terça-feira, 16 de março de 2010

Quem tem medo do ginecologista?


Esqueçam o Papão, o Homem do Saco, o Freddy Kruger. Medo, mas medo a sério, é do ginecologista.
Não sei se é dos quadros que nos rodeiam da sala de espera, autênticas exposições dos vários instrumentos de tortura para nos abrir, fechar, cortar, espremer (digamos que ao pé deste arsenal ginecológico os senhores da Santa Inquisição não passavam de meninos de coro). Também pode ser a visão de nós mesmas sentada na “cadeira”, com o corpo aberto até ao seu máximo limite, quase fazendo crer que vamos escorregar dali a qualquer momento e estatelar-nos no chão. E para culminar com a humilhação máxima recordemos que estamos sem roupa interior. Aliás, este é o ponto crucial. Tenho para mim que o me apavora, aterroriza, amedronta e paralisa é aquela completa sensação de fragilidade. A total perda de intimidade e, quase estou em dizer, de alguma dignidade (difícil de manter quando se tem as cuecas pelos tornozelos). Aquele é, sem dúvida, um dos momentos de maior vulnerabilidade humana.
Segundo ouvi dizer as idas ao urologista não despertam tanto pavor nas hostes masculinas. O que não faz deles heróis. Afinal, o contacto físico resume-me a uma vistoria geral pelas obras e pouco mais. Está ausente aquele grau de intromissão que marca as nossas estadias na tal “cadeira”, só suplantada pela cadeira eléctrica.
Se assim é, porque continuo eu a submeter-me a estes suplícios anuais? Porque por muito que doa e me perturbe, estou rodeada de histórias de mulheres (mães, irmãs, amigas, primas) que se descuidaram, que deixaram passar demasiado tempo, para descobrir tarde demais aquilo que, detectado mais cedo, teria tido um desfecho diferente. Os carcinomas não são só doenças de gente velha, de tias-avós que nunca conhecemos. São doenças de todos nós, e creio que facilmente nos vem à memória a perda de alguém muito querido, tão jovem e aparentemente tão saudável como nos sentimos agora. Mas este é só a ponta do iceberg. Infecções, vírus, nódulos, infertilidades, malformações congénitas, tudo isso nos pode um dia bater à porta. E se bem que alguns destes males são impossíveis de evitar ou de curar, quando mais cedo os detectarmos e controlarmos melhor viveremos com eles.
Por isso eu sigo à risca a regra da visita anual e não perdoo em sermões às amigas que inventam não ter tempo, nem paciência, nem dinheiro, para baixar a cuequinha e tratar do assunto.
Convenhamos, não é muito pior do que ir ao dentista. Digo isto embora eu, em boa verdade, sempre tenha ansiado pela ida ao dentista. É que uma das minhas mais ternas recordações de infância passa pelo Dr. Duarte me fazer uma festinha no cabelo e me recomendar o remédio do costume no final da nossa consulta. O dito remédio era o fabuloso do gelado (na altura só da “Olá”, afinal, temos que recuar mais de duas décadas). Claro que a minha relação com os gelados era bem mais profunda do que aquela fomentada pelas visitas ao dentista. Mas – e nunca percebi bem porquê – o gelado “receitado” pelo médico sabia melhor que qualquer outro, e devorava-o à lambidela como se fosse uma pobre indigente que nunca tivesse comido um na vida.
Tanto assim é que no final da minha última visita ao ginecologista ainda fiquei ali especada, a olhar o médico, depois de ele dar por findo o nosso encontro. Ansiava para que me receitasse um dos tais remédios milagrosos. Não que estivesse à espera que me mandasse comer um gelado. Mas ainda tinha esperança que finalizasse a consulta com um “E agora compre uma carteira” ou “E depois deste tratamento não sabia bem um relógio novo?”. Até dispensava a festinha na cabeça. Mas as minhas expectativas saíram goradas e o máximo que recebi foi um aperto de mão.
Enfim, confesso que não saí totalmente desanimada. Pelo menos, o ego vinha em alta. É que parece que é prática habitual entre os ginecologistas elogiarem alguma parte do nosso corpo. Sem maldade. Só em termos biológico, entenda-se. Um dos elogios mais curiosos que recebi foi o de médico que me disse que eu tinha, cito, “um útero muito bonito”. E eu logo me imaginei a doravante, apresentar-me a potenciados candidatos a Amor da seguinte forma: “Olá, sou a Vera e tenho um útero muito bonito”. De certeza que isto me teria granjeado muitos admiradores. Pelo menos dá novo sentido ao conceito de “beleza interior”.

1 comentário:

  1. Outra Cinderela sem sapato26 de abril de 2012 às 08:09

    "Segundo ouvi dizer as idas ao urologista não despertam tanto pavor nas hostes masculinas. O que não faz deles heróis. Afinal, o contacto físico resume-me a uma vistoria geral pelas obras e pouco mais."
    Não acredite em tudo o que ouve, sobretudo se se tratar de um heterosexual masculino, espécie que dificilmente irá confessar em público que apanhou com o dedão indicador do urologista pelo rabinho acima - é assim que se examina a próstata;)

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