sábado, 10 de março de 2012

Casamento aberto, coração fechado?


Numa altura em que tantos casamentos terminam há-que perguntar porque é que se mantêm aqueles que se mantêm. Já sei que me vão do amor de verdade, da honestidade, da lealdade, de interesses económicos, dos filhos, da pura preguiça. Pois bem, vi há uns tempos um documentário no qual se sugeria um outro cimento: os affairs.
Repare-se que não escrevi infidelidade. Na verdade estive aqui uns bons dois minutos a pensar qua seria a palavra mais acertada. Porque infidelidade, segundo vejo as coisas, expressa uma deslealdade, uma mentira, uma coisa que se esconde. Ora, aquilo de que quero falar é antes a manutenção de relações extraconjugais - no puro sentido de relações sexuais, entenda-se – com o conhecimento, e inclusive o apoio do outro. Trata-se de abrir o casamento á intervenção de gentios e bem-parecidos terceiros, enquanto ao mesmo tempo o coração permanece (segundo parece) fechado às incursões dos ditos. Assim, não só se afasta a monotonia e se brinda o casamento com novas e emocionantes aventuras como, por outro lado, se tem absoluta certeza de que o outro permanece apaixonado pois que todos os dias vê os seus sentimentos testados.
No documentário lá aparecia o nosso casal feliz, sentados no sofá a conversar um com o outro, quando de repente toca a campainha e entre um dos vários “terceiros intervenientes”. Cumprimenta a senhora com um beijinho, um aperto de mão ao marido, e vai daí pega na mulher deste marido e vai com ela para o quarto. Não um quarto de hotel, mas um quarto ali mesmo da casa onde esse tal marido passou o resto da tarde, no sofá a ver televisão e a fazer palavras cruzadas. Enquanto isso a mulher e o terceiro lá estavam no quartinho, os dois. A fazer coisas. Daquelas com bolinha vermelha. Até que saíram cá para fora, se despediram com um bem-haja e o feliz casal voltou à sua vida banal de… feliz casal. Enfim, tudo está bem quando acaba bem.
Depois foi a vez de chegar uma terceira para fazer companhia ao senhor. E lá foram eles os dois para o dito quarto, certamente em grades acrobacias, enquanto a mulher terminava de pintar as unhas dos pés. E depois foi para a cozinha fazer o almoço, e no final da história comerem todos juntos à mesa, porventura falando das intimidades de cada um.
É isto adultério? Eu diria que não.
A ideia de um adultério consentido (e até incentivado) é uma incongruência nos termos. O adultério é, sempre e necessariamente, uma situação enganosa e desleal. Nem sequer se pode dizer que seja uma infidelidade porque na verdade as partes estão a ser fiéis ao seu projecto comum de vida. Logo, quando ambas as partes estão de acordo na intervenção de terceiras pessoas… live and let live. A verdade é que se um casamento nestes termos dura para além do tradicional prazo de validade dos sete anos, então, é porque o esquema funciona.
Dito isto, será que a relação aberta é um caminho a ponderar?
Teoricamente sim. E certamente funcionará para algumas pessoas. Mas eu continuo a achar que a monogamia está bem e recomenda-se. Pela minha parte nem consigo conceber outra forma de vida.
A questão é que eu gostava de não dizer isto. Gostava de ter um espirito tão aberto a ponto de chegar aqui e escrever maravilhas desta coisa aparentemente fantástica na qual terceiras pessoas (mais ou menos) interessantes entram e saem da relação conjugal, tornando-a mais rica, divertida e desafiante. E até, pelos vistos, mais consistente. E estaria mais que disposta a dizer isto não fosse o facto de ter a cabecinha cheia com ideias (burguesas?) que me foram incutidas por um educação parental meticulosa e por uma data de livros de príncipes, princesas e cavaleiros andantes. Ora, nunca se ouviu falar que a princesa tivesse traído o príncipe com o sapo (excepto a Lady Di, claro está). De modo que estes principiozinhos continuam a ditar a forma como vejo o mundo e, especialmente, as relações a dois, que para mim são isso mesmo e apenas isso: uma relação onde só duas pessoas existem.
Não se veja aqui qualquer censura moral face a quem adopta este estilo de vida. Há muito poucas coisas neste mundo face às quais sou intolerante e esta não é, de todo, uma delas. Partilhem o vosso amor, o vosso sexo e sejam muito felizes. Digo-o genuinamente. Mas eu não sou assim. De modo que me esperar que a minha relação fechada dure (pelo menos) tanto tempo quanto a vossa relação aberta.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Crónica das boas malandras


“São piores que nós, é o que te digo”.
O tipo de manga cava, cabelo rapado e corpo como um muro, gritava estas palavras pelo corredor do shopping, de modo que eu não tinha como não olhar para ele. Talvez fosse pela dita manga cava, aliada ao restante look de gigolo em saldos. Talvez fosse pelos berros que dava ao longo do shopping. Ou talvez apenas porque qualquer homem que se escandalize pelo facto de as mulheres serem seres tão sexuais e atrevidas como os homens me escandalize a mim. Não sei o exacto motivo. Mas foi para mim um sinal de alerta de um fenómeno escabroso que se andava a passar debaixo do meu nariz.
Ao que parece aquela alminha era instrutor de uma modalidade qualquer, num daqueles ginásios que nós pagamos para ter gente instruída que nos ajude a ginasticar sem apanhar nenhuma lesão. Mas, ao invés de estar atento à forma como as suas alunas faziam os exercícios, o tipo passava aquela horinha de trabalho a topar as malhas justas que as ditas alunas levavam para as aulas. Ah, as malandras das alunas. Toda a gente sabe que é suposto ir ao ginásio de gola alta e burca. Onde é que aquelas malvadas tinham a cabeça quando se lembraram de aparecer de leggings e tops?
É claro que perante tal factualidade não podia o pobre desgraçado deduzir outra coisa senão que as malandrecas abdicavam da sua hora de almoço propositadamente para o seduzir.
Meninas, o tipo apanhou-nos: ele percebeu que o motivo pelo qual mulheres auto-suficientes, com profissões exigentes, e alguma preocupação em caber nos bikinis, acordam quase de madrugada e trocam uma hora de sono por uma hora de dor e transpiração, ou então desperdiçam a hora de almoço no ginásio para depois engolir uma sandes manhosa em 2 minutos. Para seduzir o instrutor, claro está. Obviamente que não será para perder peso, ganhar musculo e sentirem-se bem consigo próprias, não senhor.
O ponto alto da conversa telefónica- sim, fica mais alto do que isto – é quando a mente iluminada conclui que “as gajas são piores do que nós. Ouve o que te digo, as gajas são piores do que nós”. Ora bem, esta conclusão suscita-me tantos pensamentos que nem sei por onde começar:
i) Existe uma competição entre os sexos para ver quem é mais atrevido ou mais depravado? Se existe agradecia que me tivessem informado antes porque eu não tenho ido aos treinos e isso parece-me jogo sujo.
ii) O grau de atrevimento e depravação é condicionado pelas roupas que se usam, mais propriamente, pelas roupas que se usam no ginásio? Não consigo deixar de ficar perplexa quando me dizem que fulana x ou y deve ser de “fácil acesso” porque usa mini-saia e decotes. É que na verdade as meninas mais assanhadas (e que bom para elas) com quem tive oportunidade de privar vestiam-se, em regra, como castas noviças, ao passo que eu, com as minhas sais-cinto e adornos corporais, sou, basicamente, o que se chama uma totó. De modo que julgar o comportamento dos outros pela apresentação exterior é tão naif e limitado como achar que todos os chineses são bons a matemática e que todos os brasileiros gostam de Carnaval. Chama-se “preconceito” e “estereótipo”, e é sinal de tacanhez intelectual. Depois, parece-me sobretudo patético que alguém se convença que o coleguinha de ginásio o está a galar a partir de umas calças justas, e de todas aquelas outras coisas que costumamos levar para os ginásios. E a transpiração é sinal de quê? Excitação sexual?
iii) Finalmente, é suposto as mulheres serem as que se deixam conquistar? Ficar sentadinhas à espera que algum garboso cavalheiro se aproxime e lhes pergunte “a menina dança?”. Podemos ao menos deixar cair um lencinho branco no chão? Ou quem sabe piscar incessantemente os olhos? Enfim, onde se situa a linha entre o jogo da sedução e a tolice? É que se eu ficasse à espera que o meu namorado me “abordasse” ainda hoje estaria a jogar xadrez sozinha. Até eu, a Grão Mestre da Ordem das Totós, tive que espevitar. De modo que, mesmo que as ditas malandras assanhadas tivessem como propósito seduzir aquele instrutor - o que só por esdruxula hipótese se concede (por exemplo, a circunstância de não existir mais nenhum homem à face da terra) – e … so what?
Só não fico seriamente preocupada com esta conversa porque… enfim… qualquer coisa que saia da boca de um espécime de manga cava deve ser ouvida com granu salis (desculpem os caríssimos leitores pelas mangas cavas que tenham, mas fiquem sabendo que - e exceptuando casos muitos excepcionais, que certamente não envolvem passeios pelo shopping - isso está ao nível da peúga branca com raquetes e dos cruxifixos aos peito).
Numa outra perspectiva posso confirmar que o relato descrito teve o inegável mérito de me alertar para essa malandragem que assolam os nossos ginásios, de ninas que se atrevem a fazer exercício giras e a mostrar os abdominais. Toda a gente sabe que era suposto aparecerem deslavadas, de roupa largalhona e com elásticos a ceder. Melhor ainda, com cuecão. As, as malandras!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Temos que falar


