a sua nova vida de solteira, com todos os encontros e oportunidades que a mesma lhe proporcionava.
Li estas palavras – foi por mail a conversa – e senti-me a criatura mais tola do planeta. Aliviada por ela, mas envergonhada por ser incapaz de perceber a felicidade e serenidade desta mulher. Não posso garantir que semelhante alegria tenha chegado para ficar ou se não será apenas momentânea, como o canto do cisne antes da solidão se instalar. Mas ainda que assim seja não posso deixar de a admirar.
Eu, porém, nunca poderia ser como ela, nem como a Scarlett, nem como todas essas pessoas admiráveis que seguem em frente depois de se defrontarem com o fim de uma história que certo dia se pensou ser eterna.
Desde logo porque a minha versão da “fuga para um sítio paradisíaco” foi para um Bilbao frio e chuvoso, onde passei uma semana a trabalhar e a beber aquele terrível café espanhol como alternativa às piñas coladas. Ao invés de wild friends tive a gentil e jamais irretribuivel companhia de uma queridíssima amiga, contudo, tão ou mais triste e magoada do que eu. Tivemos as nossas sessões de choro, de raiva e de desânimo, e a maior loucura que cometemos foi ir ao Corte Inglês gastar dinheiro que não tínhamos, com o qual comprei um vestido que mal tenho coragem de usar e umas Levis que só consigo enfiar em mim deitada na cama e deixando de respirar durante 10 minutos.
As insanidades que não se cometem às ordens de um coração partido!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Quatro casamentos (e um possível funeral)



Este fim-de-semana tive um casamento. E com este faço os 4 necessários para a seguir
me calhar na rifa um funeral.
Como qualquer pessoa medianamente sensata não morro de amores por casamentos. Ou seja, eu, que de todo não sou sensata, acabo por revelar aqui alguma sensatez. Bem sei que acaba por ser um contra-senso face à minha já desmesuradamente conhecida veia romântica, mas a verdade é que os casamentos têm muito pouco de romântico. Românticas são as cabanas juntos à praia, os jantares à luz das velas e os anéis de noivado escondidos em petit gateaux de chocolate. O casamento é uma espécie de antecâmara para o divórcio, e não há nada de romântico em criancinhas a correr, passando as suas mãozinhas gordas e gordurosas de rissol de carne pela seda do meu vestido, e o pai da noiva, já bêbado e a chorar, mas ainda a propor brindes. A melhor parte do casamento é mesmo poder ver o modelito da noiva. E a seguir dizer mal. Porque só ver não é interessante se não lhe pudermos despejar o nosso veneno em cima.
Sucede que nos últimos tempos tenho mudado a minha opinião acerca dos casamentos. Talvez porque esteja a ficar mais velha e pense se não deveria ter enveredado por outro destino, um daqueles com vestidos de folhos brancos e bolos de 7 andares. Talvez porque tenho uma fixação obsessiva por vestidos de noiva e apetecia-me casar só para poder vestir uma coisa daquelas, ainda que me divorciasse depois (mas após a noite de núpcias e a lua de mel, está bem de ver). Ou talvez porque os últimos casamentos a que tenho ido já não são de primos distantes nem de filhos de amigos dos meus pais, mas dos meus próprios amigos.
Ora, isto faz uma grande diferença. Porque agora consigo sentir um bocadinho da alegria deles. Sinto-a como se fosse minha. Até dou comigo de lágrima ao canto do olho em plena igreja. Imagino-os os dois, juntos e felizes, e qualquer réstia de sarcasmos face à boda se desvanece.
Claro que ainda assim continuo a ver as cerimónias de casamento como um autêntico calvário para mim. Este último não foi excepção, apesar de ser a celebração do incondicionado amor de um amigo muito querido.
1.º dificuldade: a escolha da farpela. Desculpem, mas quem se atreve a casar em Dezembro? Já não é a primeira vez que me pregam esta partida. Pois como é que uma Barbie vai encontrar roupinha para usar com temperaturas quase negativas? Sobretudo se for friorenta como eu? Levo a botija de água quente colada ao rabo? Apareço de gola alta, galochas e um gorro? Obviamente que a única solução possível para mim é usar um dos meus “vestidinhos de gala” (seja lá o que isso for), 4 casacos em cima, e ir preparada para dar ao dente a comer e a gemer. De frio. Óbvio… (digo eu).
2.º dificuldade: encontrar acompanhante é sempre tarefa complexa. Já partilhei alguns pensamentos e experiências sobre este ponto, de modo que não me alongo, mas sempre direi que esta é uma daquelas alturas em que um namorado faz muita falta na vida de uma miúda. Para isto e para mudar os fusíveis.
3.º dificuldade: sentarmo-nos a uma mesa em que não conhecemos ninguém. Bem, na verdade, não sei o que é pior, se ficar sentada com desconhecidos, se com conhecidos que preferíamos não conhecer. Mas é uma daquelas situações em que se tem que fazer conversa, e eu sou péssima em diálogos sobre meteorologia e afins. Já para não falar das vezes em que os coleguinhas de mesa emborcam um copo a mais e o resto do copo vem parar ao meu vestido.
4.º dificuldade: as fotos. Primeiro, não sou fotogénica. Segundo, não sou fotogénica. Terceiro, não sou fotogénica. Quarto, parece uma corrida louca para chegar aos noivos antes dos outros 200 convidados para poder aparecer na tão desejada fotografia com o parzinho.
5.º dificuldade: o atirar do ramo. Já coloquei a minha vida em risco um par de vezes na vã tentativa de o apanhar. Nem sei ao certo para quê. Desde logo, porque não tenho base científica para crer que as florinhas funcionem como amuleto de noivas. Mas também porque ainda não estou certa que quero que funcione comigo. Acho que aquilo que me impele é mesmo o desafio de o poder apanhar no ar, superando um bando de mulheres enraivecidas. Já que nunca brilhei no voleibol poderia ao menos brilhar no voleibouquet. A questão é que ainda não consegui tal feito, e já quase me arrisquei a ser abalroada por uma senhora brasileira que fazia tanto gosto em casar-se com o seu Zé que veio a correr do fundo de uma sala escorregadia, e num acrobático salto conseguiu apanhar o bicho (o bicho ramo e talvez o bicho homem) ao mesmo tempo que me dava uma cotovelada no olhos. Mas valeu bem a pena o meu olho negro só para ver a cara do fulaninho quando ela se lhe atirou ao pescoço a gritar: “Apanhei amor, apanhei. Você tem qui casar comigo agora né?”.
Em suma, o casamento é um evento torturante para quem não se casa, e provavelmente também para quem se casa. Mas esse “quem” é um daqueles amigos que trazemos connosco no coração deixamos de nos importar com os olhos negros, as fotos e os vestidos que nos deixam a tiritar. É que, pensando bem, é especial que eles nos tenham escolhido para passar com eles um dia especial.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O relincho, esse piropo tão galante


Esta manhã, quando me arrastava para o ginásio nas minhas imundas calças de fato de treino e carinha deslavada de quem acordou há pouco, um tipo passou por mim (compreenderão de seguida porque não o chamo de “senhor”) e baliu. Sim, baliu. Meéééééééééééééééééééééééééééééééééééééééééééééééééééééééé! Como uma ovelha. Ou uma cabra. A verdade é que não sei bem quem bale, e na verdade pouco me importa, não fosse o facto de hoje me terem balido…
Ora, já não é a primeira vez que me emitem um som animal como sinal de alguma coisa que tomo como excitação e entusiasmo (em suma, o equivalente a um piropo no mundo das bestas). Há um par de anos atrás ia eu pela rua para um hot-but-not-hot encontro com o meu melhor amigo quando um tipo abranda o carro junto a mim, mete a cabeça fora da janela e… relincha. Assim mesmo, relincha. Até estaria disposta a imitar aqui o som produzido não fosse o pequeno pormenor de não o conseguir reproduzir. Mas posso garantir que era um autêntico relincho. Cheguei chocadíssima junto do meu Pedro, e contei-lhe a história com o mesmo ar estupefacto que teria se tivesse visto Jesus Cristo descer à terra. Mas o meu amiguinho do coração – e tradutor das reacções masculinas nas suas horas vagas - lá me explicou que aquilo era uma forma de os homens manifestarem o seu instinto mais animal e mais básico no que respeita a mulheres e ao sexo, em suma, ao desejo sexual,
Já possuidora deste conhecimento científico fui novamente confrontada com um destes encontros animalescos. Não obstante nesta altura ser já uma alma esclarecida nos mistérios do sexo oposto não pude evitar ficar surpreendida. Surpreendida porque desta feita tinha perante mim um grupito de cavalheiros que se dedicam à área da construção. Ora, toda a mulher portuguesa sabe que ao passar por estes espécimes humanos há um certo número de coisas que irá ouvir. “Ó filha, és tão boa!”, “Ai que rica gaiola pa meter o meu passarinho!”, “A tua mãe deve ser uma ostra para ter cuspido uma pérola destas”. Tudo isto dito numa voz tremente e à boca cheia, sobretudo o “boa”, que sai assim num som côncavo porque a boca se enche para o pronunciar.
As bocas de pedreiro são um dado adquirido, no qual já depositámos inclusive algumas expectativas. Como bem se compreende, estas expectativas saem defraudadas quando em vez de tão elogiosas palavras ouvimos outra coisa qualquer. Como já sucedeu uma vez comigo, em que criei essa expectativa quando os vi lá ao fundinho da rua, e em vez da tão espera pérola ouço uma coisa do tipo: “Olha, lá vem a Barbie girl”. Barbie girl???? Isto é o fim do mundo tal como o conhecemos. Agora temos pedreiragem que já não manda bocas ordinárias e em vez disso mostra dotes de conhecimento pop. Inadmissível!
Mas pior que ouvir a musiquinha da Barbie girl é mesmo ouvir um homem a ladrar-nos. Yap. Um ser humano a ladrar. Eu olhei boquiaberta à espera de ver um pitbull saltar detrás do andaime e eis que ouço a voz do coleguinha do dito com este comentário jocoso: “Ah cão, que mordias a menina toda!”.
E com esta que me fiquei.
Mas de facto estes episódios deixaram-me a pensar… será que tenho tido um comportamento pouco adequado para demonstrar o meu interesse face ao género oposto? Será que da próxima vez que dê de caras com um moreno alto no bar ou no shopping devo começar a cacarejar? Enfim, estou aberta a sugestões. Reconheço que até ao momento tenho optado por olhar timidamente para a peça, para logo de seguida baixar os olhos aflita não vá ele vir falar comigo. Eventualmente, e na melhor das hipóteses, lanço-lhe um sorriso tímido. Mas admito que possa ter incorrido num perigoso equivoco todo este tempo e que provavelmente a melhor abordagem seria começar a cacarejar e a dar-lhe bicadas. Ou a mugir. Que homem resistirá a um mugido?
Admito que sinto falta dos galanteios que ouvia nos meus tempos áureos de Roma. Embora grande parte dos italianos jogue na outra equipa não deixa de ser certo que continuam a gostar muito de mulheres e a presentear-nos com alguns dos mais elegantes e românticos piropos que ouvi na minha vida.
Já aqui, na Tuga, as modas são outras e o mais certo é sermos brindadas com um zurro ou um relincho.
Face a isto tenho que convir que me escapa totalmente o motivo pelo qual continuo solteira….

