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domingo, 12 de agosto de 2012
O dia em que o mundo acaba
Esqueçam o Armaguedon, as profecias Maias, esqueçam todas as histórias do fim do mundo. Porque não são precisos vulcões nem terramotos para o mundo acabar… quando acaba dentro da nossa cabeça.
Mas como a catástrofe se resume ao mundo que existe dentro de nós no dia seguinte o sol vai continuar a nascer, o patrão vai esperar por nós no trabalho, as contas que vão continuar a chegar, e para o resto será como, basicamente, nada se tivesse passado. O mundo não pára por nós, nunca nos esqueçamos disso.
Por isso há que fazer um esforço e sair da cama todos os dias. E tomar banho. E vestirmo-nos. E sair de casa como se cá dentro não houvesse nada mais senão arco-íris e borboletas. Porque ninguém tem culpa das nossas pseudo-tragédias pessoais, de modo que dispensem lágrimas e lamurias para aqueles momentos da privacidade do vosso eu.
Sugiro que todos colemos na porta do frigorífico uma espécie de mandamento geral, escrito agora, na plena posse das nossas faculdades, para ler e reler nos tais dias negros em que o mundo acabe:
i) Tudo acontece por um motivo.
ii) Nada se perde, tudo se transforma. Se alguma coisa termina é apenas para dar lugar a outra coisa melhor.
iii) Nada dura para sempre. Nem alegria nem a tristeza.
O fim do mundo pode ser apenas o inicio de um brave new world
domingo, 27 de março de 2011
Toda a felicidade que houver no mundo

Desejo-te o melhor. Toda a felicidade que houver que no mundo. O que desejo para mim desejo para ti também.
Que encontres a tua meia-laranja, quer fiques com ela ou a deites fora.
Que sejas o que sempre sonhaste.
Cheguei a convencer-me que eu faria parte desse sonho, mas as pessoas convencem-se de coisas tão tolas que quase se pensaria que tolas são as pessoas.
A verdade é que a felicidade é um bem escasso, como diriam os economistas. Um pouco como a manteiga em tempo de guerra. Nós somos muitos e a felicidade é pouca. E como se a sua escassez não bastasse ainda por cima é distribuída de forma bem pouco equitativa. Serão os ricos mais felizes? Os idiotas? Os génios? Os magros? Os gordos? Os casados? Os solteiros? Os mesquinhos? Os bonzinhos? Será que a felicidade é um gene do nosso ADN? Visitei muitas bibliotecas e muitos sites mas ainda não descobri o critério que faz com que algumas pessoas desejem levantar-se na cama para poder viver mais um dia e outras só o façam porque assim têm menos um dia para viver. Nem sequer me parece credível a velha teoria do Karma e do Dharma. Porque assim de repente consigo enunciar umas cem pessoas que são tão linda por dentro quanto infelizes por fora.
Eu, para mim, já nem quero toda a felicidade que houver no mundo. Quero apenas um bocadinho, não vá ter uma overdose de felicidade e acabar por morrer feliz. O que seria o cúmulo da ironia: um tipo é finalmente feliz e no instante seguinte morre.
A verdade é que talvez eu já tenha esgotado a quota de felicidade que me coube. É bem capaz desta questão ser regulada nos mesmos termos das relações internacionais, ou seja, tal como se distribuem pelos Estados quotas de poluição, Vai dai, eu já devo atingido o meu limite. É que quando olho para mim - para nós - nas fotografias, sei que naquele instante em que a câmara disparou eu era tão, mas tão feliz, que provavelmente já fui o mais feliz que alguém pode ter sido. Aquela era mesmo eu. Não era uma actriz, nem um desenho animado. Era eu feliz.
Ainda assim, ando a ver se encontro pelo menos uns gramas de felicidade. Talvez no mercado negro consiga pagar por ela um preço não muito elevado. Porque nos supermercados e locais de comércio habitais já há muito se esgotou. Foi levada por todos os primos e primas, amigos e amigas, que à noite chegam a uma casa quentinha e cheia de gente.
Muito me admita que o Continente não tenha pendurado nas suas prateleiras um aviso do género: “Prezado clientes, atendendo ao drástico decréscimo de felicidade a nível mundial teremos que racionar a sua aquisição, de modo que cada pessoa só poderá levar consigo um pacote. Gratos pela atenção, pedimos desculpa pelo incómodo”.