Deve haver poucas frases no mundo mais terroríficas para um homem do que o célebre “Temos que falar”.
Bem sei que há fortes candidatos a derrotar esta proclamação dramática. “O que achas desta amiga minha?”. “Estou mais gorda?”. “Preferes estar com os teus amigos do que comigo?”. “Que raio de mensagem é esta no teu telemóvel?”. “Achas que as coisas entre nós vão resultar?”. “Quando podemos ter filhos?”. And so on, and so on.
Mas o “Temos que falar” é o incontestável vencedor porque, em boa verdade, daqui tudo pode resultar. Podemos ter que falar sobre a forma como ele olhou para outra mulher, sobre o nosso passado, sobre o nosso futuro. Botton line: nunca temos que falar sobre coisas boas. É sempre coisas melindrosas e chatas.
É uma intimidação – repare-se, não é um convite, um pedido ou uma sugestão – para uma daquelas conversas que os homens querem a todo o custo evitar. E a verdade é que os homens querem sempre evitar todo o tipo de conversas, a não ser que digam respeito a futebol, copos, carros, motas ou mamas, ou já agora, qualquer coisa que se possa montar. Mas qualquer referência que minimamente envolva sentimentos, fragilidades, compromissos, tudo isso vem acompanhado na mente masculina com uma sirene e um alerta vermelho do tipo “foge e esconde-te”. Ou, noutros termos, “tenta evitar esta conversa o maior tempo possível, adia com todos os argumentos que te vierem à cabeça, e quando não conseguires pedir mais tempo sê o mais evasivo que possas, responde com monossílabos ou, melhor mesmo, remete-me ao silêncio”.
Já as mulheres, bem, nós adoramos conversar. Com todos e sobre tudo. Mas sobretudo com ele e sobre a nossa relação. É verdade: passamos mais tempo a analisar a relação, a reflectir sobre ela, a tentar melhorá-la, do que propriamente a vivê-la. E a questão é que não nos satisfazemos em meditar sobre a dita sozinhas, no aconchego da nossa cabeça. Gostamos de partilhar as nossas angústias com as amigas, o que já de si é desagradável, porque deixa escancarada a porta da intimidade quando para um homem essa porta deveria permanecer fechada e até com o buraco da fechadura tapado. Mas, sobretudo, gostamos de falar da relação com eles. De lhes perguntar coisas. Daquelas coisas que eles não nos querem dizer, e que por vezes nem eles sabem. E não nos satisfazemos com qualquer resposta. Queremos AQUELA resposta. A tal que nos faz sentir especiais e únicas.
Mas já que sabe que os homens, por regra – com excepções, e não tão-poucas assim, reconheço – são parcos de palavras. Ou seja, ao contrário de nós têm por hábito usar apenas uma pequena parte do seu vocabulário. As emoções são mais neutras e gostam de as reservar para si. E, acima de tudo, têm especial cuidado em não deixar transparecer promessas. Ora, nós adoramos promessas. E somos capazes de arrastar uma conversa até à exaustão só para arrancar ao desgraço essa promessa, que ele acaba por deitar cá para fora na vã esperança que nos calemos. Mas não. Nós continuamos. E continuamos. E continuamos. E muitas vezes, para piorar a coisa – como se pudesse ficar pior ainda – desatamos a chorar compulsivamente. Ou, pelo menos corre-nos uma lágrima pela face. Não digo que seja sempre estratégia. Umas vezes é-o, reconheço. Mas noutros casos é apenas a frustração do rumo da conversa que deita cá para fora aquele mililitro de líquido salino que temos sempre no saco lagrimal, desejoso de saltar e pronto para nos borrar a pintura.
A questão é que muitas das respostas que nos dão no tal “Temos que falar” não são para levar a sério. Não porque nos queiram deliberadamente ludibriar, mas porque os vencemos pelo cansaço e, nesse ponto, eles dirão qualquer coisa que nos faça calar. Ou seja, dirão exactamente aquilo que queremos ouvir, independentemente de ser verdade ou não. E nós sabemos isso, creio eu. Mas, por algum estranho motivo que talvez se ligue às hormonas, ao cérebro, ao que seja, precisamos de o ouvir dizê-lo. Mais do que isso, precisamos de nos ouvir falar. De nos ouvir dizer todas aquelas coisas que mentalmente memorizámos, aquelas frases bonitas que achámos que teriam um efeito dramático. Podem ser coisas muito certas. Podemos ter toda a razão do mundo. Mas o facto de as dizermos vezes sem conta e de os obrigarmos a dar-nos razão não as torna mais verdadeiras nem nos dá mais razão. Pelo contrário, torna-nos chatas e banais.
Em suma, se o objectivo é esse - ouvir-nos a palrear – então, mais vale que nos viremos para a torradeira ou para um chinelo e dizer-lhe: “Temos que falar”. Certamente receberemos deste nosso interlocutor a mesma atenção.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Médicos do INEM, roupa interior e outras coisinhas mais


1.º nota – Doctors are hot! Nem era preciso vermos o George Clooney a curar criancinhas, nem o McDreamy e McSteamy à luta pela ruivinha, para chegarmos a esta conclusão. Não sei se é por salvarem vidas, se é pela bata branca e o estetoscópio, ou simplesmente porque conhecem com precisão cada ínfima partezinha do nosso corpo, mas o certo é que desde há muitas gerações que os médicos nos fazem suspirar bem mais do que os engenheiros ou os advogados.
2.º nota – Um dos grandes handicaps de não ter um homem na nossa vida é a perda de importância daquilo que se usa debaixo da roupa. Enfim, poderia dizer que me visto para ficar bonita para mim mas, mas eu acho que estou bonita de qualquer forma (se eu não gostar de mim…?). Eu quero é estar confortável. E pouco me importa se olho para baixo e vejo uma cueca gigante de cores berrantes. Tudo o que funcione melhor para me dobrar ao meio e me esticar no sofá é aprovado pela mestre-de-obras.
Intersecção entre ambas as notas: O que é que os médicos têm a ver com a minha roupa interior? Tudo, caríssimos e caríssimas. É que o meu desleixo só se aplica quando estou em casa, de tranças e óculos, arrastando-me entre o computador e os livros. Mal ponho o pé na rua a roupa interior passa a ser o prius da minha existência. É que pode não existir namorado para a apreciar condignamente e a arrancar devagarinho, mas há sempre a esperança de ser atropelada ou de cair na rua de ataque fulminante e aí… bem, aí, viriam os médicos do INEM. Confesso que nunca conheci nenhum, nem intimamente nem sequer socialmente, mas tenho esta fantasia (admito que pouco fundamentada) de que são todos uns giraços, altos e bem formadinhos e, o melhor de tudo, com dois dedos de testa. Afinal, os tipos conseguiram tirar o curso de medicina, não podem ser tontos de todo!
Ora, acontecendo uma felicidade destas (eu disse felicidade? Queria dizer infelicidade, desculpem o lapsus linguae), lá teriam os médicos que me arrancar a roupa (com um bocadinho de sorte arrancam-na com a boca) e, obviamente, preferia morrer ali mesmo a ser vista com o cuecão da avó e o soutien deslavado sem armação. Por isso, todas as vezes que saio do aconchego do lar, nem que seja para ir comprar pão ao fundo da rua, lá visto eu as minhas pequeninas calcinhas (detesto a palavra “cuecas”… coisa mais sem graça… por isso adoptei a terminologia brasileira), com lacinhos de ambos os lados, o soutien “empinante”, cheio de rendinhas e rococós e, se for caso disso, as meias de liga.
E a cada passo que dou anseio com todas as minhas forças: i) que a desgraça esteja comigo; ii) que alguém tenha o bom sendo de chamar o INEM quando tal finalmente aconteça; iii) que o médico seja lindo a ponto de ressuscitar mortos; iv) e que a situação obrigue a respiração boca a boca. Ah, claro, e que v) tenha que me despir. De pouco me vale andar com as melhores roupinhas intímas se não é para as mostrar. Mas se os amáveis doutores não acharem necessário privar-me das minhas vestes, sempre posso ter um ataque de espasmos que me faça rasgar a roupa. Seria um último recurso, mas não descarto a hipótese. Afinal, no amor, na guerra e na saúde vale tudo. Especialmente se estiver em causa um conjunto de lingerie e um médico que cure males do coração

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Os ex’s das nossas vidas


Os ex (ex-namorados, ex-maridos, ex-amantes) nunca desaparecem completamente da nossa vida, pois não?
Pode desaparecer o sentimento, podem sumir-se da nossa vista, pode aparecer um outro grande amor para ocupar o seu lugar, podemos mesmo querer esquecê-los a todo o custo, mas no fundo, bem lá no fundo, eles estão sempre por aqui.
Quase como uma pedra no sapato. No caso, uma pedra no coração, que pode chegar a ser tão dolorosa como uma pedra no rim.
Há sempre qualquer coisa que nos recorda dele. Pode ser um filme que vimos juntos, um presente que não deitámos fora, ou simplesmente amigos que tivemos em comum. Umas férias que passámos e que as fotografias teimam em nos recordar. Um número de telefone que subitamente salta de uma velha agenda esquecida. Ou pior, ainda, um e-mail que cai que nem uma bomba na nossa caixa do correio.
Reencontrar um ex pode ser uma experiência dolorosa, nostálgica, gratificante, apaixonante, desesperante ou mesmo irrelevante. Em boa verdade, mesmo quando irrelevante, nunca deixa de ter a sua relevância, que mais não seja o facto de alguém que para nós foi tão importante se ter tornado tão não-importante. De modo que também da sua insignificância se podem tirar consequências de relevo.
Qual seria o sentimento desejável ao encontrar um ex?
Gratidão pelo tempo que passámos juntos e pela felicidade que trouxe à nossa vida. Amizade que possa perdurar por força desses motivos. Mas também o sentimento de despreendimento, de deixar ir. Sobretudo é importante não haver arrependimento, excepto talvez por alguma situação em que tenhamos sido menos correctas. Mas nunca por ter terminado. Teve o seu tempo, mas terminou.
Não quer isto dizer que não haja neste mundo (onde há de tudo na verdade) homens e mulheres que um dia tenham dado de caras com um ex e só então percebido que aquele ou aquela era o amor da sua vida. Que se atirem de cabeça e que de facto aterram numa nova (e muitas vezes longa) história de amor. Acontece.
Também há quem veja OVNIS mas eu nunca vi nenhum. Não quer dizer que não acredite neles, mas sem dúvida que se um objecto voador pairasse na minha cabeça eu ficaria de pé atrás.
Tenho para mim que se as coisas não resultaram da primeira vez por algum motivo terá existido.
Bem sei que tudo muda na vida, muito especialmente as pessoas. As circunstâncias na altura eram outras. As pessoas eram diferentes há uns anos atrás, ou mesmo há uns meses atrás que fosse. Por isso consigo admitir a hipótese de aquilo que não resultou na altura poder agora resultar. Mas é uma mera hipótese, na realidade mais académica do que prática. Porque na prática o fracasso daquela última vez vai estar sempre presente, a pairar sobre os novos intentos que possam ver a luz do dia. Por conseguinte, a pressão será a dobrar. As recriminações também, pois às actuais recriminações juntar-se-ão as do passado. Em suma, se uma relação é, já de si, complicada, o seu remake é duplamente complicado.
Compreendo que por vezes seja difícil resistir aos encantos de um ex. Afinal numa certa perspectiva, é a mais segura das apostas. Já sabemos com o que podemos contar vindo dali. Há toda uma construção de intimidade e cumplicidade que não precisa mais de ser feita, porque basta ir buscar as antigas ao baú das recordações. Para efeitos de estatísticas não conta como um homem novo na nossa vida. Não conta como um dedo na lista que vamos com os dedos da mão quanto às pessoas com quem estivemos. Tão-pouco temos que nos esforçar por o encantar porque ele já conhece todos os nossos encantos. É a aposta segura e confortável. Como sair de ténis para o Bairro. Como o velho casaco de malha que usamos em casa.
O meu problema com os ex’s não é a ausência de descoberta. Porque esse é um problema para muita gente, nomeadamente, para aqueles a quem aquilo que os anima é a pica da sedução, o mistério, o admirável mundo novo de um novo namorado. Dispenso tudo isto porque para mim essa é a parte que dá dores de cabeça, de barriga e de alma. Eu quero a paz de um amor tranquilo. Sem jogos de sedução e sem sobressaltos dos primeiros dates.
Deste ponto de vista o ex é qualquer coisa de incrivelmente sedutor.
Mas, por outro lado, been there, done that.
Se não resultou na altura, com toda a minha ingenuidade e fé, muito menos irá resultar agora, que tenho tanto a apontar-lhe.
O facto é que até hoje nunca senti desejo de voltar para quem estava e deixou de estar. Não que a ideia não me tenha passado pela cabeça num repente. Mas os pensamentos são isso mesmo: repentes que não conseguimos controlar. Depois de o ter logo o afasto. Porque o meu sítio para guardar é um ex é mesmo no cantinho das boas recordações. Só isso e nada mais.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Piegas, feios, porcos e maus