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Epidural para dores de alma


Se eu tivesse agora mesmo uma dor lancinante no estômago, nos dentes, em qualquer parte do meu corpo físico, corria para a farmácia, comprava aspirina ou, em última instância, Clonix, e a maleita supostamente passava. Se assim não fosse, apanhava um táxi para o hospital e, ainda que em plena agonia, pedia uma intervenção cirúrgica, uma epidural, uma transfusão sanguínea, eu sei lá…
Paradoxalmente, ninguém inventou ainda nada para as dores de alma. O que afinal redunda também numa dor física, porque não há nada de mais corpóreo do que o coração, que nos bombeia sangue para que tudo o mais funcione. E a alma, para todos os efeitos, é a magia que faz o vermelhinho bater.
Para as tais dores de alma parece que só mesmo o tempo, esse médico infalível, consegue aliviar o sofrimento. Mas o Dr. Tempo demora demais. A ferida tarda tanto em sarar que por vezes infecta e temos que ser amputadas. Eu, por exemplo, já ando aqui pelo mundo sem um bocadinho que mim, que se perdeu algures num destes episódios de infecção aguda.
Seria de esperar que quando a doença se tornasse crónica perdêssemos alguma sensibilidade para a dor. Um pouco como sucede com os sapatos apertados: após horas a fio com os bichos a devorarem-nos os dedos dos pés deixamos de os sentir e somos apenas mulheres lindas com sapatos fantásticos. Mas não. Concluo que a alma – pelo menos a minha – segue um timing diferente dos pés. E por mais machucada que esteja nem por isso perde a sensibilidade (diria mesmo, hipersensibilidade) à dor. Já perguntei por aí se alguém conhece uma epidural para dores de alma, mas consta que a ciência ainda não se ocupou deste problema. Também procurei nas Páginas Amarelas por um curso Lamaze de preparação para a dor aguda, mas a busca foi infrutífera. Resta-me treinar em casa exercícios de respiração na fugaz ilusão de conseguir controlar as contracções de tristeza, mas confesso que os actos de inspirar e expirar são relativamente inúteis quando as lágrimas atacam convulsivamente.
Mas como há gente tão inteligente nesse mundo todo, quem sabe se algum crânio no MIT, ou um daqueles senhores indianos que agora inventam tudo, não se lembrará de criar um transplante de alma. Não que seja muito apelativo andar por aí com a alma de uma pessoa morta, quase um fantasma dentro de nós, mas caramba… não há-de ser muita a diferença face a quem anda com o rim ou com a córnea de um cadáver. E neste momento, em que até já xenotransplantes se fazem, estou até disposta a aceitar a alma de um porco ou de um gato. Na verdade pouco me interessa o animal, desde que tenha sido feliz em vida.
Também já ponderei a hipótese de recorrer a células estaminais para a alma. O nosso primeiro (senhor licenciado em engenharia) instituiu o banco público de células do cordão umbilical. Porque não me aventuro eu na criação de um banco de células de alma? Anúncio: “Procuram-se dadores felizes, que queiram fazer outra pessoa feliz mediante as suas células almares (assim as baptizei eu)”. Mas como por mais que salte, faça o pino e me vire ao contrário ainda não descobri como extrair uma dessas células almares, e porque quase desconfio que a alma não é feita de células mas de pozinhos de prelimpimpim, chego à conclusão que não será na ciência que encontrarei resposta para a minha doença.
Só me resta esperar que a febre intensa e a perda brutal de sangue não me matem a alma. Não saberia onde a sepultar nem como viver sem ela.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Os grandes sucessos e a grande ausência de alguém com quem partilhar


Às vezes acontecem-nos coisas más, daquelas mesmo muito más em que tudo nos passa pela alma. E não temos ninguém com quem os partilhar. Não há vivalma com quem falar, ninguém para nos fazer festinhas na cabeça e nos dizer que tudo vai melhorar… ainda que seja mentira.
Outras vezes acontecem-nos coisas boas, daquelas muito boas em que ficamos orgulhosos de nós próprios e achamos que somos a melhor coisa que apareceu à face da Terra depois dos muffins e dos saldos. E, once again, não temos ninguém com quem os partilhar.
Ora, a minha teoria é esta: se não há ninguém para além de nós mesmos para vibrar com os nossos sucessos, tais sucessos serão, afinal, assim tão grandiosos?
É um pouco como aquele velha adivinha: se uma árvore tombar na floresta, mas ninguém ouvir o estrondo, será que faz estrondo na mesma?
Sou essencialmente subjectivista nas minhas apreciações.
Acho que as coisas boas só são verdadeiramente boas porque as consideramos como tal. Dificilmente haverá coisas objectivamente boas, em si e por si, consensualmente desejáveis para todas as cabeças. Ora, se sou eu que atribuo aos factos o epíteto de “bom” ou “mau”, a existência deste “eu” torna-se essencial para que as coisas que nos acontecem todos os dias sejam boas ou más. E para além do meu “eu”, a existência daquele outro que consideramos a metade do nosso “eu”. E, na sua falta, pelo menos a existência de amigos queridos que sejam pequeninas parcelas no tal “eu”.
Enfim, o que eu quero dizer com estas pseudo-divagações filosóficas e existencialistas é que os sucessos, por maiores que sejam, se tornam um bocadinho mais pequeninos quando não temos ninguém com quem os partilhar. Por isso não imagino sequer como deve ser a vida daqueles que, por opção ou por imposição, acordam cada dia sozinhos para enfrentar o mundo. Ou melhor, imagino um bocadinho, porque grande parte da minha existência foi vivida a solo – eu, comigo própria – de modo que tenho uma ideia do que é ter esta coisa maravilhosa e excitante a acontecer-nos e não a poder partilhar com ninguém especial. Mas mesmo nessas alturas sempre tive amigos que apoiaram os meus fracassos e regozijaram as minhas vitórias. E, acima de tudo, tive esperança. Acreditei sempre (hoje um bocadinho menos, admito, mas ainda não fechei a loja) que ela – a tal meia-fruta – anda por aí também à minha procura, e que mais dia menos dia, mais mês menos mês, mais ano menos ano, esbarramos um com o outro. E foi isso que me fez aguentar os infortúnios. Os infortúnios das coisas más e aqueles que acabam por ser arrastados pelas coisas boas quando nos apercebemos que aquele feito admirável morre ali connosco porque, basically, nobody else cares, o que demonstra bem o pequenina e vazia que é a nossa vidinha.
Há dias aconteceu-me uma coisa. Daquelas boas, mesmo boas (como se fosse uma gaja boa de Ermesinde) que nos metem o coração aos pulos. Logo que me deram a noticia fiquei uns minutos quietinha, a tentar desacelerar o tic-tac do meu coração. Depois sentei-me na minha cadeira, encostei-me e fechei os olhos, dando a mim própria uma palmadinha nas costas. De seguida liguei aos meus pais. Aos meus amigos. Ficaram todos muito felizes por mim, e sei que é uma felicidade sentida. Felicitaram-me, disseram-me que já esperavam que assim fosse, elogiaram-me, até me convidaram para ir lá jantar a casa beber champanhe.
Eu própria fiquei muito feliz comigo, disse para o meu euzinho interior que eu era, de facto, genial e que merecia isto. Disse-me a mim mesmo que tinham valido a pena todas as noites sozinha em casa a trabalhar, as frustrações associadas, enfim, aquelas coisas entediantes que as pessoas que trabalham muito têm que fazer. Dei por bem perdidas as outras coisas – as não entediantes – de que temos que abdicar.
E, basicamente, esta foi a recepção que o meu sucesso teve. Provavelmente não me deveria queixar, porque sei que a celebração poderia ter-se ficado pela minha festinha nas (também minhas) costas, sem os tais telefonemas, as mensagens e os convites para jantar. Mas, caramba, que bom que seria ter podido ligar a alguém e dizer-lhe”Amor, aconteceu”. E saber que essa pessoa viveria o evento exactamente da mesma forma que eu. E poderia talvez levar-me a jantar. E dar-me um abraço. E fazer-me sentir brilhante.
Nada disso aconteceu. Essencialmente porque ninguém tem assim tanto interesse na minha vida. De modo que aquele sucesso, que poderia ter sido tão grande, foi definhando até se tornar pequenino e insignificante. Porque insignificantes são as coisas pelas quais ninguém se interessa.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Profissão: Cupido