A questão é que quando isto acontece vamos reclamar com quem? Tenho para mim que o senhor Belmiro tem muito pouco a ver com a miséria das nossas vidas. Se ao menos fosse católica sempre poderia reclamar Com Deus. Talvez passar pelo Céu e escrever no Livro de Reclamações, como é meu hábito. Mas – como já se previa – não tenho a felicidade de ser possuída por uma fé no divino, de modo que mais não me resta senão reclamar comigo própria.
Porque a verdade é esta mesma: a religião, seja ela qual for, tem ao menos o grande mérito de nos permitir culpar alguém pelas nossas mágoas e frustrações. São os desígnios divinos. Tudo corre mal, mas não baixamos braços porque, afinal, Deus providenciará. E como Ele trata de tudo podemos nós viver mais descansadamente a nossa miserável vida. Já eu, que sou agnóstica, não posso apontar –Lhe o dedo. A minha fé resume-se a mim mesma, de modo que sou eu quem tem que providenciar por dias melhores ou bem posso chafurdar na tristeza.
Mas isto, tudo isto, são meras reflexões colaterais a propósito da felicidade. Aquela que te desejo a ti. Quero encontra-la, embrulhá-la e dar-ta de presente. Toda a felicidade que houver no mundo, mesmo que assim eu fique sem nenhuma para mim.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Como sobreviver a um coração partido

Volta e meia o meu cérebro precisa de junk food intelectual. Precisa de coisas fúteis, bonitas e brilhantes, de vestidos, festas e palermices. É um tonto este cérebro, mas é o que tenho, tem-me dado muitas alegrias, de modo que lhe faço a vontade. Gravo os documentos e faço um zapping na televisão ou uma navegação na web para ver as últimas novidades naquele mundo lá fora onde se bebe champanhe ao pequeno-almoço e se dão gorjetas de 10 mil dólares.
E uma coisa posso concluir: quando se tem dinheiro sobrevive-se melhor a um coração partido.
Há um par de dias atrás sofri um choque emocional quando ouvi num canal da especialidade que a Scarlett Johansson e o marido, aquele cavalheiro de abdominais bem definidos chamado Ryan Reynolds, se divorciaram. Ora, isto deixa-me triste.
Os finais de contos de fadas deixa-me sempre perturbada, sejam desgostos de amigos íntimos sejam de gente que nunca vi. Sou atacada por uma angústia, um desânimo, um descrédito. No fundo, cada vez que a coisa corre mal com os outros torna-se mais real o mal que pode correr – e corre – comigo.
Um amigo com o qual partilhei o meu nó na garganta apontou-me alguns aspectos positivos deste desastre amoroso.
Mas…
Que me interessa a mim que o senhor das abdominais esteja agora no mercado? Eu opero num diferente círculo comercial, de modo que pouco me aproveita a sua recém-adquirida disponibilidade amorosa, até porque estou em crer que já existia antes.
Que me importa a mim que possam ser mais felizes separados? Talvez sejam, talvez não. Este argumento, que tantas ouvi em relação aos desfechos trágicos das minhas próprias histórias, nunca me deu alivio. Porque até chegarmos ao ponto em que efectivamente no sentimos melhor ainda há espaço e tempo para nos sentirmos pior, muito mal mesmo.
Não é que eu esteja propriamente a viver dores que não são minhas. Já me bastam as que tenho, não sou masoquista ao ponto de chorar o desgosto dos outros. Mas tão-pouco posso evitar sentir um bocadinho daquela dor (talvez porque já a vivi e revivi na pele).
Mas sobretudo o que me custa é aceitar que aquele rompimento seja (mais uma) prova de que nada dura para sempre.
Agora, uma coisa é certa: por muito desgostosa que a menina Scarlett esteja neste momento (e acredito que sim, porque ser humano implica que não se passe incólume por episódios destes) a verdade é que a sua fabulosa vida e o seu fabuloso dinheiro vão tornar bem mais fácil a cicatrização do pobre coração despedaçado.