Muito se tem dito acerca do povo português. Somos um povo de valentes, gente corajosa e aventureira, vaidosa e muito dada a aparência, péssimos gestores de dinheiro mas solidários e generosos, afáveis no acolhimento, saudosistas, com um perpétuo resquício de melancolia (será saudade) mas também dotados daquela animação, aquele sangue quente e aquele mar de emoções que marca os povos latinos.
Sobre tudo isto escreveram durante anos romancistas e poetas.
Pois bem, há poucos dias atrás eis que o nosso Primeiro nos descobriu outra peculiaridade. Pelos vistos somos piegas. Somos gente fraca, à qual apraz a lamúria e que se lamenta por tudo e por nada.
Ou seja, em nome da utilidade pública expropria-nos dos subsídios de Natal e de férias, mas ao contrário dos outros expropriados recebemos uma compensação diferente: em troca do nosso sacrifício sabemos que o resto da Europa muito valoriza o nosso esforço. Enfim, valoriza medianamente, vá lá. Porque a senhora Merkel lá vai dizendo que somos malta preguiçosa e pouco dada ao trabalho. Coisa que eu até acreditaria, porque tudo o que a senhora Merkel diz vem com aquela ar de solenidade da razão profunda do rigor alemão e de quem deve ter 245 especialistas a estudar cada vírgula do seu discurso. Mas vai-se a ver afinal a senhora Merkel enganou-se e nós até trabalhamos mais do que os alemães. Mas adiante, somos expropriados dos nossos subsídios, e lamentamo-nos. Vivemos em cima da ténue linha entre empego e desemprego, e lamentamo-nos. Temos uma greve a cada dia que passa, e lamentamo-nos. Trabalhamos quase todos a recibo verde, e lamentamo-nos. Nem nos tempos do antigamente se deverá ter passado tanta fome em Portugal, e lamentamo-nos. Os senhores dos bancos e os senhores da EDP (sobretudo a senhora da EDP) preparam-se para auferir um salário de nível pornográfico, e lamentamo-nos.
E enquanto escrevia este post na televisão passava uma peça televisiva sobre um casal bem velhinho, como os avós de toda a gente, que vive há 8 anos num contentor e agora até isso corre o risco de perder. Não quero culpar o governo, os vários governos que tivemos, de todas as misérias deste mundo, até porque parece que aquela em particular se deve a outras causas, mas o facto de a gestão deste país deixar estas coisas acontecer leva-me a pensar que alguma coisa corre muito mal nessa gestão. O jornalista fez à senhora uma daquelas perguntas inteligentes: se ela não estava irritada com tudo isto. E a senhora, perto dos seus 80 anos e a arrastar-se agarrada a uma bengala, disse-lhe que sim, claro, mas… que podia ela fazer? E queixou-se. Se o nosso Primeiro estivesse a ver isto em casa decerto sofreria outro rude golpe com a passividade daquela avozinha, que se limitava a lamentar a sua triste sina ao invés de pegar nas muletas e numa pá e construir ela própria outra casa para morar.
Uns piegas. Outra coisa não me ocorre. Razão tem o nosso Primeiro quando revela a profunda desilusão que lhe suscitamos.
Resta então perguntar: que é suposto que façamos? Que se espera desse homem novo que se ergue dos escombros da miséria?
Parece que uma saída airosa, e que muito aprazaria ao nosso Primeiro, é fazer as malas e contribuir para o PIB de outro país. Sempre se diminuía a percentagem de piegas a manchar a honra da Nação.
Mas parece que ainda não emigrámos em número suficiente de modo que há que explorar outras hipóteses. Um delas, bem viável, é que morramos todos de fome antes da paciência se terminar (note-se que não se trata aqui de nenhum jogo de palavras em alusão aos meus verdes) e com isto ficava o problema resolvido, uma espécie de eugenismo político e social para eliminar os piegas e os queixosos. Outra hipótese seria seguir o exemplo dos nossos colegas gregos e começar a partir isto tudo. Pedrada aos polícias, incêndios, violência brutal. É isto que se espera de nós? É que se é, esperem sentados. Afinal, nós fomos o povo que fez uma revolução sem disparar um único tiro.
Senhor Primeiro, seremos piegas, não o contesto. Gostamos mais de cravos do que de armas. Mas tenha uma coisa como certa: gostamos mais de nós e deste país do que de V. Exc. (mesmo quem em si votou), e pode ser que um dia, piegamente como nos é típico, lhe acenemos com um lenço branco.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Casamentos interessantes com pessoas desinteressantes


Corre por aí o mito de que há uma data de gente super-interessante que no fim do dia vai para casa ter com pessoas super-pouco-interessantes. Isto é um casamento. E pelos vistos a coisa funciona porque não alguns ainda não se divorciaram.
Ora, eu não percebo isto. Como é que alguém que se interessa por politica, história, viagens, literatura, enfim, todas essas coisas que tornam a vida mais suportável, consegue partilhar a existência com alguém que suscita o mesmo interesse que um frasco de Nutela vazio?
Note-se que não se trata de partilhar algumas horas do seu tempo com as ditas pessoas, de dividir um gabinete ou de ter um cacifo lado a lado no ginásio. Trata-se de casar. Partilhar os dias e as noites. Ter filhos. Tudo isto com amebas.
Confrontada com a falta de resposta para este algoritmo social sou forçada a concluir que as tais pessoas supostamente interessantes são, na verdade, tão vazias e tão ocas como as suas caras-metade.
Ou seja, é certo que os opostos se atraem (sabes bem não o podes negar, e um Martini convida a viver e blablabla), e por isso vemos o lutador de sumo com a modelo de 30kg e depois vemo-nos a mim, a super-Barbie, com um nerd anti-barbies que eu acho sexy e que me acha sexy a mim, and so on and so on. Mas até a atracção dos opostos se defronta com limites intransponíveis, uma espécie de fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul: uma pessoa que lê livros de verdade não se mistura com alguém cujo ponto alto de leitura é a Vogue, e só aquelas páginas com fotografias de roupa e no máximo 3 ou 4 palavras.
No meu ingénuo e platónico entendimento das coisas o QI continua a ser A barreira. Podemos viver com discussões, com falta de dinheiro, com milhentas coisas que tornam a vida a dois uma coisa complicada. Mas viver sem conversas? Sem ter alguém a quem contar o que se passou naquele dia no trabalho e que efectivamente compreende aquilo que queremos dizer?
Um amiguinho meu, mais iluminado do que eu certamente, garante-me que estes casamentos funcionam porque se fundam em valores supremos, mais supremos que o amor ou a camaradagem.
Ora, eu não sou tacanhamente romântica. Percebo bem que em certas famílias apenas certos casamentos sejam admissíveis. É óbvio que um desses cavalheiros jamais se poderia enroscar com uma plebeia como eu. Ou melhor, enroscar até poderia. Aliançar é que não. Como é que explicava ao tribunal familiar que eu não tinha um daqueles nomes tirados de uma árvore genealógica com mais de 500 anos, nem tinha estudado no liceu francês? Como justificaria as tatuagens, os piercings e, pior que isso, as opiniões? Não é que eu seja particularmente interessante. Há dezenas e dezenas de países onde nunca estive. Não sei falar alemão nem leio grego. Não conheço fórmulas químicas. Não sei pilotar um avião nem conduzir uma moto. É até bem provável que seja meio tonta. Mas pelo menos trabalho, pago as minhas contas, já li um ou dois livros na vida e até, pasme-se, por vezes vêm pessoas de longe para me ouvir falar.
Restam-me então duas hipóteses. Ou bem que o interesse de que desfrutam no seu círculo de amigos é mera aparência granjeada à força de uma ou duas poscas de pescada que atiram cá para fora depois de ver um daqueles programas da RTP2. Ou bem que de facto são interessantes e, por milagre das relações humanas, jantam, dormem e fazem a barba ao lado de seres mais limitados.
Ao que parece organizaram a sua vida para ser minimamente suportável, e quem sabe até feliz. Trabalham muito, chegam tarde a casa, brincam com os filhos, entretanto é hora de dormir, no outro dia assim e no outro assim também. Desde que cumpram algumas presenças oficiais em festas de família, e pelo menos 15 dias de férias com a prole e as esposazinhas, dispõem até de um calendário bastante livre onde podem conversar e discutir com alguém que lhes estimule outras necessidades para além da reputação ou da paz familiar. E isto é um casamento interessante com pessoas desinteressantes.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Cinderela pregando aos peixes


Se a Cinderela fosse o Padre António Vieira também pregaria aos peixes. Não para mostrar as desvirtudes humanas, ou para que tenha especial apreço ou especial desprezo pelos peixes (pelo contrário, gosto muito de um peixinho), mas porque muitas vezes entramos em conversas onde o nosso interlocutor está ao nível de um peixe que, como sabe, não é uma criatura especialmente inteligente. Excepto o golfinho, alegarão agora os peixes, o que bem demonstra o peixes que são, já que o golfinho é um mamífero.
É claro que nem todos os interlocutores têm necessariamente que estar ao nosso nível intelectual. Alguns são um bocadinho mais inteligentes que nós, outros um bocadinho menos inteligentes, e assim vamos passando os nossos dias, umas vezes aprendendo, outras ensinando.
Depois temos as não-conversas. As não-conversas são basicamente discussões de assuntos com peixes. Isto porque a pessoa do outro lado da conversa não faz a puta ideia do que se está ali a discutir e a certo ponto damos por nós a pensar: “que raio estou aqui a fazer?”.
Comecemos por esclarecer que sou uma das pessoas mais tolerantes que conheço no que respeita às opiniões. Irrita-me até à unha do pé gente que parte para uma conversa com o intuito de evangelizar. Isto porque não há coisa que mais aprecie do que um bom esgrimir de argumento. Pode dar-se o caso de no final da batalha argumentativa a outra parte acabar por me dar razão e lá fico eu feliz e contente. Ou então sou eu que lhe dou razão a ela, e fico ainda mais feliz e contente porque naquele dia adquiri uma nova perspectiva das coisas. Mas em regra a coisa termina com um “we agree in disagree” e cada um vai à sua vida ciente das suas convicções.
Assim é que eu, que acho que o embrião não é pessoa, tenho amigos que defendem acerrimamente que sim. Eu, que sou pelo amor entre as pessoas, qualquer que seja o sexo, porque não é o género dos cônjuges que faz um casamento, tenho amigos que acham que este é um negócio jurídico reservado a um homem e a uma mulher. Eu, que adoro sapatos, tenho amigos que detestam futilidades. Eu, que sou lagarta, tenho amigos lampiõeozinhos. E idem, idem.
O que quero dizer com isto é que estou habituada à discordância e à discussão. Não sou intransigente com aqueles que pensam de forma diferente. Muito pelo contrário, são aqueles que se situam no extremo oposto do meu leque de valores que mais coisas me ensinaram e já por diversas vezes me fizeram questionar muitas das ideias que tinha como assentes na minha cabeça.
Mas – e este é o tal MAS – esses outros têm que pensar. Recusou-me terminantemente a desperdiçar os meus argumentos com gente que atira umas larachas e lhes dá foros científicos. Que pretende impõe uma ideia mas sem se preocupar em justificá-la. E incomoda cada caracol meu os supostos salvadores da pátrias, os mensageiros divinos que clamam pelos direitos das criancinhas, dos embriõezinhos, das beatazinhas que vão à missa para dizer mal do senhor padre, das mocinhas virgens que se dedicam ao cybersex, dos paizinhos de família que batem na mulher e na amante. É que quem hasteia com tão vigor a bandeira da moral e dos bons costumes faz-me duvidar dos bons valores que marcham naquelas cabecinhas.
Dito isto, devo dizer que é sempre com grande moléstia intelectual que ouço certas vozes espalhar a sua infinita sapiência acerca da maternidade de substituição. E enquanto a ouvia falar daquela vil corja das pessoas inférteis que se aproveitam das coitadinhas das mães de substituição pensei para mim mesma que os canais televisivos deste mundo devem atirar à sorte quem vão convidar para debater as questões, porque só assim se explica a presença da dita num debate de tão suma importância. Caramba, como é que lhes dão tempo de antena quando há por aí tanta gente interessante para ouvir rebater as minhas ideias?
Note-se: defender a proibição absoluta da maternidade é uma posição perfeitamente legitima, tanto quanto a minha o é. E de certeza que existem bons argumentos para a sustentar, embora eu não veja quais. Simplesmente, de certeza que serão pregadores destes que me os irão explicar, porque quem compara a maternidade de substituição à escravatura e ao tráfico de pessoas nitidamente entrou num patamar de devaneio com o qual não posso pactuar. Quem me diz que os homossexuais não podem adoptar porque são todos uns tarados pedófilos que iriam abusa das criancinhas está para além de toda a discussão, de toda a troca de ideias, enfim, da intelectualidade tal como a conheço.
Para mim, que venho de uma escola de argumentação, de retórica, de debate de ideias, entrar neste tipo de argumentação é qualquer coisa de inconcebível. Mais depressa descaço eu os meus sapatinhos e vou pregar aos peixes. Certamente daria o meu tempo por mais bem empregue.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Ponto de açúcar