Sim, sou uma daquelas pessoas chatas que acredita que algures pelo mundo caminha a nossa meia-laranja, que o amor dura para sempre e que ficaremos juntos até sermos velhinhos e partilharmos a mesma mantinha em frente à televisão. Choro até nas comédias românticas e mesmo nos desenhos animados, e em certo momento da minha vida já dei por mim a ouvir (Deus me perdoe!) Chris De Burgh e Michael Bolton.
Confesso: sou uma daquelas amigas chatas que está sempre a tentar juntar fulano com sicrana (ao tempo que eu andava para meter esta expressão num texto… e agora consegui!!!), que combina encontros aos pares, que organiza blind dates, que chega a guardar relatórios mentais de todos os amigos e amigas solteiros para o caso de poder juntar alguns deles.Ora, o mais estranho é que eu abomino que me façam isto a mim. Não poucas vezes me arranjaram encontrozinhos com rapazes muito prendados, mas eu fiz o meu melhor para os boicotar a todos Não é que tenha um ficheiro informatizado com as características e preferências de todos os meus conhecidos, nem tão-pouco uma agendinha cor-de-rosa onde escreva essas informações. Mas aqui dentro, na minha cabeça, vou registando o que se passa nas suas vidas. E de vez em quando consigo despertar uma curiosidade pela outra pessoa, marcar um café ou um jantar, e até já houve quem juntasse os trapinhos e tivesse filhos (enfim, até agora ainda só consegui um feito destes, mas continuo esperançosa). Não resisto a contar-vos esta história porque é linda e doce e não me deixa esquecer que coisas boas acontecem às pessoas boas.
Fui com ela a um jantar. Eu vivia fora e sempre que vinha a Portugal queria ser mimada pelos amigos, estar com eles e sentir-me em casa. Ela, a minha amiga mais querida, ficou ao meu lado. Ele estava algures entre o “amigo” e o “conhecido” e nem me recordo ao certo se tinha sido convidado por mim (é provável já que trabalhávamos juntos) ou se tinha sido levado por algum amigo comum. Ela tinha namorado, mas era só mais ou menos feliz. Creio que a relação estava mais adormecida que outra coisa, como sucede frequentemente com as relações a quilómetros de distância. A meio da noite ela pergunta-me: “Quem é aquele?”. Eu respondi qualquer coisa de irrelevante porque não percebi a pergunta. Ela insistiu. Eu digo-lhe que esqueça, e dei-lhe 20865 razões para não lhe ligar (sim, até os Cupidos falham de quando em vez). Ainda assim, apresentei-os. E quando me convenci da potencialidade daquele interesse, entrei a fundo no projecto. Segui a história a milhares de quilómetros de distância. Recebi telefonemas pela madrugada dentro, com os dilemas existenciais de quem está apaixonado e não sabe o que fazer. E um dia recebo finalmente o telefonema a dizer-me ia ser tia. Continuam juntos e felizes. E eu feliz com eles.
A verdade é que eu sou uma romântica. Mas mais do que isso, sou um pequeno Cupido que anda por aí a tentar juntar tudo o que é amigo, cão ou gato, porque não acredito que alguém possa verdadeiramente ser feliz sozinho.
Bem sei que muitos de vocês estão neste momento solteiríssimos, e talvez mesmo por opção consciente tenham terminado uma relação mais ou menos (im)perfeita. Compreendo que muitos preferem just to be left alone para fazer o que vos dê na realíssima gana antes que ter um carrapato agarrado ao coração, que vos massacra, vos questiona, vos tenta controlar os movimentos, enfim, um peso morto na vida de um adulto livre e desimpedido, independente e cheio de ânsia de viver.
Eu respeito isso. Mas, com todo o respeito que me merece essa crença, acho que estão errados. Acredito que o habitat natural do ser humano é a comunidade e a família. Acredito que, basicamente, o que todos queremos é amar e ser amados. Ser importantes para alguém. Fazer alguém feliz. Sentir a sua falta e que sinta a nossa. Mas isto é a minha opinião… a opinião de um tonto Cupido sem asas e sem flechas.
Ora, neste meu outro métier – que não é pago, mas já me tem feito tão feliz – já consegui fazer felizes algumas pessoas.
Face a tudo isto seria de esperar que eu – a conselheira sentimental que oferece opiniões a meio da noite por telefone e internet, a Miss Cupido dos corações desfeitos – vivesse um romance intenso numa relação douradora e apaixonada. Well, sabem como é. Em casa de ferreiro espeto de pau. Em casa de Cupido coração partido.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Até (e especialmente) as mulheres fabulosas têm vidas desgraçadas.



Até (e especialmente) as mulheres fabulosas têm vidas desgraçadas.
Seria de esperara que quando se é lindo, carismático, inteligente, divertido, rico, bem-formado, poderoso, sexy, enfim, quando se é aquilo que todos nós queremos ser, a vida seria uma bola de algodão doce.
Mas não. Bem pelo contrário. Parece que quanto mais fabuloso se é mais complexas são as coisas. Como se o universo pretendesse de uma forma qualquer vingar-se das benesses que nos foram dadas.
Tenho uma amiga fantástica. Daquelas que quando a conheci fiquei quase apaixonada por ela (na versão não lésbica da coisa, entenda-se). É uma das pessoas mais inteligentes que conheço, uma profissional reputadíssima na sua área, competente, uma líder nata. Mas ao mesmo tempo é também uma mulher muito bonita e sensual, de extremo bom gosto, que faz os homens virar cabeças onde quer que vá. E ao mesmo tempo ainda – como se isso fosse possível – tem um coração maior que o mundo.
Pois vim eu a descobrir que dentro da sua agitada vida, entre viagens e eventos, ela está, na verdade, sozinha. Vive há um quarto de século com um marido incapaz de apreciar a mulher fantástica que tem ao lado. Conheceu-o com vinte e poucos anos, na força de uma juventude que ainda mantém, quando ela era a aluna e ele o professor. E como as mulheres facilmente se deixam seduzir pelo charme e pela inteligência, acabou casada com um homem 14 anos mais velho, sobrevivente de um casamento, e com alguma fama de D. Juan entre as alunas.
Ora, reza a história que viveram felizes durante uma dezena de anos. Ela feliz por se sentir amada e respeitada, ele feliz por a fazer pensar assim enquanto mantinha o seu leque de conquistas. É curioso, não é? Quase todos apostaríamos que quando uma mulher jovem e bonita decide amarrar a sua vida a um homem mais velho, menos bonito, mais gasto pelo tempo, seria ele a temer a traição. Em boa verdade não sei se ele viveu esse temor e por isso decidiu agir em contra-reacção antecipada, ou se pura e simplesmente aquilo lhe estava no sangue, mas a verdade é que um certo dia alguém lhe disse a ela: “Desconfio que o teu marido anda a comer a minha namorada”. E ela riu-se. Como poderia tal coisa alguma vez ser possível? Pois se ela é que era linda, fantástica e maravilhosa? Se alguém algum dia viesse a trair, teria que ser ela, não ele.
E assim viveram outra dezena de anos, ele cava mais assoberbado pelo crescente sucesso dela à medida que a sua própria carreira e genialidade se desvanecia, ela cada vez mais descobria que na verdade houve muitas alunas depois daquela, muitos casos, muitas traições. E ela, como um bicho feriado, respondeu na mesma moeda, e começou a ter casos aqui e ali, coisa fácil para quem viaja muito e pode conhecer pessoas interessantes em qualquer momento.
Contou-me isto enquanto se vestia e se maquilhava. Eu atravessada em cima da cama a olhá-la, a admirá-la, em pensar em como aquela mulher era fantástica. Ela falava com um misto de dor e raiva. E eu pensava para comigo: o que é que esta mulher está a fazer com um palhaço destes? Ela podia ter bem melhor. E foi isto mesmo que lhe perguntei. Ela olhou para mim com uns olhos tristes (tão tristes que eram os olhos dela) e respondeu-me: “Ele é a minha família. Estamos juntos há 25 anos. Nunca estive tanto tempo com alguém, nem mesmo com a minha própria família. Ele é família”.
E assim vivia ela.

E eu penso de mim para mim que a vida é sarcástica. Por um lado, dá-nos tudo. Por outro tira-nos mais ainda. Quanto mais bem sucedidos somos profissionalmente mais fracassos somos na intimidade. Isn’t that ironic? Don’t think? Será que há alguma regra na natureza que nos impeça de ter tudo? Uma nova forma de divisão da riqueza, de tal modo que o sucesso profissional e mesmo social tem que ser contra-balançado com desastre atrás de desastre entre as quatro paredes? Chegas a casa cheia de ti mesma, com o ego elevadíssimo por um trabalho bem feito, e dás contigo sozinha a jantar em frente à televisão e a pensar em desligar o telefone de qualquer forma porque ele não toca? Recebes elogios de estranhos e as pessoas que mais te deveriam admirar dizem-te um dia que, afinal, deixaram de gostar de ti? Como é que possível que toda gente te ache fantástica menos a pessoa fantástica que escolheste para ti?
Certamente que esta regra tem as suas excepções. Tenho no meu rol de amigas e conhecidas gente bem sucedida em todos os domínios. As iluminadas, creio eu! Mas tenho sobretudo gente admirável, cheia de histórias e de experiências de vida, que viu mundo, que sabe coisas, com um CV do tamanho de um oceano, e que, basicamente regressam sozinhos a casa todas as noites, ou esporadicamente acompanhados, com uma daquelas companhias que se vai embora ao nascer do sol. Jantam em casa das famílias dos amigos, viajam sozinhas, e podem esticar-se à vontade na cama porque não há perigo de deitar alguém abaixo.
Ora, as mulheres fabulosas merecem melhor do que isto. Ou não?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O fabuloso mundo das entrevistas de emprego


