
Se a Cinderela fosse o Padre António Vieira também pregaria aos peixes. Não para mostrar as desvirtudes humanas, ou para que tenha especial apreço ou especial desprezo pelos peixes (pelo contrário, gosto muito de um peixinho), mas porque muitas vezes entramos em conversas onde o nosso interlocutor está ao nível de um peixe que, como sabe, não é uma criatura especialmente inteligente. Excepto o golfinho, alegarão agora os peixes, o que bem demonstra o peixes que são, já que o golfinho é um mamífero.
É claro que nem todos os interlocutores têm necessariamente que estar ao nosso nível intelectual. Alguns são um bocadinho mais inteligentes que nós, outros um bocadinho menos inteligentes, e assim vamos passando os nossos dias, umas vezes aprendendo, outras ensinando.
Depois temos as não-conversas. As não-conversas são basicamente discussões de assuntos com peixes. Isto porque a pessoa do outro lado da conversa não faz a puta ideia do que se está ali a discutir e a certo ponto damos por nós a pensar: “que raio estou aqui a fazer?”.
Comecemos por esclarecer que sou uma das pessoas mais tolerantes que conheço no que respeita às opiniões. Irrita-me até à unha do pé gente que parte para uma conversa com o intuito de evangelizar. Isto porque não há coisa que mais aprecie do que um bom esgrimir de argumento. Pode dar-se o caso de no final da batalha argumentativa a outra parte acabar por me dar razão e lá fico eu feliz e contente. Ou então sou eu que lhe dou razão a ela, e fico ainda mais feliz e contente porque naquele dia adquiri uma nova perspectiva das coisas. Mas em regra a coisa termina com um “we agree in disagree” e cada um vai à sua vida ciente das suas convicções.
Assim é que eu, que acho que o embrião não é pessoa, tenho amigos que defendem acerrimamente que sim. Eu, que sou pelo amor entre as pessoas, qualquer que seja o sexo, porque não é o género dos cônjuges que faz um casamento, tenho amigos que acham que este é um negócio jurídico reservado a um homem e a uma mulher. Eu, que adoro sapatos, tenho amigos que detestam futilidades. Eu, que sou lagarta, tenho amigos lampiõeozinhos. E idem, idem.
O que quero dizer com isto é que estou habituada à discordância e à discussão. Não sou intransigente com aqueles que pensam de forma diferente. Muito pelo contrário, são aqueles que se situam no extremo oposto do meu leque de valores que mais coisas me ensinaram e já por diversas vezes me fizeram questionar muitas das ideias que tinha como assentes na minha cabeça.
Mas – e este é o tal MAS – esses outros têm que pensar. Recusou-me terminantemente a desperdiçar os meus argumentos com gente que atira umas larachas e lhes dá foros científicos. Que pretende impõe uma ideia mas sem se preocupar em justificá-la. E incomoda cada caracol meu os supostos salvadores da pátrias, os mensageiros divinos que clamam pelos direitos das criancinhas, dos embriõezinhos, das beatazinhas que vão à missa para dizer mal do senhor padre, das mocinhas virgens que se dedicam ao cybersex, dos paizinhos de família que batem na mulher e na amante. É que quem hasteia com tão vigor a bandeira da moral e dos bons costumes faz-me duvidar dos bons valores que marcham naquelas cabecinhas.
Dito isto, devo dizer que é sempre com grande moléstia intelectual que ouço certas vozes espalhar a sua infinita sapiência acerca da maternidade de substituição. E enquanto a ouvia falar daquela vil corja das pessoas inférteis que se aproveitam das coitadinhas das mães de substituição pensei para mim mesma que os canais televisivos deste mundo devem atirar à sorte quem vão convidar para debater as questões, porque só assim se explica a presença da dita num debate de tão suma importância. Caramba, como é que lhes dão tempo de antena quando há por aí tanta gente interessante para ouvir rebater as minhas ideias?
Note-se: defender a proibição absoluta da maternidade é uma posição perfeitamente legitima, tanto quanto a minha o é. E de certeza que existem bons argumentos para a sustentar, embora eu não veja quais. Simplesmente, de certeza que serão pregadores destes que me os irão explicar, porque quem compara a maternidade de substituição à escravatura e ao tráfico de pessoas nitidamente entrou num patamar de devaneio com o qual não posso pactuar. Quem me diz que os homossexuais não podem adoptar porque são todos uns tarados pedófilos que iriam abusa das criancinhas está para além de toda a discussão, de toda a troca de ideias, enfim, da intelectualidade tal como a conheço.
Para mim, que venho de uma escola de argumentação, de retórica, de debate de ideias, entrar neste tipo de argumentação é qualquer coisa de inconcebível. Mais depressa descaço eu os meus sapatinhos e vou pregar aos peixes. Certamente daria o meu tempo por mais bem empregue.