Não sei se alguém aqui é versado em culinária. Eu, de todo, não sou. Mas tenho algumas ideias de algumas coisas que aprendi a ler alguns livros, e que aprendi melhor ainda com alguns desastres de cozinha. Uma delas é esta: pontos de açúcar não são coisa simples de fazer.
Não pode ferver de menos ou fica uma caldela líquida com um bocado de açúcar no fundo do tacho. Não pode ferver de mais ou acabamos com uma pasta castanha e peganhenta em mãos, tipo sola de sapato agarrada ao tacho. Bottom line: é tudo uma questão de equilibro.
Correndo o risco de recorrer a uma comparação corriqueira vou dizer o óbvio: as relações são como um ponto de açúcar e também elas precisam desse equilíbrio perfeito, o qual varia de uns para outros.
Creio que grande parte de nós parte do seguinte principio: as relações começam bem e terminal mal. De modo que se não estão bem agora tudo o que pode acontecer é piorarem ainda mais e descerem numa desesperante espiral.
Este é o dogma. E devidamente fundado em factos da vida real, diga-se já. Porque a verdade é que grande parte das relações que conheço, e nas quais estive envolvida até, começou como um conto de fadas e acabou como um filme do Freddy Krueger.
De início tudo é simples, todos os defeitos são suportáveis e como ainda não estamos suficientemente à vontade esforçámo-nos para esconder as nossas próprias falhas e contemo-nos até à unha do pé para baixar o nível de exigências. Mas passados uns meses o verniz estala tal qual o verniz de uma unha pintada há mais do que uma semana. De repente aquele barulho que o outro faz enquanto come batatas fritas torna-se ensurdecer, as suas pequenas manias são demasiado irritantes para ficarmos calados, já não estamos para aturar saídas com amigos nos sábados à noite nem projectos de férias a solo. Entretanto deixámo-nos engordar, não pomos os pés no ginásio há décadas e os serões são passados a comer bolachas. Cada vez estamos mais rezingonas/rezingões e até já nos damos ao luxo de opinar sobre a família dele, e (como nos atrevemos?), sobre os amigos dele, o que é praticamente um crime de lesa pátria.
O desfecho? Adeus, foi bom enquanto durou. Ou melhor, foi bom ao início e mau no fim.
O contra-dogma: há relações que evoluem exactamente ao contrário. Isto é, começam, como uma brincadeira de uma noite, amigos de almofada que se juntam para you know what e que dão por si num clima de Romeu e Julieta de fazer apaixonar as pedras da calçada. Outras começam para criar ciúmes a ex’s e ex-ex’s, uma coisa encenada e forçada, e de repente acordam um dia apaixonadas e felizes. Outras vezes a coisa começa como uma autêntica guerra, em que cada uma das partes quer exactamente aquilo que a outra não quer, as discussões sucedem-se todos os dias… até ao dia em que não discutem mais.
Tudo isto acontece também na vida real. Este último cenário é, para mim, o mais bizarro, mas atesto que a coisa se dá exactamente como a descrevo.
A coisa passa-se como conto. Logo após o brevíssimo período de lua-de-mel o drama instala-se. Tudo é motivo de discussão, desde o lixo que ficou em casa até um jantar de aniversário. Chega a um ponto que não percebemos porque estamos sequer juntos tal é o abismo que nos separa. Claro que cada discussão mais aguerrida traz consigo novas promessas de mudança, mas a verdade e que é muito difícil mudar porque nenhuma das partes tem razão ou deixa de ter, simplesmente, não foram feitos um para o outro. De modo que parece que a única forma de a coisa correr bem seria mudando a pessoa que cada um ou, uma alternativa mais simples e fazível, fazer a trouxa e ir cada um à sua vida.
Depois um dia tudo muda. Um dia banal. Nenhum deles esteve às portas da morte e viu a luz, e que eu saiba tão-pouco se deu a visita do anjo Gabriel. Ou seja, nada de extraordinário aconteceu. Ou melhor, uma coisa extraordinária aconteceu, mas sem que exista algum extraordinário evento para a explicar. É como se alguém estivesse a mexer este tacho e tivesse subitamente encontrado o nosso ponto de açúcar.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Se bem me lembro


Há dias encontrei uma amiga de longa data, com quem não estava há um par de anos, e foi um fartote de rir, e quase de chorar, aos reviver os nossos bons velhos tempos juntas.
“E naquele dia que tu gritaste com o empregado de mesa?”
“Ahhhhhh. O tipo esqueceu-se de trazer a minha cerveja.”
“Recordas-te que tinhas a tua carteira em cima de uma cadeira e não deixavas ninguém sentar-se?”
“Pois é, ainda discuti com a tipa da mesa ao lado”
“Lembro-me perfeitamente que tínhamos ido à praia, e até me recordo da roupa que usava nessa noite”.
“Eu também. Tinhas aquelas tuas sandálias cor-de-rosa”.
“O corpete rosa e a mini-saia branca”, gritámos as duas em uníssono.
Pois é, a memória feminina é uma coisa espantosa. Podemos sentir alguma dificuldade em recordarmo-nos de coisas relacionadas com impostos, clubes de futebol da 3.º divisão ou multas para pagar, mas nunca esquecemos as informações verdadeiramente importantes, desde logo as roupas que usámos, as roupas que qualquer outra pessoa usou na nossa frente, aquilo que dissemos e aquilo que nos foi dito, especialmente no que toca à cara-metade.
Vão dizer que o caso não tem nada de extraordinário, porque em boa verdade estávamos a recordar episódios que não tinham mais que 3 ou 4 anos. Mas posso-vos garantir que se daqui a 40 anos nos encontramos e formos duas velhinhas de joelhos a tremer continuaremos a recordar-nos deles com a mesma vivacidade e detalhe que agora.
A questão é esta: uma mulher não esquece. Pode até dizer que sim, que esqueceu, que perdoou. E não é que esteja a mentir. Simplesmente, defrontamo-nos com uma incapacidade inata para esquecer coisas.
Esta é uma habilidade que por vezes disfarçamos, sobretudo para não cair no ridículo. E dizemos qualquer coisa vaga sobre determinado acontecimento, procurando passar despercebidas. Mas eis que há sempre um tolinho que desafia o poder da nossa memória. “Olha lá, tens a certeza que foi assim que a coisa se passou?”. Nesse momento abre-se a caixa de Pandora e sai-nos pela boca um chorrilho de minuciosos detalhes sobre o evento em causa. “Claro que tenho. Eu nesse dia usava umas calças pretas que comprei em Madrid e tu estavas com o teu casaco azul e botas castanhas. Tínhamos ido almoçar àquele restaurante que fechou depois em 2010, no dia 5 de Janeiro de 2010, e eu tinha pedido o bacalhau, mas veio demasiado seco….”. E pronto, começa a saga.
No meu caso consigo descrever ao pormenor todas as roupas que usei em cada momento da minha vida. Relato com todos os pontos e virgulas as conversas que tive, e o que cada pessoa me disse, inclusivamente fazendo as caras que expressam as expressões faciais de cada um dos interlocutores. Consigo especialmente relatar conversas com a minha cara-metade, e sei exactamente em que dia e em que condições ele prometer fazer alguma, ou não fazer certa coisa, ou fazer como se não fizesse certa outra coisa, enfim, aquelas coisas que os namorados nos costumam prometer.
Aliás, se há informação que fica registada na nossa memória é precisamente as promessas que o Ele nos fez, desde anéis de brilhantes até ferias em Paris, passando pela promessa de nunca mais se esquecer do nome dos nossos amigos. E, sobretudo…. Atentem bem neste particular meninos, nunca nos esquecemos das vossas gafes. De modo que se depois de uma noite de copos – quer da nossa quer da vossa parte - têm o azar de comentar que a vizinha de cima tem um decote muito giro (note-se que estou a ser meiguinha nas palavras) podem ter como certo que o assunto vai vir à baila em todas as futuras discussões e que provavelmente dali a um par de meses estão a mudar de casa. Não interessa o quão bêbedas, perdão, ébrias, estejamos, continuamos a registar tudo com a mesma minucia.
Memória de elefante? Isso é pra meninos. Impressionante é a memória feminina.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O casamento que eu não tive