Quando o copo se enche com a última gota de água e deitamos às urtigas um emprego que nos torna mais infelizes e mais tontas há que ir à luta e procurar outro sitio onde picar o ponto, sob pena de amontoarmos contas na caixa de correio. E é assim que uma jovem inocente e incauta, praticamente virgem no mundo laboral, entra no fabuloso mundo das entrevistas de emprego.
O primeiro embate vem logo do momento em que os nossos olhitos passam por 345768 anúncios de emprego no jornal ou na net. Alguns dos requisitos colocam-nos logo fora do banco de convocados. Mais de 15 anos de experiência nesta área especifica? Please, eu nem há 15 sou licenciada. Disponibilidade para trabalhar em horários flexíveis? Claro, desde que não seja para trabalhar em posições flexíveis. Ambição e desejo de progressão na carreira? Tudo isso é muito bonito desde que o chefe não comece a pensar que a nossa ambição é sentarmo-nos no lugar onde ele se senta, porque se assim for o desejo de progredir depressa se transformará no mero desejo de manter o emprego.
Depois de encontrado o anúncio que satisfaz as nossas pretensões e nós as pretensões do dito – ou seja, a nossa meia-laranja na versão anúncio – cumpre enviar a respectiva carta de intenções. Meus amigos, aqui convém não inventar muito porque, basicamente, o trabalhador ideal é apenas criativo qb e já todos concluímos que o mundo gosta é de gente convencional e pouco dada a fazer ondas.
Ora, neste ponto não me coíbo de revelar o meu desânimo e frustração face às regras comummente aceites sobre redacção e formatação de currículos. A minha questão é a seguinte: quem decidiu quais as informações relevantes que devem constar dos CV’s? Formação académica, experiência profissional, publicações, blabla, blabla. E outros atributos importantes que se tenham? E os atributos pá? E os atributos? Suponhamos - um mero “suponhamos”, que a mim não se aplica – que o candidato em causa é um chef de cozinha de trazer por casa, que faz umas divinais bolachinhas de chocolate, e que quem o contratasse poderia lambuzar-se com chocolate todas as 2.º feiras porque o dito candidato levaria para o escritório o resultado das suas aventuras culinárias do fim de semana. Será este um requisito despiciendo? Ou suponhamos – de novo, uma suposição que a mim nada, mas nada, se aplica – que o candidato é o feliz proprietário de uma fabulástica colecção de sapatos, de modo que a sua contratação garantiria às coleguinhas co-workers a possibilidade de estarem sempre a par das últimas modas que reinam no reino dos pés e, eventualmente (mas mesmo muito, muito, muito) eventualmente, até poderiam ser emprestados um parzinho ou outro, mecanismo certo e seguro para manter felizes e produtivos os trabalhadores fashion victims? Ou que o candidato sabe dançar no varão? Ou tem contactos no mundo dos porteiros de discotecas? Ou é um menino com um rabiosque daqueles que deixa as meninas bem-dispostas pela manhã? Enfim, todos estes são requisitos relevantíssimos para qualquer profissão e para qualquer ambiente laboral. Todavia, nunca vi ninguém importar-se minimamente com eles, o que revela alguma pobreza de espírito. Por conseguinte, proponho uma moção de censura ao actual modelo convencionado de currículos e proponho que se aprove um novo modelo, do qual deverá contar uma rubrica designada “Atributos importantes e variados”, no qual se pudessem inscrever estes outros predicados, até hoje desprezados.
Finalmente a entrevista, supondo que até aqui ainda não morremos (falo de um processo longo e moroso, que pode chegar até nós muito depois de um qualquer ataque cardíaco provocado pela idade ou pelo stress de procurar trabalho) ou não desistimos de uma carreira brilhante em prol de um futurozinho mais fácil enroscada num qualquer pequeno magnata que nos possa sustentar. Eis-nos finalmente a postos para a entrevista.
Ora, esta coisa chamada “entrevista” está minada desde o seu início e em bom rigor não parece haver uma forma elegante de lidar com ela airosamente. Senão vejamos:
i) A marcação: quando a secretária nos pergunta ao telefone quando estaremos disponíveis há que demonstrar apenas uma disponibilidade relativa, ao invés de gritar ao telefone que é óbvio que estamos disponíveis sempre porque, afinal de contas, estamos desempregados… logo, a nossa agenda já esteve mais cheia;
ii) A roupa: já se sabe que nas entrevistas de emprego o truque é ir cinzenta, enfadonha e com ar de quem não tem sexo há anos e, melhor ainda, não gosta de sexo nem perde tempo com isso (excepto, porventura, com o superior hierárquico, se for caso disso). Claro que aqui os mais rebeldes se defrontarão com problemas para esconder piercings, tatuagens ou cortes de cabelo mais arrojados;
iii) Falar um pouco de nós: uma vez que estou em crer que o entrevistador está-se bem a lixar para os meus traumas de infância ou para os meus desaires sentimentais tento manter a coisa o mais profissional possível e apenas comento daquela parte de mim que vai a conferências e escreve artigos. E, caso sejam ninas em idade reprodutiva, nunca, mas nunca, nunquinha, demonstrem qualquer apetência pela maternidade, porque já me foi dito que ter bebés nunca foi veículo que garantisse a presença assídua em reuniões às 9h da manhã. Melhor mesmo será apresentar um certificado de infertilidade ou de uma laqueação de trompas. Já se forem meninos, podem ter filhos à vontade, que os patrões gostam de trabalhadores responsáveis que sejam bons pais de família;
iv) A pergunta do dinheiro: a tão temida questão do “quanto quer ganhar?” deixa-me sempre semi-incrédula. Talvez seja porque alguns ganham mesmo aquilo que querem ganhar (que não o que merecem) que este país está a braços com o FMI;
v) Os psico-técnicos: adoro aqueles com bolinhas e triangulozinhos porque a minha personalidade quasi-esquizofrénica consegue descortinar padrões absurdos que me permitem atingir pontuações dignas de génio, mas ultimamente trocaram-me às voltas e deixaram-me frente a frente com um teste para calcular percentagens e outras matematiquices que tal, de tal forma doloroso que quando a psicóloga me perguntou como correu lhe respondi cabisbaixa que me sentira como o Mourinho a levar 5-0.
Moral da história: as entrevistas de emprego nunca fizeram ninguém feliz, de modo que resta esperar que o emprego em si mesmo o faça.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A metamorfose (ou a teoria de como o meu Mr. Wrong pode ser o teu Mr. Right)


Porque será que a aquela história de amor connosco deu em história de terror e com outra pessoa qualquer ( e com aquela nossa mesma suposta e hipotética meia-laranja) funcionou tão bem, casaram, tiveram filhos, e vivem hoje apaixonados numa casa de cerca branca?
Certamente que todos contamos no nosso circulo de conhecidos com uma ou outra criatura, devoradora inveterada de espécimes do sexo oposto, que um dia, assim do nada, se transforma no apaixonado ou apaixonada mais devoto e embeiçado que neste mundo existiu desde Romeu e Julieta. Eu conheço um par de fenómenos destes (todos no masculino até ao momento, embora não descarte a ideia de algum dia uma das minhas amigas mais namoradeiras – que também as tenho – passar pelo mesmo processo de metamorfose). Tipos conhecidos pelo seu séquito de seguidoras, com uma fama que os precede e os persegue, cheios de histórias hilariantes, mas que certamente provocaram grossas lágrimas a alguma vitima mais incauta. Mas um belo dia, sem motivo aparente, conhecem uma donzela (e pelo menos num caso ou dois de donzela a tipa tinha só o “ela”) e o lobo mau dá lugar a um cordeirinho.
Ou então, numa outra versão semelhante desta mesma história, temos que a criatura fria, distante, taciturna, pouca dada a afectos e à sua manifestação, acorda um dia melosa, doce, disponível para todos os caprichos do seu amor, por força de uma paixoneta que transforma o cão raivoso em cachorrinho.
O Filipe era assim. Reza a história que não havia nesta cidade rabo de saia que lhe escapasse. Nunca conheci essa versão filipiana mas, por testemunho de ouvir dizer, sei que era bastante conhecida de porteiros de discotecas e outros personagens da noite. O Filipe que eu conheci vivia para a Rita, com a Rita, em função da Rita. Reza a história que se apaixonou perdidamente por ela mal a viu. Quando passou a fazer parte da minha lista de contactos hibernava em casa quando ela viajava e aos nossos insistentes convites para um copo ou um café respondi que, não estando ela… ele preferia esperá-la.
Enfim, este é um exemplo extremo, de como as pessoa dão voltas de 180.º graus na sua forma de estar no mundo. Mas em termos mais moderados proliferam relatos deste tipo, que sempre me fizeram alguma espécie. Porque é que com uma pessoa resulta tão mal e com outra resulta tão bem? O que muda exactamente? Muda o conjunto de circunstâncias exteriores, no sentido de que antes tínhamos ali um puto, um miúdo sem grande perspectiva de futuro que não fosse quantos copos ia beber e quantas gajas ia comer, e hoje temos um homenzinho, que já compreendeu que se continuar a viver assim vai terminar sozinho , a pensar em quantos copos a sua cirrose o vai deixar beber amanhã e quantos Viagras terá que tomar para criar, pelo menos, a ilusão rigidez corporal? Ou o que mudou foi a contraparte, porque a mulher errada (demasiado obcecada, demasiado impulsiva, demasiado complicada) deu lugar à mulher certa (curiosamente, mais obcecada, impulsiva e complicada do que a outra mas, ainda assim, a certa)?
Se calhar um bocadinho das duas coisas. Por um lado, as pessoas mudam com o passar dos anos e com as experiências pelas quais vão passado. Chama-se a isso “crescer”. Não acontece com todos, para mal dos nossos amores. Mas temos a esperança de que um dia ele bata com a cabeça num muro, ou tenha uma visão num sonho, ou simplesmente um amigo o chame à razão, e perceba que nós não estamos ali por não ter mais nada que fazer na vida, mas sim porque de entre as muitas coisas que temos na nossa vida ele é a mais importante, de modo que a ideia não é que ele se tenha que contentar connosco, mas sim que fique muito contente por estar connosco. Acontece que nem sempre a metamorfose se dá ainda perante a nossa presença. Muitas vezes passamos anos à espera que aconteça, mas a certo ponto damos o caso por encerrado, e depois, passado um par de semanas, ei-lo com o seu novo amor, como se de outro homem se tratasse. Provavelmente a nossa partida foi o clic que faltava.
Ou terá sido a chegada do novo amor que fez o tal clic? Será ela assim tão melhor? Objectivamente melhor, para todos os homens do planeta? Ou subjectivamente melhor para aquele homem em especial? Bem sei que são precisos dois para dançar o tango, mas bastará mudar um dos elementos para o par conseguir dar espectáculo? Ou não será que o tipo dança melhor agora porque ela, simplesmente, não se importa que ele lhe pise os pés? Ou seja, aquilo que para nós era irritante e ofensivo, para ela tem imensa piada, ou pelo menos não a atormenta, e por isso a coisa agora funciona onde antes emperrava. Será essa a diferença?
A minha teoria – nada cientifica, e apenas do foro empírico, e recheada de considerandos pessoais – é que a metamorfose resulta de toda esta multiplicidade de circunstâncias.
As várias relações vão moldando as pessoas e certamente todos contamos no nosso currículo com namorados que roçavam a idiotice, e que fomos domesticando com paciência e dedicação ao longo dos anos (Não te babes a olhar para outras mulher! Manifesta maior interesse por aquilo que se passa na minha vida! Não passes o fim de semana inteiro com os teus amigos!) e do qual abrimos mão após meses, senão anos, de trabalho intensivo, para hoje ser o acessório preferido de uma tipa qualquer, a quem caiu no colo já terminado e formatado. E caramba, que custa ver o produto do nosso trabalho pelo braço de uma consumidora final, que nada investiu naquele empreendimento amoroso.
Por outro lado, pode bem suceder que ele fosse um idiota para nós por não lhe demos o input suficiente para ser a better person. Se calhar nós puxámos o pior que havia nele, ao passo que o novo amor puxa o seu melhor. Em suma, por força de uma limitação pessoal não soubemos explorar da melhor forma aquele diamante em bruto, que continuou carvão nas nossas mãos e agora está feito num esplendoroso anel… na mão de outra mulher.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ensaio sobre a solidão