É que enquanto eu me fecho em casa uma semana, a carpir as mágoas, a olhar para uma pilha de livros e uma sala vazia, a menina foi para Jamaica com as amigas, apanhar sol e beber cocktails. E provavelmente quando regressar vai gastar mais um milhão em compras, fazer uma lipo ou uma plástica ao nariz (que não precisa, mas só porque pode) e arranjar um boy toy 5 anos mais novo e 10 abdominais mais acima.
Não é que estas coisas sejam remédio milagroso para desgostos de amor mas… caramba, não seria tão mais fácil se eu estivesse agora numa praia paradisíaca a afundar tristezas num mojito?
Provavelmente não.
Provavelmente eu continuaria a comportar-me da mesma forma patética. Estou em crer que por mais dinheiro, fama e sucesso que tivesse continuaria a meter pensinhos rápidos no coração e a tomar xaropes de lágrimas e soluços para ver se a dor passava.
Devo dizer que até acho que lido com relativa graciosidade com contrariedades, mas só as de outro tipo. Os desgostos amorosos, esses malvados, deitam-me completamente abaixo.
Por isso se há coisa que eu admiro nos outros é a capacidade de passar por estes atribulados revés como se fosse um mero tropeção na calçada.
Há dias uma amiga confidenciou-me que o seu casamento tinha acabado. E eu entrei naquele pânico súbito que estas notícias sempre me trazem e perguntei-lhe em aflição se estava tudo bem, se precisava de alguma coisa, garanti-lhe que eu estava aqui para a ouvir. E ela respondeu com a maior das tranquilidades que estava óptima, que a decisão tinha sido dela, que continuavam amigos, e que estava super feliz com a sua nova vida de solteira, com todos os encontros e oportunidades que a mesma lhe proporcionava.
Li estas palavras – foi por mail a conversa – e senti-me a criatura mais tola do planeta. Aliviada por ela, mas envergonhada por ser incapaz de perceber a felicidade e serenidade desta mulher. Não posso garantir que semelhante alegria tenha chegado para ficar ou se não será apenas momentânea, como o canto do cisne antes da solidão se instalar. Mas ainda que assim seja não posso deixar de a admirar.
Eu, porém, nunca poderia ser como ela, nem como a Scarlett, nem como todas essas pessoas admiráveis que seguem em frente depois de se defrontarem com o fim de uma história que certo dia se pensou ser eterna.
Desde logo porque a minha versão da “fuga para um sítio paradisíaco” foi para um Bilbao frio e chuvoso, onde passei uma semana a trabalhar e a beber aquele terrível café espanhol como alternativa às piñas coladas. Ao invés de wild friends tive a gentil e jamais irretribuivel companhia de uma queridíssima amiga, contudo, tão ou mais triste e magoada do que eu. Tivemos as nossas sessões de choro, de raiva e de desânimo, e a maior loucura que cometemos foi ir ao Corte Inglês gastar dinheiro que não tínhamos, com o qual comprei um vestido que mal tenho coragem de usar e umas Levis que só consigo enfiar em mim deitada na cama e deixando de respirar durante 10 minutos.
As insanidades que não se cometem às ordens de um coração partido!
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Epidural para dores de alma

Se eu tivesse agora mesmo uma dor lancinante no estômago, nos dentes, em qualquer parte do meu corpo físico, corria para a farmácia, comprava aspirina ou, em última instância, Clonix, e a maleita supostamente passava. Se assim não fosse, apanhava um táxi para o hospital e, ainda que em plena agonia, pedia uma intervenção cirúrgica, uma epidural, uma transfusão sanguínea, eu sei lá…
Paradoxalmente, ninguém inventou ainda nada para as dores de alma. O que afinal redunda também numa dor física, porque não há nada de mais corpóreo do que o coração, que nos bombeia sangue para que tudo o mais funcione. E a alma, para todos os efeitos, é a magia que faz o vermelhinho bater.
Para as tais dores de alma parece que só mesmo o tempo, esse médico infalível, consegue aliviar o sofrimento. Mas o Dr. Tempo demora demais. A ferida tarda tanto em sarar que por vezes infecta e temos que ser amputadas. Eu, por exemplo, já ando aqui pelo mundo sem um bocadinho que mim, que se perdeu algures num destes episódios de infecção aguda.