Passei os últimos 10 anos da minha vida sob o peso da funesta pergunta. “Então, quando é que te casas?”. As minhas respostas, ou as minhas não-respostas (que é como quem diz, os meus silêncios) eram geralmente recebidos com um misto de desaprovação e de pena, ou um paternalista abanar de cabeça, sem prejuízo de um ou outro me ter sussurrado que eu é que sabia viver a vida.
Não sei se sabia. Não sei se sei. Até porque em boa verdade a minha solteirice deve-se em parte a uma certa aversão ao tema, em parte à impossibilidade de convencer alguém que me leve ao altar. De modo que não posso chamar para mim toda a glória neste assunto.
O mais curioso é que metade dos ditos 10 anos estive totalmente desacompanhada, o que tornava a pergunta mais mais ridícula. É que perguntar a isto a casais de namorados juntos há 2 ou 3 anos é uma coisa. Perguntar a uma miúda cujo record até ao momento era de ano e meio de lua-de-mel é outra.
Assim fui eu sendo incansável dama de honor, de braços caídos juntos ao corpo mal o bouquet era atirado aos céus, lágrima ao canto do olho quando a noiva entra na Igreja, convidada individual nas cerimónias, a tia pouco convencional de não sei quantos putos.
Hoje dou por mim ainda por casar mas (re)acompanhada por uma data de gente que casou e descasou (alguns casaram e descaram segunda vez) e hoje estão de novo solteiros. O casamento chegou ao fim, o amor chegou ao fim, e ficamos sem saber o que chegou ao fim primeiro. E não me refiro apenas àquelas uniões que desde o copo de água estavam condenadas a terminar em tribunal. Também terminaram aqueles casamentos que eram os meus role models, onde tudo parecia perfeito. Ah, e se eu acreditava com todas as forças do meu ser que aqueles dois iam ficar juntinhos até ser velhinhos com mantas pelos joelhos….
Assim, no espaço de poucos meses os meus vários grupos de amigos foi assolado por uma série de feias rupturas, divórcios mais ou menos crispados e, como não podia deixar de ser, muita dor e ressentimento.
A dar-me razão, certo?
Seria de esperar que pelo menos uma parte de mim olhasse para estas catástrofes amorosas como confirmações de boa parte das escolhas que fiz para mim. Vêm? Por isso não me casei? Agora não tenho que me divorciar. Não preciso de mudar de casa, de dividir pertences, de mudar o estado civil no Facebook e no BI. Convenhamos, posso não ter tido um casamento de vestido branco e anjos a cantar, mas também não tive um divórcio feio e com roupa suja a sair-lhe pelas entranhas.
Mas não. Bem pelo contrário. Eu, que gosto tanto de ter razão, desta vez engulo a minha vitória moral com muita angústia. Porque estas rupturas marcam também a destruição de uma convicção que me é muito cara: a de que as pessoas devem apaixonar-se e amar-se o resto da minha. Estes tipos eram até ao momento a prova viva de que esta minha convicção era realizável, e agora mandam tudo às urtigas porque não conseguem aguentar a pila dentro das calças ou porque um dia acordaram a pensar que gostam mais de comer carne do que peixe, ou porque passado 10 anos acham que preferem ser só amigos. Pois bem, se esta gente desiste, então, nada mais resta para o meu mundo de histórias de encantar. Ou seja, depois de ver desacreditados o Pai Natal e a Fada dos dentes, agora é o amor eterno que dá um trambolhão nos valores que me norteiam.
De modo que preciso de um par de alguéns que esteja feliz, que ande de mão dada, que queira ter bebés, que entrecruze os braços para beber um copo de champanhe, em suma, que faça todas aquelas coisas patéticas que as pessoas apaixonadas fazem. Preciso de uma história de amor antes que me torne descrente. É que aquele casamento a que me poupei de bem pouco me serve. Porque eu ainda o quero ter algum dia, e se vocês não o têm e não o querem ter ou não o conseguem ter aquele casamento que eu não tive torna-se no casamento que eu nunca terei.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Momentos na vida de uma Barbie



Descobri que o talk-show da Tyra Banks passa logo pela manhã no canal das meninas. Ainda para mais fiz esta descoberta genial no dia em que ela nos ensinava como encontrar o homem perfeito. Imperdível!
De modo que, enquanto me enchia de pão (integral) com compota e leite (de soja) com chocolate tentava ao mesmo tempo decifrar os misteriosos enigmas da mente masculina. Era o pequeno-almoço perfeito: euzinha, a Tyra e autênticas lições de vida.
De repente engoli de um trago... ups!!! A conferência. Entusiasmada como estava com a hipótese do homem/príncipe/não-sapo nem dei conta de como o tempo passara depressa e dei por mim atrassadérrima (acho estes “érrimos” à tia do mais chique que há) para uma conferencia onde, vá-se lá saber porquê, participava eu com a minha palestrazinha sobre um desses temas comezinhos e consensuais de que tanto gosto de falar: comunicação social (ui!), segredo de justiça (ui, ui!) e escutas telefónicas (agora faltam-me “uis”). Caramba, que raio de dilema: desligar a televisão e ficar sem saber como encontrar o meu príncipe ou, em contrapartida, mentalizar-me intelectualmente para falar perante um auditório inteiro sobre um tema que estudava afincadamente desde há semanas. A muito custo desliguei a TV e pus-me a caminho, argumentando e contra-argumentando comigo própria sobre as várias questões de que tencionava falar. E como se isto não bastasse, chego lá e dizem-me que afinal, além do vasto auditório, me espera um público maior, porque afinal contam comigo para uma entrevista na televisão nacional. “Sobre?” , perguntei eu, na vã expectativa que o tema fossem sapatos, malas ou sobremesas de dietas, tópicos nos quais sou versadíssima: “Segredo de justiça”, dizem-me, como se a reposta fosse óbvia. Mas porque é que nunca ninguém me pediu para dar uma conferência sobre um daqueles assuntos? Será que não há quem se interesse por eles?... Hum….
É muito difícil para uma mulher ser uma Barbie nos dias de hoje. Eu bem quero dar asas à futilidade e preocupar-me apenas com coisinhas pequeninas e leves. Mas não, caem-me sempre em cima estas questões contundentes, densas, e algumas terrivelmente entediantes.
Convenhamos: não há nenhuma lei que me proíba de saber ler, escrever e contar até 10 (e umas coisinhitas mais) e, ao mesmo tempo, ser coquette, gostar de tolices, de dizer alarvidades intelectuais e de tardes de compras, cheias de tops brilhantes e calças justas. Onde é que está escrito que toda a mulher com cérebro activo é forçada a vestir-se como a avó? O que eu quero é as roupas da Madonna (no seus dias mais castos, se é que isso existe).
Fosse eu uma daquelas meninas que nas discotecas fazem publicidade a bebidas de cores estranhas e já nem ninguém estanharia os meus devaneios de Barbie. Mas como tive o azar de nascer com dois dedos de testa e parece-me que estou fadada a tratar de coisas sérias, a ser circunspecta, a ter conversas austeras, e a assumir sempre comportamentos dignos de tal. Ora, eu só quero ser eu.
E por muito interessante que me pareça o segredo de justiça, e documentários sobre a ex-União Soviética, e debates políticos na SIC, e filmes franceses com histórias que ninguém entende e onde tudo se passa a 10km à hora, a verdade é que, ao fim do dia, só já tenho cabeça para fast food intelectual. Dêem-me uma sitcom que não me faça pensar ou um show sobre bisbilhotices da vida das celebridades. Quero programas de moda e comédias com teenagers. Passe-me a Elle e a Vogue, que, apesar de tudo, sempre me pareceram leitura mais elevada do que a Maria. Enfim, deixem-me ser uma Barbie, nem que seja por um bocadinho.
Passar o Domingo no Museu, ou a debater filosofia existencialista, será certamente muito estimulante. Divertido, arrisco mesmo. Mas depois de uma semana inteira a dar o melhor de mim numa profissão intelectualmente extenuante, e mais ainda, a discutir coisas que passam ao lado do comum dos mortais, eu só quero mesmo vestir a micro-mini-saia e sair para dançar, ou deitar-me no sofá a ver na TV os filmes lamechas de Domingo à tarde. Arrisco até a dizer que sou bem capaz de engolir uma novela, desde que tenha uns tipos jeitosos.
Uma Barbie? Sim. E…? Alguém perde o sono com isso? Bem me basta a mim perder o sono esta noite por ter ficado sem as preciosas lições que toda a mulher deve saber sobre como encontrar o homem ideal.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ama-me ou faço greve


Quando os nossos pais fizeram o 25 de Abril queriam liberdade.
A liberdade de falar, pensar, sonhar. Entre outras coisas também a liberdade de fazer greve. Mas certamente não pensaram que se chegaria ao paradoxo do direito de greve se tornar uma ditadura para todos aqueles que não querem fazer greve.
Basicamente a sociedade está refém das greves, porque mesmo quem não pactua com esta “filosofia” (e estou a ser altamente generosa com a designação escolhida) é forçada a fazê-lo involuntariamente por força da pressão das circunstâncias.
Hoje em dia toda a gente faz greve: os operários, os homens do lixo, os professores, os médicos. Até o dinheiro faz greve para entrar na minha conta bancária. Ah, e claro os senhores da CP e da TAP.
Ora, eu estou longe de ser inimiga das liberdades. Se há direitos que não estão ser cumpridos urge reivindica-los. Mas, e eis aqui o busílis da questão (há séculos que tinha o “busílis” na ponta da tecla) é preciso que os haja. Que haja direitos. Que haja bom senso. Que haja respeito.
Fácil é concluir que muitas das greves dos supostos oprimidos de hoje são, basicamente, birras. Birrinhas de meninos mimados porque não têm o que querem. Mas o problema é que não podem efectivamente ter aquilo que querem, seja por lhes está vedado por imposição legal seja porque as circunstâncias concretas assim o ditam. Mas como querer é poder, e poder é fazer greve, pois eles querem na mesma e greveam até conseguirem o que querem. Assim como um puto berra a plenos pulmões quando não lhe dão a chucha.
E pelos vistos a coisa funciona porque eles continuam a fazer greve. Se a greve não fosse uma boa arma de ataque certamente já teriam desistido da ideia e fariam uma coisa diferente, tipo… trabalhar talvez. Mas não. Como funciona. Como o mundo continua a girar ao sabor dos seus caprichos, lá continuamos nós sem comboios nem aviões.
Se não os podes vencer junta-te a eles, certo? Porque hei-de eu acordar cedinho para ir trabalhar quando posso ficar de braços cruzados? A pergunta parece-me demasiado tonta para me dignar a responde-la. De modo que como não tive subsídio de Natal o melhor é boicotar o trabalho deste mês, ainda que estejamos em época de exames. É claro que assim muitos alunos muitos alunos não poderão terminar os seus estudos do semestre mas… who cares?
Também descobri que entra o ar gelado deste Inverno pelas frestas da minha janela da sala, de modo que vou fazer greve ao pagamento da renda de casa.
O pior é que terei mesmo que ficar em casa ao frio. É que como o preço dos transportes aumentou, e o combustível também, decidi fazer greve às saídas de casa. De modo que fico em casa ao frio.
Mas não me atrevo a ficar doente. É que depois do Estado ficar para si com boa parte do meu vencimento de funcionária pública, de pagar impostos para isto e mais aquilo, e de pagar para a segurança social dos advogados, a Segurança Social teve a altíssima lata de me pedir a minha contribuição. E o mais caricato da história é que, apesar disto tudo, não tenho médico de família, de modo que adicionalmente ainda pago um seguro de saúde. Mas, como o seguro não cobre tudo nem me atrevo a ficar doente. E assim faço greve a vírus, bactérias, e tudo o que de financeiramente desastroso possa acontecer à minha saúde. Face a isto, posso fazer greve a este país de faz de conta?
Em suma, em casa fechada, gelada, e em grande esforço para não ficar doente. É sozinha, ainda para mais. É que como a minha meia-laranja não me ofereceu uma aliança de casamento decidi fazer greve sentimental.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Na guerra e nos saldos vale tudo