Pela estação ecoava a voz de “menina de rádio”, anunciando que todos os comboios estavam atrasadas em virtude de um acidente nas linhas. Um suicídio, ao que parece. Caramba, entre tantas formas de as pessoas se matarem têm logo que escolher uma que causa transtorno a tanta gente. Não a mim, porém. É que enquanto à minha volta o povinho se rebelava contra o poder absoluto do monarca CP, eu dei por mim a pensar, simplesmente, que era aborrecido. É que todos os demais tinham compromissos, gente à sua espera, jantares que estavam a ficar frios, crianças que reclamavam pelos seus mimos. Já eu… só me tinha a mim. Reformulo: já eu, só me tenho a mim. Nem sequer existe na minha vida um cachorrinho que anseie pela minha chegada para ir dar o seu passeio. Na verdade, é-me mais ou menos indiferente chegar às 8 da noite, às 9, às 4 da manhã, ou no tarde seguinte. Ou nunca chegar até. Simplesmente, porque eu não tenho ninguém à espera.
Por isso sou sempre a última a sair do escritório. Por minha vontade até lá dormir. Nem sei porque preciso de casa. Não fosse o problema de alojar as minhas caixas de sapatos e de livros bem que podia viver debaixo da ponte. É que ter uma casa pressupõe ter uma porta onde desejamos meter a chave na fechadura para entrar na home sweet home, onde há uma lareira acesa e um chocolate quente à nossa espera. Mas no meu caso, o na melhor das hipóteses tenho um pequeno aquecedor a óleo e um daqueles tabuleiros de comida pré-feira que meto no micro-ondas.
Há muito que desisti de cozinhar. Apesar de por vezes acreditar que nesta confusão que é a minha cabeça saltitam várias personalidades diferentes, o certo é que não existe uma Vera gourmet capaz de elogiar as aventuras culinárias da Vera cozinheira.
Em regra vivo bem comigo. Mas há dias em que gostava de ter um “contigo” com quem poder partilhar o nada que tenho. Ontem foi um desses dias. Sobrevivi a uma catástrofe emocional. Reconheço que para alguns seria um pequeno furo na estrada, mas para mim, que atirei o brio profissional para o topo da minha pirâmide de prioridades, aquilo foi um autêntico choque em cadeira. Pardon my french, mas diria mesmo que uma autêntica filha da putice o que me fizeram. Que bem me tinha sabido umas festinhas na cabeça, coisas melosas ditas com voz suave, uma mera presença física que mais não fosse. Não aconteceu assim. Talvez pelo melhor. O que não nos mata torna-nos mais fortes… dizem.
Claro que há dias diferentes. Também eu tenho os meus momentos de animal social. Reuniões, festas, jantaradas, saídas à noite. Mas, dê lá por onde der, a Cinderela tem que voltar para casa, nem que seja na meia-noite do outro dia. E quando volta… só fica ela, a abóbora e os ratinhos.
Because, in the end of the day, we are all alone.
E quanto mais depressa percebermos isso melhor vamos conseguir partilhar a vida com a nossa solidão.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Será que te deixarei ir?


Tenho pensado muito, e falado muito, e escrito um bocadinho, sobre testamento vital, eutanásia, auxilio ao suicídio, e temas afins. E desde que me recordo de ter começado a reflectir sobre estas questões sempre me foi muito evidente que se há direito que se sobreleve acima de todos os outros, esse direito há-de ser a última das liberdades (ou, numa outra perspectiva, a primeira), qual seja, a de decidir acerca da própria morte, pelo menos na medida em que o destino nos permite fazê-lo e não acaba connosco numa estrada qualquer porque um idiota bebeu demais ou conduz distraído com o telemóvel.
Morro de pavor de perder o controlo sobre a forma como hei-de morrer. E se um dia eu terminar amarrada a uma cama, paralisada por alguma doença ou acidente, mas com um cérebro ainda tão alerta que definha a cada diz que passa perante a impossibilidade de viver condignamente a vida que me passa ao lado… se isso acontecer… ponham fim à minha miséria por favor.
Em suma, tenho sido até ao momento uma das mais acérrimas defensoras do direito à vida enquanto direito a decidir quando e em termos queremos sair deste filme.
E creio que o continuo a ser. Pelo menos no que a mim respeita. Mas temo estar a cair numa tremenda hipocrisia e a não conseguir defender para os outros aquele mesmo direito que invoco para mim. Não em relação a quaisquer “outros”, entenda-se. Para a esmagadora maioria dos milhares de milhões de cidadãos do planeta mantenho a minha tese primeira. Mas dentro desses milhares de milhões há alguns centenas de pessoas de quem gosto. E dentro dessas centenas há dois punhados deles (literalmente, pois o número cabe nos dedos das duas mãos) de que gosto muito. Que amo, no sentido em que se amam as pessoas que são muito especiais para nós, o que no meu caso inclui pais, (irmãos não tenho), meia-laranja, e alguns outros que me são imensamente próximos, partilhemos algum ADN ou não.
Teoricamente defendo para esta dezena de pessoas exactamente o mesmo direito. Mais: defendo-o até com maior vigor, porque a última coisa que lhes desejo é qualquer espécie de sofrimento, e tenho para mim que há modalidades de existência das quais desapareceu todo a réstia de dignidade, de modo que o qualificativo de vida só se lhes aplica em sentido biológico.
Mas, na prática, que faria eu se uma dessas pessoas estivesse no hospital e pedisse para morrer, mesmo sabendo que o seu sofrimento vai para além do que um ser humano deveria suportar? Que faria eu se assinasse ali na minha frente uma ordem de não reanimação, mesmo sabendo que a possibilidade de vida que a espera não difere da do mero vegetal?
Se um dia uma destas situações se me deparar, serei suficientemente forte e corajosa para os deixar ir?
Não me recordo de sentir medo da morte. Mas aqui não se trata de uma questão de coragem. Será mais bem tolice ou desprendimento pela vida terrena. Os meus receios prendem-se todos com outros aspectos que caminham junto à morte. Temo a forma de morrer, porque a minha mínima, minimissima, capacidade de aguentar a dor almeja por um fim rápido, sereno e, na medida do possível, indolor. Mas temo sobretudo a perda, a possibilidade de que as pessoas de quem mais gosto morram antes de mim.
Quando era pequenina e não usava saltos altos lembro-me de meramente pensar nesta hipotética possibilidade e ficar logo com o coração a bater tanto a ponto de ter que esconder a cabeça debaixo da almofada, atormentada que estava com esse perigo. De modo que este meu desejo de partir antes daqueles de quem mais gosto não tem nada a ver com altruísmo, ou bravura, ou qualquer sentimento nobre. É tudo uma questão de cobardia e de incapacidade de lidar com a perda. Não suporto deixar as pessoas de quem gosto.
Por alguma boa vontade das forças cósmicas fui até ao momento poupada à morte daqueles que verdadeiramente me são próximos. Não sei o que isso é, e sofro com o mero pensamento de que um dia, eventualmente, saberei. Mas noutros termos e de outras formas já perdi pelos caminhos da vida pessoas que me eram muito especiais. E se há coisa que aprendi é que não lido nada bem com isso. Ninguém lida, é certo. Mas eu, dramática e melodramática como sou, levo as coisas mais a peito, e deixo-me cair tão fundo que chego a pensar se chegarei alguma manhã à superfície.
Voltando à pergunta inicial: que faria eu perante a morte eminente e, mais do que isso, desejada e solicitada, por uma dessas pessoas especiais? Atingirei aquela abnegação que lhes permitirá ir em paz?
Em bom rigor, não há nada que eu, ou qualquer um de nós, possa fazer. Mesmo não se legitimando o testamento vital, as recusas de tratamento são autorizadas por lei, que inclusivamente eleva a ilícito criminal o comportamento do médico que actua contra a recusa expressa do paciente. E eu aplaudo este regime. Pelo menos quando me toca a mim. Porque quanto tocar àqueles que amo… acredito que não serei o suficientemente forte e congruente comigo própria para o aceitar passivamente.
Não, não creio que te vá deixar ir assim. Gostava de ser essa “bigger person”, mas não sou. Desculpa.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Quando for crescida quero ser como tu