Seria de esperar que quando a doença se tornasse crónica perdêssemos alguma sensibilidade para a dor. Um pouco como sucede com os sapatos apertados: após horas a fio com os bichos a devorarem-nos os dedos dos pés deixamos de os sentir e somos apenas mulheres lindas com sapatos fantásticos. Mas não. Concluo que a alma – pelo menos a minha – segue um timing diferente dos pés. E por mais machucada que esteja nem por isso perde a sensibilidade (diria mesmo, hipersensibilidade) à dor. Já perguntei por aí se alguém conhece uma epidural para dores de alma, mas consta que a ciência ainda não se ocupou deste problema. Também procurei nas Páginas Amarelas por um curso Lamaze de preparação para a dor aguda, mas a busca foi infrutífera. Resta-me treinar em casa exercícios de respiração na fugaz ilusão de conseguir controlar as contracções de tristeza, mas confesso que os actos de inspirar e expirar são relativamente inúteis quando as lágrimas atacam convulsivamente.
Mas como há gente tão inteligente nesse mundo todo, quem sabe se algum crânio no MIT, ou um daqueles senhores indianos que agora inventam tudo, não se lembrará de criar um transplante de alma. Não que seja muito apelativo andar por aí com a alma de uma pessoa morta, quase um fantasma dentro de nós, mas caramba… não há-de ser muita a diferença face a quem anda com o rim ou com a córnea de um cadáver. E neste momento, em que até já xenotransplantes se fazem, estou até disposta a aceitar a alma de um porco ou de um gato. Na verdade pouco me interessa o animal, desde que tenha sido feliz em vida.
Também já ponderei a hipótese de recorrer a células estaminais para a alma. O nosso primeiro (senhor licenciado em engenharia) instituiu o banco público de células do cordão umbilical. Porque não me aventuro eu na criação de um banco de células de alma? Anúncio: “Procuram-se dadores felizes, que queiram fazer outra pessoa feliz mediante as suas células almares (assim as baptizei eu)”. Mas como por mais que salte, faça o pino e me vire ao contrário ainda não descobri como extrair uma dessas células almares, e porque quase desconfio que a alma não é feita de células mas de pozinhos de prelimpimpim, chego à conclusão que não será na ciência que encontrarei resposta para a minha doença.
Só me resta esperar que a febre intensa e a perda brutal de sangue não me matem a alma. Não saberia onde a sepultar nem como viver sem ela.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
CONFISSÕES DE UMA EX-TRISTODEPENDENTE

“Olá, o meu nome é V e sou uma ex-tristodependente. Estou em recuperação. Este é o meu 30.º dia sem depressão”
Todos nós ficamos tristes. Mas para alguns de nós a tristeza pode transforma-se a qualquer momento numa depressão profunda, com perda de peso, choro, noites em claro, e tudo aquilo a que uma boa depressão dá direito. Os comuns mortais derramam um par de lágrimas e seguem o seu caminho. Alguns de nós, porém, lançam-se em queda livre num abismo e enquanto não batem no fundo mais fundo dos fundos não emergem à superfície. Não que sejamos pessoas depressivas, lúgubres ou soturnas. Pelo contrário. A nossa felicidade supera igualmente a vossa, é arrasadora. Simplesmente, é como se qualquer emoção fosse levada até aos píncaros. E o que vale para o riso vale igualmente para as lágrimas.
Costumo pensar em mim como uma espécie de addicted, com a diferença de que a minha adição é a tristeza. Gosto dela? Sim. Sempre pensei que são os momentos tristes que melhor nos fazem apreciar a nossa felicidade. Posso viver sem ela? Com a sua total ausência penso que não, mas sem dúvida que gostaria de a ter mais afastada. Domina a minha vida? Hoje já não.