Abriu a época de saldos. Comecem as hostilidades!
Esqueçam a Primavera e os passarinhos, o Natal e as boas acções. Não há dias mais felizes e cintilantes do que os dias de saldos.
Eu sou, basicamente, uma compradora. Ora, existem dois tipos de compradoras. As que têm dinheiro suficiente para o fazer onde querem e quando querem, e que olham para os saldos com o mesmo desprezo que a mim me invade quando vejo um prato de courato. Os saldos são coisa do povo, de quem conta os tostões até ao finalzinho do mês, viaja em low cost e paga as coisas a crédito. Dizem elas. Depois há as compradoras como eu, que vivem miseravelmente infelizes por ter salários demasiado baratos para os gostos que têm. A elas, a mim, a nós, restam-nos os saldos.
Nem sempre é uma questão de “não ter dinheiro para”. Caramba, a Parfois até tem brincos de 3 euros. É aquela sedutora ideia de comprar abaixo do preço. Para quê pagar mais quando se pode pagar menos? Não sou propriamente versada em economia e finanças, mas tenho para mim que pagar metade é melhor que pagar o preço na íntegra. E isto aplica-se seja a sapatos de 300 euros seja a brincos de 3 euros.
Uma amiga disse-me um dia que não percebia como é que eu aguentava as multidões, a roupa em monte, as filas para pagar, enfim, o pacote todo que vem com os saldos. Provavelmente ela não compreende isso porque se pode dar ao luxo de gastar todo o dinheiro da sua conta. É que de onde aquele veio mais virá. Já eu, para além de não me poder dar a esse luxo, acredito que tão-pouco o faria se pudesse. Talvez seja a minha costela judaica que me faz gostar tanto desta estranha loucura de esperar até que o preço baixe ao nível dos meus calcanhares.
Agora, uma coisa é certa: é preciso ter estomago para ir saldar. Não é coisa para qualquer flor delicada. Aqui onde me vêm está uma fera sedenta de sangue escondida debaixo do ar angelical que normalmente carrego comigo. Lembrem-se: até a velhinha de olhar cândido se tornará numa temível assassina caso desconfie que estamos atrás do mesmo cardigan de malha. De modo que deixem a piedade para trás. Não há regras de cortesia, nem sequer lealdades. Posso até deixar aquele homem lindo para a minha melhor amiga que se embeiçou por ele. Mas esse par de sapatos que tenho na mão não deixo para ela nem morta. Amigos, amigos, compras à parte.
Outra boa dica para quem está pouco experienciada em saldos diz respeito à bagagem que levam convosco. Nada de sapatos altos e aprestados, roupa que custe a vestir e a despir, casados grossos que tenham que carregar nas mãos. Less is more e há que ser minimalista, até na companhia. Grandes cortejos de amigas só servem para perder tempo com as coisas pelas quais cada uma se encanta. Além disso pode ainda fomentar uma guerra mortal caso os encantamentos coincidam. Sobretudo, nada de namorados a não ser que tenham um daqueles in between que aprecia pormenores das bainhas e novas cores de sombra de olhos (nota de rodapé: este namorado não é um problema para os saldos mas, está bem de ver, é em si mesmo um problema) todos os demais se tornam uma borbulha no nosso rabo. Suspiram alto, reviram os olhos, implicam, começam a sentir fomes, arrepios e calores. A única coisa para que servem é para nos segurar a mala e as pilhas de roupa que vamos escolhendo das prateleiras antes de experimentar. Para isso admito que até mesmo namorados avessos a compras e desprovidos de bom gosto dão algum (mediano) jeito. Eu própria já me queixei numa loja pelo factos de todas as demais compradoras terem as suas respectivas caras-metade a segurar-lhes isto, aquilo e o outro, e eu, miúda emancipada e sem anexos emocionais, tive que carregar tudo com as minhas próprias mãozinhas delicadas, o que me fez perder imenso tempo naquela tarde de compras. Por isso achei por bem reclamar à gerente da loja, fazendo-a ver que empilhar assim a roupa sem sequer fornecer cestos ou sacos onde meter o espólio da baralha era discriminatório para com as mulheres sozinhas. Curiosamente, ainda não encontrei loja que explorasse esta lacuna de mercado e alugasse à entrada namorados fictícios para meia hora de acomodamento, carregamento e marcação de lugar nas filas do provador.
Última lição: nada de pesos na consciência quando virem o montante a pagar. Lembrem-se que de qualquer forma estarão sempre a economizar. De modo que nada de remorsos ou intenções de devolução. A mim tranquiliza-me sempre repetir para mim mesmo o valor que pagaria pelo preço na integra, proceder à subtracção e ver quando quanto poupei. E, meus amigos e minhas amigas, a verdade é que quanto maior for o volume das compras maior será a diferença. Conclusão (à qual cheguei depois de uma insana tarde de compras, o que talvez explique a lucidez com a qual fui agraciada): quanto mais compro mais poupo.
Tenho dito.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Aquilo que não me incomoda na Casa dos Segredos


Parece que durante meses a fio metade de Portugal andou presa das palavras e dos actos de uma certa casa cheia de gente insana. Note-se: não mais insana do que qualquer um de nós. Poderemos dizer que aceitar submeter-se a tamanha experiência sociológica e psicológica denota fraquíssima capacidade de discernimento, mas, certamente não muito menor do que a demonstrada pelo bom povo português em diversos actos eleitorais. Ou a demonstrada por todos aqueles que perderam serões a ver quem comia quem e quem era comido por quem.
Ora, devo começar por dizer que nunca, até à noite da cerimónia final, pousei os meus olhinhos no programa. E não o digo por vergonha ou por um falso sentido de superioridade intelectual. Não vi porque nem percebi bem a ideia da coisa. O que sabia do dito era o que aparecia escarrapachado nas capas de revistas e dos comentários que apanhava nas conversas alheias. Por isso parece-me ainda particularmente estranha a forma como o ecrã de televisão me hipnotizou enquanto um grupo animado ali ao meu lado se preparava para as festividades do último ano das nossas vidas. Eu queria deixar de ver aquilo. Queria mudar de canal, ligar um som, encher-me de caipirinhas… e no entanto fiquei viciada no espectáculo da vida real.
Podia manifestar aqui a minha pouco abonatória opinião sobre algumas das personagens da casa. Podia. Mas não vejo necessidade disso porque já toda a gente manifestou as suas opiniões, cada uma mais ofensiva do que a outra, de modo que a minha seria apenas mais uma opinião ofensiva, porventura nem conseguiria ser a mais ofensiva de todas elas, de modo que se diluiria na multidão de opinião de psicólogos de bancada e críticos televisivos de sofá. Depois, porque me arriscava a ter um processo em cima, e neste momento não me da jeito pagar indemnizações.
Porém, dada a fraca experiência de espectadora não tenho muito para dizer sobre a casa. Segundo consta é um drama horrendo, cruel, pornográfico e aberrante. Além do mais – e creio ser esse o seu maior vício – desinteressante. É que tanto quanto sei (e sei o que está oficialmente no site) os segredos daquela malta são capazes de fazer adormecer um hiperactivo em último grau de entediantes que são.
Desde quando ter sido salvo por um milagre é um segredo? Só se for um dos segredos de Fátima, vá lá. E o facto de se ser um casal com outra pessoa da casa? Só é segredo porque se omite, mas a verdade é que a publicidade que rodeava o programa dava a entender que teria daqueles segredos bem secretos que não podemos contar a ninguém, de tão obscuro e escabroso, e não simplesmente de factos que são omitidos porque a produção do programa assim o dita, mas que todos aqueles que fazem parte do nosso circulo já conhecem. Mas o mais ridículo deste leque de segredos pobrezinhos é o daqueles que fingem ser um casal porque a produção assim o diz mas afinal… não são. Please….!!! Aquele batalhão de gente iluminada da TVI não arranjou gente mais interessante para meter no programa? Ou será que o requisito era ter mamas grandes e muito pouco pudor em as mostrar? Às mamas ou ao que seja, diga-se já, porque segundo parece o show televisivo tornou-se mais famoso por um célebre puxar de collants levantando a saia acima da cabeça sem ter roupa interior por baixo (convenhamos que se era para mostrar deveria ao menos estar limpinha e depilada) e por uma sessão de sexo-oral-ai-não-era-porque-afinal-só-lhe-estava-a-dar-beijinhos-na-barriga-mas-gosto-de-ir-subindo-ebaixando-a-cabeça-no-entretanto do que pelos segredos que, in the end of the day, eram o objectivo daquele circo todo.
Vai-se a ver e melhor teriam feito os produtores em ter enviado lá para dentro o suposto filho do suposto estripador e já não precisavam de recriar uma cena digna de Linda Lovelace na Garganta Funda para conseguir audiências.
Segredos mórbidos, sumarentos e arrepiantes. “Ah, sou uma freira transexual”. “Ah, gosto de batatas fritas com bife de carne humana”. “Ah, tenho quase 30 anos e sou virgem”. Espera, este era mesmo um segredo da casa. Afinal a coisa lá se salva.
Em suma, a mim nada me incomoda. Nem as cenas de sexo e os palavrões. Se é suposto ser o drama da vida real não se está à espera que digam “Com a breca, que maroto” e que passem as noites a jogar xadrez. A vida real não é uma série dos anos 60. Quem não quer ver não vê, desliga a televisão ou muda de canal. Nem sequer me incomoda que por lá ande uma senhora que esteja indecisa se África é um continente, um país ou mesmo uma nova cor de batom (e porque não?). Mais uma vez, o drama da vida real exige pessoas reais e quem conhece minimamente o bom povo português sabe que por estas bandas há mais um ou dois cidadãos como ela. Ou um ou dois milhões talvez. O que me incomoda é a pobreza dos segredos.
Ah. E já agora, incomoda-me também que estas beatas de meia tigela se incomodem tanto com as pilinhas e os pipis, e de certeza que até argumentaram que pode haver criancinhas a ver aquelas coisas feias e que assim ficam a saber os mistérios dos birds and the the bees. Mas depois ninguém se incomoda com a violência, o racismo e a fome que constantemente invade os canais. Incomodem-se antes com isso. Fuck and let fuck so to say.