Quando alguém teve a tonta ideia de perguntar à minha priminha de 4 anos se já tinha namorado (quem diabo se lembra se fazer esta pergunta a gentinha que ainda anda no jardim-escola? Depois espantam-se que apareçam grávidas com 16 anos!), esperando certamente que ela respondesse que é o Bernardo ou o Afonso (já repararam que todas as “novas crianças” foram baptizadas com “nada novos nomes”?), ela, muito espevitada respondeu. “Não tenho namorado. Não quero ter. Quero ser como a prima Vera”.
Ora, é óbvio que uma parte de mim fica lisonjeada que a minha priminha me escolha a mim como role model. Podia ter escolhido a Marie Curie, a Margaret Thatcher, ou, num delírio de loucura, a Rhianna, mas em vez disso… escolheu-me a mim. Pior ainda, podia querer ser como uma boneca oxigenada e anoréxica, fisicamente desproporcionada, que tem como bicho de estimação uma espécie de caniche e como outro bicho de estimação um boneco totalmente gay. Mas a minha priminha recusou todos os estereótipos sobre beleza barbierianos e escolheu-me a mim, o que é digno de nota,
O meu problema é o motivo pelo qual fui eleita. Não foi pelos dotes de bailarina, nem pelo empenho com que me dedico a tese que está prestes a sugar qualquer sopro de divertimento que ainda existe em mim. Não foi porque sou convidada para conferências ou porque faço o melhor bolo de chocolate do mundo. Foi porque, ao que parece, sou uma encalhada.
Este episódio fez-me recordar as minhas aspirações de menina, quando também eu aspirava a ser alguém parecido às pessoas de carne e osso que povoavam a minha vida real. No plano irreal quis ser muita coisa, desde astronauta a detective. Digamos que neste aspecto a minha imaginação não foi muito para além da de qualquer criança de 6 anos. Mas em termos de pessoas efectivamente viventes a minha idolatria dirigia-se inteirinha a uma amiga da minha mãe, da qual mal me recordo, excepto no que respeita a estas três notas particulares: era enfermeira, conduzia um mini e fumava. Por isso, quando eu media pouco mais de meio metro, queria ser enfermeira, conduzir um mini e fumar. Não me perguntem porque raio as minhas aspirações se ficavam por tão baixa fasquia. Faço notar que acho sobejamente estranha esta minha fixação: primeiro, nesses tempos idos não tinha a mínima inclinação para a medicina, e ainda hoje me vejo mais como uma diva neurocirurgiã do que como enfermeira boazinha; segundo, sou uma daquelas miúdas que gosta de carros grandes (os freudianos que divaguem à vontade); terceiro, não fumo nem nunca fumei, e embora não considere esse hábito propriamente repugnante continuo a preferir meter a minha língua numa boca onde não tenha entrado cigarro. Mas tenho cá para mim que naqueles tempos – finais dos setenta, inícios dos oitenta – e naquele lugar – uma aldeia perdida no meio do Alentejo – provavelmente aquela era a mulher mais emancipada que eu conhecia. Por isso eu queria ser como ela. Ah, e uma nota digna de nota: tanto quanto me recordo essa wild child era solteira. Na minha memória não existem vestígios de qualquer marido da dita, de modo que se era casada nunca disso tive conhecimento e aparecia aos meus adulatórios olhitos como uma devoradora de homens.
Mas isto levanta a seguinte questão: que sociedade é esta a nossa onde as gerações do futuro almejam ser mulheres sozinhas? Porque é que a minha priminha não quer ser como as outras primas, esposas e mães felizes? Porque é que eu apareço aos seus inocentes olhos como a melhor coisa que se pode ser no mundo, tal como a dita senhora enfermeira fumadora, e quiçá promíscua, me aparecia a mim como o ex libris do women power?
Emergem aqui duas premissas essenciais, mais altamente discutíveis:
a) As mulheres emancipadas e modernas, seja lá o que isso for, são as que estão sozinhas;
b) As referidas na alínea anterior são mais felizes do que todas as outras e por isso devem ser elas o exemplo a seguir.
Preocupa-me sumamente que estes sejam os modelos de condutas que oferecemos às gerações do amanhã, e que lhe estejamos a vender o mito de que o protótipo ideal de mulher é esta criatura obcecada consigo própria, devotada ao trabalho e ao sucesso, demasiado insuportável para que alguém a ature, egocêntrica, em suma, uma cabra terrível.
E agora que olho para trás não posso deixar de pensar que provavelmente, ao invés da enfermeira fumegante, eu deveria era ter desejado ser como a minha mamã.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Lisboa em estado de NATO


Ele há o estado de sítio. Ele há o estado de emergência. E agora o bom povo português criou o estado de NATO. Entenda-se por esta nova figura o estado em que depois de um alarme brutal, como se uma bomba atómica se dirigisse ao coração da nação, afinal o que acontece é… nada!!! Pura, simplesmente e exclusivamente, nada.
No rescaldo da cimeira da NATO pouco há a dizer. Ou melhor, dir-se-ia que a montanha pariu um rato, sendo a montanha o nosso governo e o rato os escassos manifestantes que num sábado solarengo se meteram a caminho do Marquês em luta contra… contra o quê exactamente? É que eu ouvi gente a queixar-se de tudo: do capitalismo, da NATO, da morte de civis inocentes, da opressão estadual, de todos os pontos atrás referidos, de nenhum deles mas de outra coisa qualquer… Enfim, um autêntico menu de queixas, tantas, que até eu pensei em juntar-me em voz de protesto contra o preço dos sapatos de pele e contra homens giros que são gays.
E não pensem que trato o episódio com ligeireza, porque na verdade, ao ouvir as entrevistas que passaram na televisão, pensei para com os meus botões que a minha lista de pretextos é, afinal, mais congruente e sólida do que a dos entrevistados. Ou os senhores jornalistas das várias cadeias de televisão optaram essencialmente por passar no horário nobre as profundas divagações de quem não faz a puta ideia do que ali está a fazer mas vai pela arruaça e a possibilidade de sangue, ou então, basicamente, quem apareceu ao chamamento não fazia mesmo a puta ideia do que ali se estava a passar.
E por falar em sangue, aproveito para protestar contra expectativas goradas. Pois não pode o governo andar por aí a anunciar com pompa e circunstancia que se avizinham grandes perigos, e a lançar soldadinhos do corpo de intervenção (soldadinhos como quem diz… que de todo eu não quero arrufos com um daqueles senhores) em cada esquina, com ar de GI Joe e bastão à mão, cancelando transportes públicos e circulação na capital, para depois ser só mais um dia como os outros. O povo espera mais. Uma bomba, um atentado, um carrito a arder, uma ameaça de bomba que seja. Agora, um mero desfile de camaradas pela Avenida da Liberdade, isso é que não. Em abono da verdade diga-se que a culpa governamental não morre sozinha. Afinal, os manifestantes tinham-nos habituado a outro tipo de espectáculo nos anos antecedentes. Até nisto se vê como somos coitadinhos. Nem uma manifestação violenta, assim como deve ser, podemos dar ao mundo. Bem louvo aqui os esforços da nossa polícia em tornar a coisa um bocadinho mais digna, algemando os miúdos e deitando-os no chão. Reconheço também que o cordão policial teve o quê de dramático, de modo que um bem-haja às nossas forças de segurança que, pelo menos, deram o seu melhor para igualar a nossa cimeira às dos países civilizados. E, sobretudo, para não darmos por mal empregue todo o dinheiro que pagamos em impostos. É que eu só aceito que o meu salário me seja reduzido se for para pagar a conta da minha segurança contra ataques de teenagers com borbulhas e cheiro a ganza. Felizmente os tais veículos blindados comprados expressamente para a ocasião não chegaram a chegar. Senão seria como usar batom Channel para ir comprar toucinho ao talho. Ou, e ainda numa analogia porcina, como deitar pérolas a porcos.
É claro que nem todos os manifestantes eram gente mal informada. É certo que grande parte dos bem-informados foram deixados à fronteira, a beber um chocolate quente e a comer uns churros. Mas em abono da verdade ouvi na televisão algumas opiniões de manifestantes que me pareceram relativamente consistentes. E lamento que essas boas intenções tenham sido diminuídas pela junção à manifestação de gente com a qual não terão certamente a mínima afinidade. Ainda estou para saber o que é um pacifista tem em comum com um neo-nazi, e compreendo a frustração das pessoas de bem que naquele dia se deram ao trabalho de sair de suas casas para depois se verem confundidas com um grupo de descabelados que certamente nunca leu o Mein Kampft mas acha piada a ser do contra. Do contra do que seja.
Creio que no final do dia a nota que me ficou na memória foi ver as principais marcas da capital a esconder os seus símbolos demoníacos (leia-se, capitalistas) com panos e tapumes de madeira. A Prada até se deu ao trabalho de contratar seguranças privados, não fosse o diabo tecê-las e os manifestantes confundirem uma daquelas deliciosas malinhas de verniz preto com uma arma de destruição massiva, daquelas que as tropas da NATO usam. Pelo menos sempre ajudam à redução do desemprego, de modo que três vivas para a Prada. Mas vou mais longe até e dou três vivas ao capitalismo em geral. Porque não percebo em que medida a contestação contra a guerra se relaciona com a contestação contra o sistema de mercado livre. Onde raio foram encontrar essa ligação entre socialismo/comunismo e sistemas pacíficos/ repulsa da opressão pela força? Na Coreia do Norte? Ou em Cuba? Talvez na ex-URSS, com Estaline à cabeça. Não considero o capitalismo o sistema perfeito, mas continua a ser o meu preferido de entre os sistemas imperfeitos. Porque um modelo de regulação onde a iniciativa privada não pudesse prosperar e a economia fosse incapaz de crescer livremente e sem peias estaduais (e qualquer semelhança entre esta descrição e o actual estado de coisas em Portugal é mera coincidência) não me serve. Já para não mencionar a enorme dificuldade em que eu teria em encontrar sapatinhos numa economia fechada…
Em jeito de balanço final que ganhámos nós com a cimeira? Bem, cancelaram o concerto do Arcade Fire, mas como o da Shakira se manteve ficou ela por ela. Ficámos a saber que a maior divida que o governo norte-americano tem para com o bom povo português se relaciona com um cão de água. Fomos esclarecidos que o senhor licenciado em engenharia tencionar ainda cá estar (enfim, lá estar, nos Estates) para ao ano, mas que não mete as mãos no fogo por um dos seus melhores ministros. Compreendemos que nem todos somos iguais perante as fronteiras, e que está bem deixar entrar traficantes de droga, mas pacifistas não. Eu, sobretudo, fiquei a saber que uma botinha Prada pode ser usada como lançador de morteiros. De modo que dou por bem empregues os 5 milhões que o filósofo gastou com esta brincadeira.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Excesso de bagagem