Porque estou consciente disso apenas me deixo submergir na depressão durante um de par de horas. Um fim-de-semana no máximo. Porque estar deprimida é um luxo, e nem todos nos podemos dar a esse luxo. Eu, de todo, não posso. Sou como um alcoólico em recuperação. Ele sabe que não pode sequer beber um copo de vinho porque estará a abrir a porta a perigos inimagináveis. Passado uns meses autorizar-se-á a beber um copo, mas nunca poderá cair ébrio. É difícil. Para ele um copo nunca será apenas um copo, à vontade de seguir-se-á o desejo de muitos. Ele entra em coma alcoólico; eu entro em coma depressivo. Por isso aprendi a disciplinar-me. Não sei se o controlo das emoções me torna mais fria e menos espontânea, mas tenho a certeza que me torna mais forte. Se a tristeza é a minha debilidade só lhe posso dispensar um prazo muito circunscrito do meu tempo de vida. Hoje em dia dou a mim mesmo um minuto por dia, em regra à noite, antes de adormecer. Não mais. Quem manda sou eu, não o vicio.
Da última vez que me aconteceu um desastre emocional entrei em pânico. Mais do a que a tristeza em si era o temor daquilo que se lhe seguiria. Autorizei-me a deprimir durante um fim-de-semana. E na 2.º feira pintei os lábios, disfarcei as olheiras e saí para a rua. Porque ninguém gosta de fracos. A sensibilidade é admirável, mas a fraqueza não. A vulnerabilidade até pode ser interessante, mas a debilidade é tremendamente aborrecida e monótona. Nenhum dos restantes seres humanos é obrigado a suportar os meus devaneios depressivos, sob pena de um dia eu me transformar em mais uma personagem de novela mexicana. E haverá sempre aqueles que passarão por uma fase de júbilo com a nossa angústia.
Nunca estive numa reunião de alcoólicos anónimos mas nos filmes falam sempre dos 12 passos e do célebre “um dia de cada vez”, e é assim que procuro gerir a minha adição. Não sei quanto tempo me conseguirei aguentar assim, mas sei que hoje ainda não fui derrotada.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Coisas pelas quais vale a pena chorar

O meu carácter esquizofrénico oscila entre duas personalidades tão opostos entre si como um Óscar e uma Framboesa de Ouro. Uma tem uma enorme dificuldade em chorar e engole as lágrimas das milhentas dores do dia até ao ponto em que abre as comportas como uma barragem e chora baba e ranho até estar prestes a afogar-me. A outra é uma chorona empedernida, que até nos desenhos animados derrama lágrimas, desde o momento em que morre a mãe do Bambi até àquele em que o pequeno dinossauro se perde da sua manada.
Porque sou conhecedora do tema, decidi então meditar um pouco sobre as coisas que nos fazem chorar. E na tentativa de tornar a coisa mais científica levei a cabo um estudo destinado a concluir quais dela valiam a pena e quais eram uma total perda de tempo e de fluidos.
Coisas pelas quais não vale a pena chorar:
i) Por zangas com familiares: os laços de família são altamente sobrevalorizados. O que conta são os laços efectivos, que nos podem ligar a pessoas que não têm connosco nenhuma semelhança genética. Se o avô prefere os outros netos, ou se a tia mesquinha nos acusa de andarmos atrás de heranças, isso é problema deles, não nosso;
ii) Por vicissitudes do trabalho: no trabalho há que ser duros e implacáveis. Olhos inchados não se compaginam com o exímio profissional que todos queremos ser. Por isso, o melhor é fazer das lágrimas força, fúria mesmo, e utilizar toda essa energia para trabalhar pela noite dentro, já+a que chorar na almofada dá dor de cabeça e retira a concentração;
iii) Partir uma unha: as unhas longas estão demodée. Viva as unhas curtas que não nos magoam ao tirar as lentes de contacto;
Coisas pelas quais vale a pena chorar.