sábado, 31 de dezembro de 2011

As tartarugas também crescem


As tartarugas também crescem. Li há dias no jornal que é preocupante a situação das tartarugas que são compradas como mascotes de poucos centímetros e que acabam abandonadas porque os donos descobriam entretanto que a carapaçazinha se transformara numa carapaçazona de 50cm para a qual já não á aquário que chegue.
Isto pôs-me a pensar nessa ingénua crença humana de que as coisas perfeitas vão continuar perfeitas para sempre. Em boa verdade o que temos aqui são duas crenças, qual delas a mais ingénua. Primeiro, a de que existem coisas perfeitas. Segundo, a de que essas supostas perfeições se manterão ad eternum. Uma vez que sobre a primeira já divaguei que chegue para encher um manual de instruções vou debruçar-me sobre a segunda.
Não sei se fruto de um perpétua infantilidade ou de uma idiotice profunda, o certo é que o ser humano tende a acreditar piamente que para certos efeitos o tempo deixa de correr. Há quem compre um telefone porque é a última geração de telefones (como se estivessem à beira da extinção) sem pensar que dali a um dia e meio já vão ser o equivalente ao pai do mais novo telefone no terreno, e passado outro meio dia passará para a categoria de avô. Há quem arranje um namorado daqueles de capa de revista, com six pack à frente, rabiosque empinado atrás, 2 metros de homem cor de mel, sem sequer lhe passar pela cabeça que dali a uma década o Rodolfo Valentino vai estar meio careca e de dublo queixo.
Ora, quando isto acontece, e as pessoas se apercebem que a sua obra perfeita deixou de ser perfeita e acabou ultrapassada por perfeições mais perfeitas, a tendência é procurar um substituto.
Assim, os donos das tartarugas compram outra tartaruga ainda mais bebé, e se porventura descobrirem que os piolhos já se tornaram também mascotes eis que esta parece uma boa solução, porque os piolhos, porque muito que cresçam, nunca chegam aos tais 50cm, sob pena de termos seres mutantes a devorar a raça humana.
O dono do gadget deita para o lixo aquele velhinho telefone que de repente se tornou tão lento e tão desprovido de estilo, ou então ofereço-o a uma tia-avó da época da outra senhora, e que gosta de coisas da época da outra senhora. E logo se dirige a uma Appelstore em busca de um telefone que lhe indique a previsão meteorológica para todos os continentes, onde possa ver televisão e saber da bolsa e, se possível, lhe faça massagens nos ombros.
A dona do coração do to tal tipo alto e de muitíssimo bom aspecto, caracóis de anjo e sorriso de diabo, começa a sentir-se, primeiro incomodada e depois enojada, com os quilos a mais do dito, com as rugas que lhe começam a surgir no canto dos olhos, com a pança que o faz tombar para a frente. De repente ele já não parece tão alto, nem tão sedutor, nem sequer tão inteligente. A senhora começa a olhar pelo canto do olho para o rapazinho que todas as 6.º feiras encontra no ginásio, e pensa no bom que seria dormir aninhada nele em vez de ser obrigada a chegar-se para o cantinho da cama só para que o seu pé não toque no pé daquele homem de meia-idade que tem lá em casa.
Esta fixação com a perfeição, com último grito da moda, com os sapatos mais in, a amiga mais cool, o carro mais potente, a bebida mais diurética, é talvez qualquer coisa de intrínseco à espécie humana. Certamente haverá até alguma explicação freudiana para isso. Mas eu, que não sou Freud nenhum, não deixo de pasmar de cada vez que me deparo com esta ilusão naif do mais alto, do mais forte, do mais veloz e do mais bonito. Quantas vezes não foi também esta a minha ilusão….
Uma tola crença na infinidade, na intemporalidade, na utopia. Que não tem razão de ser se pensarmos que as tartarugas também crescem.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O país está a afundar. Mulheres e crianças primeiro


É oficial. O país está a afundar. Tal qual um transatlântico (mas daqueles pobrezinhos) embate num iceberg, também Portugalzinho embateu numa coisa, uma coisa que nem sabemos bem de onde nos chegou, nem como nem quando, mas que resulta de anos e anos de má gestão, corrupção, ganância, e todas as coisas más que infelizmente o povo português também tem.
Não foi coisa de um Governo. Sobretudo, não foi coisa do actual Governo, que mal teve tempo de aquecer o rabo nos assentos do poder. Mas nem sequer do anterior, que por deprimente e vergonhoso que tenha sido não consegue sozinho levar 10 milhões à ruina. Nem só do anterior. Nem apenas do outro antes. Foi sim uma amálgama de muitos governos, de muitos Primeiros, de muitos ministros, de muitos Ruis Pedros Soares, de muitos Paulos Penedos, de muita gente pequenina que por aí anda e na qual nós, grande parte de nós, foi suficientemente estúpido para votar e suficientemente fraco para não meter atrás das grades.
Mas vou desconsiderar por momentos de onde veio a crise para em vez disso ponderar para onde vai ela, e com ela todos nós. Ou seja, como é gerida e enfrentada.
Ora, para além de muitas tecnicidades económicas, políticas e financeiras para as quais não me sinto acreditada para comentar - até porque em todos os jornais e telejornais aparece gente mais sabedora do que eu a lançar a sua posta de pescada, desde economistas a politicólogos, passando pela oposição que, como sempre, discorda - a nota que eu retive do pensamento do nosso Primeiro é que a solução está em fazer as malinhas e sair.
De modo que vendam as casas (claro que não as podem vender porque como os actuais empréstimos bancários não há quem as compre) ou arrendem-nas (ou talvez não, já que na melhor das hipóteses o regime do arrendamento ainda vos vai ter que fazer esperar por 5 meses de rendas em atraso antes que os oportunistas que vivem disso sejam forçados a sair da vossa casinha e ir enganar outro), empacotem os bens (os que restaram) e ala que se faz tarde.
Ora, não é a primeira vez que o nosso Primeiro sugere a emigração como solução de todos os males. Os seus defensores mais acérrimos dizem-me que tal proposta demonstra lucidez e honestidade, o que faz dele um grande Homem. Vai daí, eu que até sou de direita, decidi transformar-me em politicóloga de bancada (pelos vistos hoje qualquer um o pode ser) e fazer alguns considerandos.
Considerando sobre a lucidez: a sagacidade política do nosso primeiro desperta-me dúvidas várias porque a verdade é que se todos montarmos arraiais do outro lado do mundo quem é que fica aqui na Parvolândia a pagar impostos e a sustentar a dívida? Mais, se todos formos embora quem resta para reconstruir o país? Os velhos e os mancos? É que não se espere que nos lançamos na aventura de construir uma nova vida fora daqui para cair no esforço inglório de depois de conseguirmos uma casa decente, um carro simpático e um emprego bem pago deixamos tudo isto pelo chamamento da Pátria. O país vai ficar mais pobre de recursos humanos, de bons cérebros, de mão-de-obra altamente qualificada que sairá para não mais regressar.
Considerando sobre a honestidade: também me foi dito que todos sabemos que esta é a única saída, e que o Primeiro seria mentiroso se nos desse falsas esperanças. Bem, não seria a primeira vez que apregoaria as tais falsas esperanças. Afinal, não foi propriamente honesto quando hasteou a bandeira do limite do sacrifício para ganhar eleições, mas agora que se sentou o trono esqueceu o tal limite. É claro que não lhe é permitido, muito menos exigido, que minta. Mas é-lhe permitido, e mesmo exigido, que nos incentive, que nos anime. Sim, o Primeiro-ministro tem que ser um treinador. Não pode ser a velha amarga e pessimista que incentiva a desistir e a baixar os braços. Tem que ser o Mourinho deste jogo.
Outro argumento muito caro a quem lhe perdoa estes infelizes discursos apela a uma ideia que sempre tenho defendido: o Estado deve ser menos, deve deixar de intervir na economia e remeter para os privados a resolução de muitas questões, cabendo-lhe apenas ser o regulamentador e fiscalizador. Para ser congruente com esta ideia de economia liberal diríamos que nós, os que temos empregos, não temos qualquer obrigação de sustentar os outros, os que não têm empregos. Logo, aqueles que o não têm arranjem-nos, aqui ou ali, ou mesmo acolá. Mas porquê é que eles não têm e eu tenho? Serei eu porventura mais inteligente, mais competente ou mais diligente que todos aqueles que neste momento não têm salário? Provavelmente serei mais inteligente, competente e diligente do que muitos deles, mas não de todos. Seria de muita presunção minha pensar que isto que tenho se deve unicamente ao meu mérito e que todos os outros são um bando de idiotas e preguiçosos. Há muito de sorte, de infelicidade e de cunha na divisão empregado/desempragado, de modo que onde eles estão agora posso estar eu amanhã. Tão-pouco percebo que o Estado se demita da função de olhar por aqueles que neste momento não têm nada, como se este fosse um problema da sociedade civil, mas depois nos peça a nós, a tal sociedade civil, que paguemos a dívida que ele, o Estado, angariou. Porque a dívida não é do meu vizinho de baixo, desempregado, com 3 filhos e sem seguro de saúde. A dívida é do senhor Estado. E se o senhor Estado não ajuda o meu vizinho, pois eu não quero ajudar o senhor Estado. Não quero pagar impostos como se vivesse na Dinamarca e ver os meus compatriotas a viver como num país de 3.º mundo.
Dito isto devo dizer que a ideia de sair daqui a mim me seduz muito. Já se sabe que eu sou um saltimbanco genético, sempre à espera do próximo voo. Mas eu sou uma privilegiada. Não tenho filhos nem outras amarras neste país para além dos meus papás, que de mim já não esperam muito neste campo. Sou mão-de-obra altamente qualificada, de modo que não me seria terrivelmente complicado encontrar emprego. Falo várias línguas. Vivi vários anos fora. Não tenho encargos económicos que aqui fiquem pendentes. Posso sair quando me der na realíssima gana. Apenas me prende um emprego que me satisfaz plenamente, a consciência de que vivo uma vida que é, apesar de tudo, bastante confortável, e os ditos papás. Mas se eu tivessem filhos, uma casa para pagar, familiares idosos ou doentes que dependessem de mim, a escolaridade básica, e um enorme temor pelo desconhecido que nunca pensei sequer em conhecer… que faria? Será que me seria exigível sair daqui nestas condições?
Este nosso Titanic está a afundar e como de costume não há botes suficientes. Em boa verdade creio que aqueles de nós que sabem nadar se devem atirar ao mar bravio e fazer pela vida num outro barco qualquer. Mas eu posso dizer isto porque não votaram em mim para Primeiro. Porque se tivessem votado teria mais cuidado antes de vos pedir que se atirassem borda fora.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fica bem. Mas não bem assim.