É inevitável: cada vez que euzinha vai voar passa as horas que antecedem a saída com grandes estudos científicos para determinar aquilo que é rigorosamente indispensável levar na mala (sapatos), e aquilo que é supérfluo (pasta de dentes, que pode ser comprada em qualquer chafarica). Mas mesmo assim não me livro de chegar ao check in e pedinchar por quilos extras, mostrar decote se tiver um homem a pesar a mala, apelar à solidariedade de género se tiver uma mulher, enfim, no amor, na guerra e nos chek in’s vale tudo. E de quando em vez (uaua!!!) acabo mesmo por pagar excesso de bagagem, o custo acrescido de quem não viaja leve na vida.
Essa sou eu. Nem leve nas malas nem leve no passado.
Também nas minhas relações carrego excesso de bagagem. Não porque tenha tido muitos namorados. Enfim, tive q.b. Digamos que não morro estúpida nem perita no tema. O problema são as memórias, as comparações, as mágoas, os traumas.
Creio que ninguém espera que uma pessoa nos seus trintas e tal seja virgem nesta matéria. Nem de sexo nem de coração. Já não alimentamos aquela expectativa tonta de sermos os primeiros na vida de alguém. Somos os segundos, os décimos terceiros, os quadragésimos quartos, sem que isso nos incomode porque nesta altura do campeonato já concluímos que o importante é sermos os mais importantes da vida de alguém e não, simplesmente, os primeiros. Só mesmo aos 18 anos é que queremos desbravar mares nunca antes navegados e amar criaturas nunca antes amadas.
Eu, pela minha parte, desconfio que ficaria muito desconfortável com alguém que nunca tivesse estado apaixonado. Como diabo saberia eu que ele gostava mesmo de mim? Reformulo: como diabo saberia ele que gostava mesmo de mim, se nunca tivesse gostado mesmo de alguém? Qual o seu ponto de comparação? Acho que passaria o resto da vida a pensar que ele tinha ficado comigo porque não conhecia outra coisa. E provavelmente ele também pensaria assim um dia. Por isso almejo para mim alguém que tenha um passado. Que tenha amado, desamado, sofrido. Que, parafraseando o grande Martinho da Vila, tenha tido muitas mulheres, de toda as cores, e que tenha parado em mim porque, depois de conhecer este mundo e o outro, achou que eu sou o melhor que qualquer mundo lhe pode dar.
De modo que eu quero alguém com bagagem. Mas uma bagagem que ainda respeite o limite de peso emocionalmente estipulado. Namorados com filhos e ex-mulheres já são demais para mim. Namorados com histórias não terminadas são demais para mim. Namorados muito amiguinhos das ex-namoradas e que continuem a dar-lhe abrigo em sua casa são demais para mim. Namorados traumatizados com relações anteriores são demais para mim. Namorados que quando bebem uns copos me comecem a falar da outra são demais para mim. Namorados que controlam todos os meus passos porque vivem na insegurança de uma traição antiga são demais para mim.
Serei eu intransigente no peso? Talvez. Mas mais vale barrar a mala logo no check in do que no momento de entrar no avião.
Mas, como todos temos telhados de vidro, eu tenho um telhado de cristal. E por isso, quem me apanhar a mim, cai-lhe no colo uma mala com o peso de todas as tristezas do universo. Uma mala estragada, de fecho avariado, já rota e, possivelmente, com mercadoria ilegal.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Até à próxima vez que nos virmos


Estou tão feliz por te encontrar de novo! Caramba, parece que foi ontem mesmo que nos vimos e já passaram anos. Já te disse que penso em ti muitas vezes? Que penso nas coisas que fizemos juntas, nos momentos que partilhámos? Às vezes começo a rir-me assim, do nada, e penso em ti. É como se o tempo não se tivesse interposto entre nós.

Há amigos assim. Conhecemo-los num momento em que o universo parece ter reunido todas as suas forças para propiciar o encontro. Um daqueles encontros casuais numa paragem do autocarro, num congresso, na fila para o quarto de banho. Começamos a conversar, primeiro quase a medo, não fosse eu o bicho-do-mato que sou, e de repente eis-nos ali a tagarelas como velhos amigos, como amigos de infância.

Depois vai cada um para seu lado, viver as suas vidas, namora e desamora, casa e descasa, sai de um emprego e vai para outro, tem filhos, fica mais velho, mas no dia em que nos encontramos novamente é como se tivesse estado juntos todos o este tempo. Não há silêncios, nem vergonhas, só muita coisa para contar. É como se a sua vida fosse um bocadinho minha, e as suas dores um pouquinho as minhas também.

Conheci a minha amiga Maria numa paragem de autocarro em Veneza. Vejo-a chegar ao longe, arrastando desesperadamente uma mala maior que o seu 1,60m, e pergunta-me naquele inglês macarrónica que desmascara logo um grego, se sabia para onde ia o autocarro. Depois de algumas respostas monossilábicas da minha parte lá chegámos à conclusão de que, afinal, íamos para o mesmo sítio, participar no mesmo evento. E ali mesmo, no meio da rua, começámos as duas aos pulinhos, a modos que descobrindo que assim como existe o amor à primeira vista também existe a amizade à primeira vista.
Durante o resto da semana eu e o meu meio-limão (foi assim que nos baptizámos) fomos inseparáveis. Talvez o facto de sermos as únicas latinas do grupo tenha contribuído para estreitar o laço, ou porque ambas as nossas vidas eram estranhas qb, ou talvez porque, simplesmente, it was meant to be.
Muitas lágrimas de despedida no aeroporto, muitas horas no msn, e passados uns meses eis que a minha Maria arranja forma de me convidar para um projecto, como modo de encobrir uma oportunidade de estarmos juntas.
Ora, não era aquela a melhor altura da minha existência. A bem dizer, tinha o coração partido, a vida feita em cacos e por dentro estava vazia de tudo. A Maria também não estava melhor. Pois que grega com juízo se lembra de arranjar um namorado turco? Bem sei que podia ter sido um contributo importante para a paz mundial mas, enfim… a coisa estava condenada ao insucesso. E lá estávamos as duas, algures numa cidadezinha irlandesa perdida no meio da terra de ninguém, com um tempo merdoso capaz de deprimir o mais optimista. E se há coisa que não esquecerei foi o dia em que ela me pediu para me deitar ao seu lado, olhos inchados pelas lágrimas, me agarrou na mão e disse, naquele inglês lindo que aprendi a adorar: “Estou tão feliz que estejas aqui agora, Que seria de mim se estivesse sozinha?”. Háverá coisas bonitas que os amigos dizem uns aos outros, mas esta…. Autch!!
E quando a história de amor entre a Grécia e a Turquia chegou ao final mais final que pode haver, e a Maria decidiu deitar fora toda e qualquer memória do “falecido emocional”, pegou num lindo par de sapatinhos violeta, de verniz, com um laço, como sapatos das princesas dos contos de fadas, e enviou-mos pelo correio. Sim, os benditos voaram da Irlanda para Portugal, como se fossem um órgão para transplante. Disse que eu era a única pessoa que ela gostaria que os usasse. E sempre que os calço – as cabeças que se viram para os ver! – me recordo do tudo porque passámos juntas, Porque aquele tudo já é muito: muitas lágrimas, muitas gargalhadas, mas muita esperança também.

