segunda-feira, 25 de abril de 2011

Quanto custa este espermatozóide?


Noticia do jornal: a Maternidade Alfredo da Costa (vulgo, MAV) tenciona vender esperma.
Vá lá, podia ser pior. Podia querer vender quadros do menino da lágrima ou jarras com flores de plástico. Mas a verdade é que o povo ficou louco com a questão.
Pergunta: o que há de tão grave em vender esperma? Em vender partes, elementos ou fluidos do corpo, que sejam regeneráveis e cuja ausência não me cause dano (e com isto afasto logo à partida potenciais vendas de rins)?
Afinal, todos os dias vendo a minha capacidade intelectual, que, em bom rigor, deveria ser mais prezada com um lagartinho com cauda a agitar. As modelos – aquelas miúdas escanzeladas com olhar de veado assustado, que enchem as páginas das revistas e as passerelles deste mundo – vendem a sua imagem, os seus quilos, as suas curvas. O Cristiano vende a sua aptidão física ao clube que pagar mais e os abdominais à marca de roupa que pagar mais ainda.
Bottom line: não andamos todos, a todo o momento, a vender alguma coisa?
Porque é que vender partes do corpo (nas condições referidas, claro está) suscita tanta celeuma?
É a instrumentalização da pessoa? Não consigo pensar em gentinha mais instrumentalizada do que as tais modelos, os tais futebolistas, os tais outros que como eu vendem neurónios em troca de um carro ou de uma casa.
Dificuldade acrescida do caso: o que a mim me irritou solenemente na decisão da MAC é aquilo que não foi dito, ou foi erradamente dito. A versão contada aos jornais é que os tais 350 euros que se pretende cobrar pelo esperma é o preço que a MAC paga pelo dito ao banco ao qual o “compra”, sendo que a aplicação da técnica em si seria inteiramente grátis. Ora, isto a mim causa-me estranheza. Antes de mais, porque não há almoços grátis, nem técnicas que não sejam pagas. Depois, porque não sou propriamente perita em esperma (esta afirmação daria pano para mangas!) mas, tanto quanto sei, a coisa sai barata. Ou seja, parece que o produto em si está neste caso a ser pago a “preço de amigo”, mas na versão contrária. E assim caímos no contra-senso de ser mais caro recorrer à reprodução com esperma de dador no Serviço Nacional de Saúde do que no sector privado. São as idiossincrasias do paizinho que temos.
Pequena pedra no sapato que acresce a este problema: o esperma vem de Espanha. Nuestros hermanos são tão espertos que agora nos querem colonizar de outra forma, mais subtil mas também mais eficaz e penetrante (o que é uma bela escolha de palavras). Depois do domínio dos Filipes eis que chega o domínio dos espermatozóides. Felizmente logo alguns cidadãos preocupado com o orgulho nacional se chegaram à frente e foi ver nos sites onde a notícia vinha publicada ofertas e mais ofertas do bom homem tuga a disponibilizar-se para fazer a doação. In vivo, obviamente. Afinal, o macho lusitano não perde uma oportunidade de dar uma queca ou de se voluntariar para uma.
Mas deixem-me regressar de novo ao ponto da questão: será que o esperma se pode comprar e vender? E os óvulos? E o sangue?
Será que se eu doar material biológico por puro espírito de ablegação pessoal mereço palminhas, ma se o fizer para pagar a prestação da casa já sou uma vil interesseira? O dinheiro conspurca tudo? É que assim talvez eu devesse trabalhar de borla. Todos nós na verdade. Pagávamos as mercearias com beijinhos e os impostos com abracinhos. E em vez de caixas de ATM teríamos bancas de beijos esquina sim, esquina não. Toda uma economia baseada no sentimento. Bolsas de valores de festinhas e cafunés. Ai que felizes que seriamos! Posso garantir que os portugueses, carinhosos como são, seriam a primeira economia do mundo e não haveria FMI que metesse cá os pés. Enfim, só se fosse para uma festinha na cabeça…
Entre as muitas coisas maravilhosas que nos ficaram do catolicismo está este dogma de que o dinheiro é uma coisa feia e má, que só deve existir dentro do Vaticano e da sua opulenta riqueza. Já nós, comuns mortais, devemos viver de forma espartana. Felizmente a minha herança judaica permite-me afastar sentimentos de culpa cada vez que me dedico a uma orgia de compras. Senão seria uma alma torturada já vos digo.
Para acalmar as consciências sempre podemos dizer que a quantia paga visa compensar os incómodos sofridos pelo dador. No caso das mulheres – atendendo a que se trata de um processo doloroso e aos perigos a que se sujeitam com a recolha dos ovócitos, que em última instância e em casos raros pode até conduzir à morte – este argumento tem alguma valia. Mas no caso dos homens é mais difícil explicar a história da compensação pelos incómodos. Não os vejo consternados depois de uma sessão solitária na casa de banho com uma Gina ou coisa do tipo (não sei ao certo o que por aí circula), nem tenho notícia que algum deles tenha batido a bota enquanto batia outra coisa qualquer, a não ser que o senhor tivesse 99 anos e antes tenha tomado um Viagra.
Por isso sugiro que se chamem as coisas pelos nomes: não é uma compensação pelo incómodo, ou melhor, não é apenas disso que se trata, mas sim de um pagamento pelo produto.
No mundo tudo se compra e tudo se venda. O amor pode ser última vaca sagrada que temos, e mesmo aí nem sei se o Beatles teriam razão. You can’t buy my love. But you can buy my sperm.

4 comentários:

  1. Um post sobre esta temática não fica completo sem a clássica versão dos Monty.

    http://www.youtube.com/watch?v=47P59ha9k9s

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  2. Eu diria mesmo que nada na vida fica completo sem os Monty

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  3. Lamento, mas não sou eu que determino a biologia.

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