Embora sejamos todos pessoas diferentes, ainda assim creio que é possível traçar um itinerário emocional pelo qual todos passemos exactamente nos mesmos momentos. Algumas de nós podemos suprimir ou um outro estádio, trocar-lhes a ordem (primeiro a revolta e depois a saudade, ou vice-versa) ou sentir as coisas ou bocadinho mais acima ou um bocadinho mais abaixo. Mas de um modo geral o percurso é este:
- “Não acredito que isto aconteceu!” – a surpresa. Porque mesmo já se sabe que vai acontecer… é sempre uma surpresa quando acontece.
- “Como é que este filho da puta se atreve a fazer-me isto?” – a revolta. O desespero mistura-se com a raiva, e mesmo com o ódio e a repulsa. Presentes são destruídos e inexplicavelmente muita coisa aprece partida lá em casa.
- “A culpa foi minha. Não fui suficientemente boa” – a autodestruição. A minimização da pessoa fantástica que somos e a sobrevalorização de um tipo que nos partiu o coração.
- “Não acredito que isto me aconteceu a mim” – a auto-comiseração. Dias em casa a chorar, 5kg a menos. O mundo, tal como o conhecemos, acabou ali.
Mas eis que a Fénix renasce das cinzas. Pode ser um convite para jantar, o ombro de uma amiga, um novo projecto profissional, ou até um vestido que experimentámos e nos fica especialmente bem. Os mortos não voltam à vida, mas as pessoas de coração despedaçado sim.
Partindo do pressuposto que somos pessoas mentalmente equilibradas e que os eles e as elas, apesar de não se terem portado no seu melhor, são ainda assim pessoas medianamente decentes, eventualmente acabamos a desejar-lhes uma boa vida. Não lhe queremos mal, que morra infeliz, doente e sozinho, na miséria, com dor de dentes e diarreia. Não. Afinal, aquela pessoa fez parte da nossa vida, fez-nos feliz durante esse período, de modo que lhe desejamos prosperidade, amor e saúde.
Mas… não tanta felicidade quanto a que nos calhe a nós. Apesar de tudo temos que ser nós os mais bonitos, os mais magros, os mais bem-sucedidos, os que temos os filhos mas bonitos, os mais desejados. Especialmente, temos que ser nós os mais amados.
Racionalmente sabemos que sua felicidade actual não significa necessariamente uma infelicidade passada ao nosso lado. Muito menos que tal se deva a alguma coisa que o presente someone tem e que nós, o past someone, não tínhamos. Mas aquilo que o cérebro sabe muitas vezes não chega para nos apaziguar, e continuamos a atormentar-mo-nos com a ideia de que não fomos o suficientemente. Simplesmente, não fomos o suficiente.
Isto já nada a ver com as réstias de sentimento que permanecem – porque permanecem sempre, ainda que de forma diferente do quando éramos um “nós” – nem com supostas paixões que permaneçam. É antes uma espécie de tola competição para ver quem sobrevive melhor, quem encontra o maior amor, quem sai por cima. Como se nestas coisas de amores e desamores houvesse vencedores e vencidos.
Será que isto nos torna pessoas mesquinhas e pequeninas? Talvez. Mas somos humanos, e os seres humanos são, entre outras coisas, mesquinhos e pequeninos. Além disso, os nossos desejos não são despojados de alguma grandeza. Não lhe desejamos mal, não nutrimos ressentimento, não o caluniamos, recordamos os momentos juntos com carinhos. Mas se há coisa de que não conseguimos abrir mão é do sentimento que nós somos melhores e merecemos melhor.
De modo que estou em crer que a verdadeira epifania… talvez não seja exactamente isso, de modo que vou reformular: a verdadeira afirmação de nós mesmos como a pessoa que desejaríamos ser acontecerá no dia em que desejemos a esse alguém o mesmo, ou mais até, do que aquilo que queremos para nós.

sábado, 17 de dezembro de 2011

QUANDO O AMOR SE MEDE AOS QUILÓMETROS


As relações humanas são complicadas. Quando entre os meus ventrículos e os dele se intrometem centenas, por vezes milhares, de quilómetros, esta complicação torna-se um verdadeiro enigma de física quântica. Como é que se mantém a chama de uma relação à distância?
Convenhamos que a questão não é nova. Os nossos avós e os nossos pais já se depararam com estes dilemas, com a pequena agravante de existirem muitas vezes guerras pelo meio. Já nem falo dos nossos mais longínquos antepassados, que deixaram donzelas debruçadas de janelas de torres para ir por aí matar dragões (ou mouros, o que estivesse mais a jeito).
Claro que hoje em dia a questão está simplificada pela existência de comboios rápidos, viagens aéreas a preços low-cost, telefones, internet e Pc’s com webcam. Se assim é, porque é que eu não conheço nenhuma relação à distância que tenha desembocado num final feliz?
Comecemos pelas minhas, que já sou perita no assunto. O primeiro amor da minha vida era polaco, lindo e alto, espirituoso e… morador em Varsóvia. Durou 5 meses. E assim se inaugurou um longo rol de relações internacionais, desde brasileiros a angolanos, passando por um libanês. Todos os finais foram dramáticos e dolorosos. I should have known better…
Quando o amor se mede à distância, entre continentes ou entre países, ou mesmo entre cidades, temos que nos convencer, antes de mais nada, que estamos sozinhos. Tudo aquilo que os outros fazem a dois, nós teremos que fazer a um.
Nos jantares românticos somos nós e o sofá, eventualmente deixando que a televisão se junte quando estamos numa onda de ménage.
As noites frias, à falta de quem nos aqueça os pés na cama, são suportadas à custa de sacos de água quentes, soterradas em cobertores e lençóis térmicos.
Fins de semana na praia? Enfim, se formos sozinhas não corremos o risco de nos deitarem areia para cima, e lá se haverá de descobrir uma forma de espalhar bronzeador na parte traseira.
Saídas de sábado à noite? Temos a hipótese de saídas com as meninas, e lá vamos nós com a famosa seta luminosa a pairar sob as nossas cabeças, anunciando à rapaziada que o mulherio anda à solta, o que é particularmente embaraçoso quando as amiguinhas andam em busca de companhia masculina, porque então se torna difícil explicar aos candidatos a “companhia” que elas têm de facto luz verde na testa mas que a nossa está vermelha…como as casas de banho do comboio quando estão ocupadas. Saídas com casalinhos? Cortem-me já os pulsos. Resta aquele núcleo indefinido de meninos que oscilam entre os conhecidos e os quero-ser-mais-que amigo. O desejável é evitar os convites que daí venham. Mas a verdade é que passar as noites em casa à espera de um telefonema ou um beijinho na net pode arruinar a nossa sanidade mental. Por isso lá vem o dia em que cedemos, e aceitamos o tal simpático (e completamente inocente e despretensioso) convite para jantar, que na maior parte dos casos termina connosco a bater a porta do carro e uma voz masculina a gritar lá de dentro: “Mas ele nunca iria saber…”
Sim, é difícil manter um amor que se mede em quilómetros. Força de vontade, perseverança, firmeza, lealdade, honestidade, capacidade de aguentar infinitas horas de solidão, paciência, esperança em dias melhores, tudo isso se espera de nós. Falo, em suma, de super-mulheres. E de super-homens, porque acredito que tudo isto se aplica a eles também. Vale a pena? Não sei ao certo. Acredito que sim. Tenho fé que sim. Não sendo eu católica, e tendo que ter fé em alguma coisa, que seja na vitória do amor (já estão a vomitar? É que eu estou quase).
Até porque nada bate aquele momento em que entramos no comboio, a contar cada segundo que falta, com o coração a bater, tirando o espelhinho da mala de minuto a minuto para ver se estamos bem, na ânsia de transformar todos aqueles quilómetros em centímetros de distância.

domingo, 11 de dezembro de 2011

A minha traição é melhor do que a tua


“Mas como é que ela sabe?”
“Ele disse-lhe. Foi ele que lhe disse na cara”.
“A sério?”
“Sim. Disse-lhe que não estava preparado para nada sério. O que procurava era uma amiga… uma amiga colorida”
“E como é que ela reagiu?”
“Ela já desconfiava. Afinal, que se há-de esperar de um homem que tem escrito no Facebook que quer conhecer mulheres?”
“E como reagiu ela?”
“Não reagiu mal. Respondeu-lhe que ele tinha que decidir o que queria porque ela tinha outra pessoa”.
“Mas tem?”
“Achas? Não tem nada. Disse-lhe isto para o espicaçar. E parece que ele ficou transtornado. Perguntou-se se era mesmo verdade, que não estava nada à espera disso… Enfim, ela disse-lhe que tinha outra pessoa na vida dela e que assim iria continuar, a não ser que ele quisesse outro tipo de relação”.
Nesse momento tive que sair do autocarro e não consegui saber mais nada desta relação desengonçada (só para rimar). Mas mal pisei a calçada com o meu sapatinho (não me recordo exactamente de qual, mas certamente era fantástico) pus-me a pensar o quanto as relações tinham evoluído nos últimos anos.
Tempos houve em que as pessoas mentiam para encobrir amantes e casos extra-relacionais. Hoje em dias as pessoas mentem para criar amantes e casos extra-relacionais.
Ora, quando é que ser infiel se tornou um requisito para uma relação bem-sucedida? Quando é que a promiscuidade se tornou um atributo bem cotada na bolsa de valores das relações amorosas?
Subitamente damos por nós a inventar jantares para os quais não fomos convidadas, telefonemas que não fizemos e quecas que nem pensamos em dar, só para ser mais… Mais quê? Mais interessantes? Mais apetecíveis? Mais sedutoras? Basicamente, um “melhor partido”. É como se não o facto de não flirtamos (ou sexamos, diria mesmo) com outras pessoas para além daquela com quem mantemos uma relação (mais ou menos) estável nos tornasse, de alguma forma, aborrecidas e pouco interessantes. Um coirão. As miúdas que ninguém quer. É certo que bem pode suceder que isso aconteça porque, simplesmente, não estamos interessados noutra pessoa. Mas isso seria um atestado de estupidez e de falta de sex appeal…não?
Hoje em dia, mais do que ter pessoas interessadas em nós para nos encher o ego, é preciso demonstrar publicamente que existem pessoas interessadas. Mesmo que não existam. É indiferente. Ao contrário da mulher de César não basta sê-lo, há que parecê-lo.
De modo que se não existem, inventem-nas. Criem contactos com números inexistentes e atribuam-lhe um nome que pareça terrivelmente interessante e sexualmente potente. Enviem a si próprias rosas vermelhas com um cartão escaldante, para serem recebidas na frente de muita gente mas, especialmente, na frente da “pessoa”. Recusem convites alegando hipotéticos jantares, saídas, fins-de-semana, ou qualquer coisa que vos torne mais apetecíveis. A imaginação não tem fim. E a loucura também não….
Porque é de loucura que falamos quando acreditamos que alguém vai gostar mais de nós porque se sente atraiçoado e magoado. Infelizmente, não é uma loucura da nossa cabeça, mas deste mundo em que vivemos, onde se implantou a ideia de que as pessoas mais interessantes são aquelas mais assediadas e – eis agora o grande salto filosófico – as que mais cedem aos assédios.
As pessoas já não se juntam para serem fiéis uma à outra, mas para se atraiçoarem mutuamente. Depois do tempo dos galanteios chegou o tempo das mágoas e das traições. De modo que já não há motivo para esconder facadinhas matrimoniais. Revelem-nas abertamente ao mundo. E se porventura não vos apetecer estar com mais ninguém… inventem-nas. A este estado chegámos!
Nunca pensei dizer isto, mas tenho saudades do antigamente….
Tenho saudades o tempo em que teria que inventar a suposta homossexualidade de algum cavalheiro bem-parecido com quem fosse apanhada a beber em copo. Agora a saída mais airosa para mim é debitar os vários encontros românticos que eu e o tal cavalheiro já tivemos. Caso contrário sou uma falhada. Ou, pior que isso, uma monogâmica.
De modo que se alguém perguntar onde estive nos últimos dez minutos façam o favor de não contar que os passei aqui sozinha, sentada no sofá a escrever. Peço-vos encarecidamente que espalhem aos quatro ventos que tive um jantar à luz das velas com um tipo alto, forte e espadaúdo que me convidou a ir passar com ele um fim-de-semana em Paris.