Com a Maria Teresa a história repete-se: vi-a a primeira vez num congresso e não conseguia deixar de olhar para aquela mulher linda, fantástica, brilhante, a estrela da festa e só pensava no emocionante que deveria ser ter uma amiga assim.
Claro que vivendo ela noutro continente parecia difícil que a nossa amizade fosse para além de encontros casuais em congressos da especialidade, mas a vida tem destas coisas e acabámos por volta e meia “chocar” uma com a outra. E sabem de uma coisa? Cada vez que nos vemos é como se nunca nos tivéssemos separado.
As duas estendidas no sofá, a contar histórias, trocar sombras e batons, experimentar sapatos, como velhas amigas de infância. Nunca há silêncios. Parecemos gralhas. Invadimos tudo com a nossa energia. Os taxistas passam o tempo a olhar pelo espelho e a rir. Les enfants terribles, uma espécie de arrastão de hormonas femininas, de máquina em punho a querer fotografias com tudo e com todos, como se precisámos desesperadamente de mais memórias que sobrevivam até ao dia em que nos encontremos de novo.

Fui abençoada com a sorte de ter amigos (literalmente) em todos os continentes. Claro está que não os encontro ao virar da esquina e por vezes passam anos que não os abraço. Felizmente as novas tecnologias vieram permitir manter estas tele-amizades. Mas o surpreendente é que cada vez que nos encontramos é como se nunca nos tivéssemos separado. Nunca sei quando os verei de novo, ou sequer se os verei mais. Por isso aprecio tanto cada momento e nunca lhes digo verdadeiramente adeus, mas apenas que se cuidem até à próxima vez que nos virmos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

EASY RIDER


Embora a febre motard me corra na família nunca padeci dessa doença. Até dispensei a acelera que muitos coleguinhas tinham no liceu. O maior fascínio das motas para mim residia – e nem este era particularmente perturbador – na ideia de um tipo de óculos Ray Ban a conduzir a dita por uma estrada deserta, muito ao estilo do Dylan de Beverly Hills 90210, o mito da minha juventude.
Posso até confidenciar que olhava para os tipos das motos com certa…
Desconfiança? Enfim, é sabido que os idiotas que gostar de circular a 200km/h provocam acidentes seríssimos só pelo prazer de sentir a adrenalina. Ora, eu acho que cada um tem o direito de se matar como queira (daí ser firme defensora de eutanásia e dos testamentos em vida), não tem é o direito de andar a matar os outros e destruir familiar.
Paternalismo? Convenhamos que o ridículo da vestimenta de cabedal, com o lencito à Xutos, barbas a roçar a cintura e um ar, no mínimo, avesso à limpeza, me despertava certo paternalismo.
Curiosidade? Pois se a coisa tem tantos adeptos já desconfiava que não havia de ser má de todo e que algum encanto se escondia por entre km de alcatrão e terra batida.
Mas como de tudo nos calha na vida este fim-de-semana bateu-me à porta o convite para um passeio de mota. Mota… quer dizer, nem sei ao certo como lhe chamar. Para mim aquilo parecia um tanque de guerra de duas rodas. Aceitei à falta de melhor programa e aliciada pela companhia. Mas a medo. Muito medo. Na noite anterior sempre que fechava os olhos me imaginava contra os rails de uma auto-estrada, desmembrada ou, no mínimo, decapitada. Ora, se esse não foi um fim simpático para a Maria Antonieta, não vejo porque o deva ser para mim. Mas como o objectivo é defrontarmos os nossos medos lá fui eu fazer de pendura (“uma miúda das motas”) neste Domingo de Agosto
Primeiro desafio: escolher a vestimenta apropriada. Porque não tendo sequer um blusão de protecção, colocava-se a questão de saber como me proteger do frio e de algum potencial embate. Antes de mais, exclusão de roupas que se pudessem enredar na mota ou que subissem de tal modo ao sabor do vento e da velocidade que os restantes motociclistas e automobilistas vislumbrassem a rendinha da minha roupa interior.
Segundo desafio: enfiar a minha gigante cabeça no capacete. É que além de uma juba de leão (só eu sei, porque não fico em casa, lalalalalala) agraciou-me Deus (ou o demónio) com um cérebro monumental, de modo que nem me cabe na cabeça (tenho para mim que a principal razão do meu cabeção é mesmo massa cinzenta e não puro vácuo). Depois de prender a cabeça lá dentro, de tal forma que seria precisos 10 homens a puxar-me pelo pescoço para me “desenfiar” de novo, dei por vi a divagar sobre o bonito estado dos meus caracóis quando tirasse a carapuça. Mas decidi que iria adoptar um movimento à “anuncio de champô”, de modo que mal me “desencapacetei” eis-me a abanar a cabeça para todo o lado, ao melhor estilo da Pantene.
Terceiro desafio: subir para a mota. Porque, como disse, aquilo era mais bem um touro. Um bisonte. Uma coisa grande. Equilíbrio. Não caias na frente desta gente toda por favor. Agarrei-me como pude ao condutor, com unhas, dentes, e que mais tivesse eu para me manter firme, e levantei a perna. De pouco me serviu a minha afamada flexibilidade, porque acabei por dar com a biqueira da bota na mala da mota. Mas finalmente sentei o rabiosque e pensei que aquele fora o meu movimento mais arriscando. Ufa!!!!... Mas quando a coisa se pôs em movimento vi o quão crasso fora o meu erro de julgamento.
Quarto desafio: manter-se em cima da mota. É que aquilo anda. E faz curvas. E inclina-se. E passa entre os carros, que nem sempre nos vêm e muito menos gostar de se sentir ultrapassados por gente de duas rodas. E como, segundo parece, o condutor sente alguma dificuldade em conduzir comigo abraçada ao seu troco como se fora um macaquinho agarrado à mãe, não me restou outra saída senão os apoios laterais. E lá fui, hirta como um pau de vassoura. Depois dos primeiros km deixei de lhe dar “capacetadas” sempre que ele abrandava, e ao fim do dia até já, pasme-se, me atrevi a libertar as mãos e coçar o pescoço.
Balanço final: ainda tenho muito para aprender, mas a Elisabete Jacinto que sou cuide. Hoje nasceu uma motard. Esy rider, easy going.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O gene da felicidade


Há quem toque Chopin. Há quem dê saltos acrobáticos no ar. Há quem cozinhe soufflé sem que fique amarrotado no fundo da forma. E há quem faça as pessoas felizes. Refino o meu pensamento: há quem consiga fazer uma pessoa, uma em particular, muito feliz.
Isto de fazer alguém feliz não é para todos. É um dom, um talento, uma graça, uma bênção, sei lá. Tornando a afirmação mais científica, direi que é uma benesse do nosso ADN que permite a alguns fazer os outros felizes.
Bem sei que numa primeira abordagem parece coisa simples. Se lhe fizermos as vontades ela, a outra pessoa digo, será feliz. Se apreciarmos as coisas de que ela gosta, se nos interessarmos pela sua vida, se a tratarmos com carinho e respeito, se a fizermos sentir importante e desejada… porque não há-de ela ser feliz? Bem… porque as relações humanas não são uma fórmula química, de modo que não basta juntar os elementos correctos num tubo de ensaio para descobrir o elixir da felicidade.
Não vos aconteceu já pensarem que estão a fazer tudo bem, ou melhor, saberem que estão a fazer tudo bem, e mesmo assim não conseguirem chegar lá? Amam o outro com paixão e devoção, fazem-no sentir a última bolacha do pacote, tentam tornar-lhe a vida mais fácil, mais prazenteira, mas mesmo assim aquela irritante vozinha interior continua a dizer-vos que fracassaram enormemente. E o pior é que a bendita da vozinha tem quase sempre razão (neste aspecto, é como as mães), de modo que um dia o “Ele” ou a “Ela” se viram para vocês e dizem: “Tu não me fazes feliz”. E nós até já sabíamos. Mas quando é dito assim, em voz alta, íris na íris, simplesmente, torna-se mais real. E é uma dor imensa. Como dor de dentes, dor menstrual e dor de ouvidos tudo junto, numa mesma dor interior.
Este “falhanço felicitário” não resulta do muito ou pouco que se goste do outro. Mas resulta sem dúvida do muito ou pouco que o outro gosta de nós. A dura verdade é esta: todos somos felizes com as pessoas de quem gostamos. É cruel, bem sei, mas ninguém disse que as relações humanas são para meninos. Quando gostamos de alguém podemos ser ignorados, menosprezados, e todas as coisas negativas terminados em “ados” e, mesmo assim, continuamos… apaixonados. Ados. Existe ali uma qualquer espécie de felicidade masoquista por força da qual basta a pessoa existir e estar ali ao nosso lado para nos fazer felizes. Pelo contrário, quantas vezes não tivemos já verdadeiros anjos nas nossas vidas, que se dedicaram a nós de alma e auréola, mas com quem nunca fomos verdadeiramente felizes?
Dito isto, concluo que fazer o outro feliz passa muito pelo quanto conseguimos cativá-lo e fazer com que se afeiçoe a nós. Não é tanto a forma como o tratamos, mas a forma como o apaixonamos. E ao que parece essa é uma questão de feromonas, de áureas, de coisas inexplicáveis tipo Poltergeists e zombies…. Caramba, será o amor um filme de terror?
Moral da história: alguns de nós que vivemos neste planeta não conseguimos ser gostados como manda a lei e, por conseguinte, sofremos de uma inaptidão crónica para fazer o outro feliz. Esta é uma doença grave e incurável, que acarreta consigo muito sofrimento, e que conduz a uma morte lenta e atroz. Não se trata de uma incapacidade que possa ser suprida com estudo e investigação. É que eu ainda pensei em procurar um explicador, ou uma daquelas formações pós-laborais, ou um curso por correspondência que fosse, para ver se consigo aprender a fazer alguém feliz. Mas estou em crer que isto é como uma arte: posso treinar a vida toda mas se não tiver em mim a aptidão natural para tal nunca serei um Mozart da felicidade. Sendo uma falha genética só me resta esperar que os novos avanços na terapia génica e no genoma humano descubram uma maldita forma de inserir em mim o gene da felicidade.