i) Perder um amigo: os amigos, tal como os guarda-chuvas, podem ser facilmente perdidos. Não que nos esqueçamos deles em algum lado, simplesmente, esquecemo-nos deles. Ou eles de nós. O que equivale ao nosso próprio guarda-chuva esquecer-se de nós. E assim como as pessoas sem guarda-chuva se molham e podem ficar constipadas, em última instância apanham pneumonia e morrem, também a perda de um amigo mata um bocadinho de nós porque aquela pessoa já se tinha integrado entre a nossa epiderme e a nossa derme;
ii) Estragar um sapato: porque os sapatos são nossos amigos e, por conseguinte, equivale a perder um melhor amigo;
iii) Ganhar 5 quilos: neste caso não choramos apenas pelo facto de nos termos aproximado de mamíferos marinhos, mas também porque chorar deve, certamente, gastar algumas calorias;
Se há coisa pela qual não devemos, de todo chorar, é pela ruptura de uma relação. Claro que é a minha vertente racional a dizer isto, porque em boa verdade quando sou eu a interveniente de um desses dramazecos de filmes de série B, choro como se o mundo fosse acabar naquele mesmo momento. Ora, quando um, ou os dois, decidem terminar uma relação não se está a perder nada, mas sim a ganhar. A ganhar a oportunidade de poder encontrar o verdadeiro amor da nossa vida. Basta que um não esteja bem na relação para tomarmos isso como um sinal de que não é aquilo que andamos à procura. As histórias de amor pelas quais vale a pena chorar são aquelas em que as coisas terminam por motivos completamente alheios à nossa vontade, e isso apenas acontece quando o amor da nossa vida morre. Como nos filmes e nos romances. Como da Dama das Camélias. Aí as coisas terminam de uma forma que não podemos evitar. Em todas as outras situações podemos inventar mil e uma desculpas para as coisas não resultaram, mas, em boa verdade, se não resulta é porque não queremos que resulte, porque as nossas prioridades assim o ditaram. Não é a vida, nem as suas circunstâncias, que nos controla a nós e que decide o nosso destino. Somos nós que orientamos a nossa vida como bem entendermos. Se achamos que um trabalho, um capricho, uma queca, uma noitada com amigos, que tudo isso vale mais do que a relação, então, trata-se de uma decisão nossa. De modo que terminar uma relação não é motivo para lágrimas, mas para esperança por dias melhores e pela possibilidade que se abre de poder encontrar a real meia-laranja. Se ainda assim quiserem derramar umas lágrimas, não chorem por um suposto amor perdido, mas sim pelo tempo que perderam com ele.
domingo, 11 de julho de 2010
Apanhando do chão pedacinhos do meu coração

Há dores imensas no mundo. Tenho uma tatuagem no fundo das costas que foi sentida como se uma lâmina em brasa me retalhasse a pele. Dizem que deixar a pilinha presa no fecho das calças implica uma dor acutilante… mas aqui vou ter que confiar nas palavras de quem o conta.
Tenho para mim que a maior dor de todas é partirem-nos o coração. Ele cá está, pequenino e vermelho, a bombear sangue e a manter-nos vivos. Mas um dia … CRASH…Rompe-se em mil pedaços, que caem no chão, e ficam as pontas aguçadas a espreitar lá de baixo para nós, prontas a espetar-se-nos no pé a cada passo mal dado. Não é só o momento em que coração se parte. Não é só a ausência, o viver sem ele. É o ter que andar pé antes pé para não nos magoarmos mais. A partir daí vivemos em piloto automático. Como um avião que ande pelos céus a voar sem rumo. Acordamos, expiramos e inspiramos, comemos (às vezes) e dormimos. Piloto automático porque já não esta o coração. Tentamos conhecer pessoas. Sair à note. Distribuir misteriosos sorrisos de Mona Lisa. Substituir quem perdemos por alguém novo. Eventualmente apaixonamo-nos mesmo. Mas não resulta. Porque os tais pedacinhos pontiagudos de coração continuam lá caídos no chão, sem nos deixar saltar nem dançar sem provocar feridas. O instinto de sobrevivência diz-nos que não podemos perder nem mais uma gota de sangue. Por isso aquela nova paixão nem o chega a ser. Melhor não mexermos os pés do que nos magoarmos nos estilhaços.
A segunda dor maior a seguir a esta é vê-lo com a outra. Onde ela, nós estivemos. Onde ela dorme, nós dormimos. Vê-lo é como andar descalça em cima dos pedacinho de coração partido.
Não lhe desejamos mal. Seria bem mais fácil ter-lhe raiva, rancor. O ódio sempre funcionou como uma grande arma de defesa e de recuperação. Tão-pouco gostamos já. Tudo o que um dia existiu já desapareceu. Afinal, ele partiu-nos o coração. O único que tínhamos. A Zara ainda não os vende. Nem sequer a D& G lançou algum último modelo de corações. Não sentimos nada. Isso é o pior, não sentir nada. Mas fica a ideia de que aquele foi o nosso lugar. E, sobretudo, um grande sentimento de frustração. Será que as rupturas amorosas nos lançam em desenfreada competição com os ex’s? Será que tudo está em saber quem se apaixona primeiro? Quem reconstrói a vida antes? Será que naquela noite, quando o vi de mão dada com ela, tudo teria sido diferente se eu tivesse uma mão na minha também? Não sei… porque não tinha. Só sei é que foi ele que me partiu o coação a mim e não o inverso. Mas agora é ele que tem alguém ao lado enquanto eu passo as noites sozinha a tentar não pisar os cacos. Onde está a divina justiça no meio disto tudo? Então ele não devia ter sido condenado pelo Tribunal dos Corações Partidos a nunca mas gostar de ninguém? E a mim, quem me arranja um coração novo? É que eu fiquei estragada. Sou a mercadoria estragada na última prateleira da loja. E ninguém quer uma mercadoria danificada. “Desculpe, venho devolver esta menina. Parecia perfeita mas falta-lhe aqui o coração, está a ver? Está a ver este buraco? Troque-a por outra por favor. Esta já não presta”.
As pessoas são muito engraçadas. Têm mil cuidados com as jóias de família, com jarrões de porcelana chinesa, com vasos de cristal. E depois usam-se umas às outras como se fossemos bonecos de borracha ou feitos de material inquebrável. Não há nada mais frágil do que uma pessoa. Estraga-se com um simples toque, não vem com peças subselentes, e é absolutamente insubstituível.
A única virtualidade de o ver com ela, a olhar para ela como um dia olhou para mim, é a de me obrigar a baixar-me e a apanhar, um a um, os pedacinhos de coração caídos do chão. Depois, percorrer meio mundo procurando uma cola sucintamente forte para reparar corações. E quando finamente a encontrar reconstruir o puzzle.
Primeiro, porque precisamos de um coração cá dentro para pôr alguma ordem na casa, que isto de viver em piloto automático, mais dia menos dia, provoca uma acidente grave. Depois, porque se caminharmos a vida toda em bicos de pés com medo de nos magoarmos de novo vão-nos passar pessoas lindas ao lado, que tivemos medo de conhecer, não fosse uma das tais pontas aguçadas espetar-se de novo em nós.
Por todas estas razões vos garanto que um destes dias vou finamente encher o meu “buraco negro” com um aglomerado de coração. Preciso dele com urgência. Não quero que os pedacinhos aguçados se intrometam entre mim, aqui quietinha a um canto, e alguma coisa possivelmente fantástica que me esteja a acontecer.
terça-feira, 15 de junho de 2010
O camaleão que há em mim

Às vezes queremos as coisas com uma força tal que parece que se a vida nos trocar as voltas e aquilo não acontecer do modo como tínhamos planeado na nossa cabecinha o mundo acaba ali mesmo. Reformulo: às vezes quero as coisas com uma força tal que parece que se a vida me trocar as voltas e aquilo não acontecer do modo como tinha planeado na minha cabecinha o mundo acaba ali mesmo.
De facto, esta reflexão surge no seguimento do post anterior: é precisamente aquela intensidade que dá ritmo à minha existência a dar causa aos Armagedons que volta e meia me dão cabo da (pouca) tranquilidade que tenho.
Isto vale para as grandes e pequenas coisas, para os grandes e pequenos desejos. Suponha-se - é um “suponhamos” - que começo a partilhar jantares com um cavalheiro e que a coisa até nem corre mal, a ponto de começarmos a ser vistos juntos em público e de chegarmos a trocar fluidos bocais. Pois nesta altura começo eu a criar cá dentro a expectativa de ser ele a minha meia laranja e fazer planos sobre o que pode suceder. Planos imensos, onde a páginas tantas já escolhi os nomes dos nossos filhos e o sitio onde vamos passar a lua-de-mel. Está bem de ver que, quando passado um mês começamos a discutir até sobre o sítio onde tomar café e a love story se torna uma I don’t care story, o meu castelo de cartas desmorona-se e eu, que já me empenhara naquilo como se o homem fosse o amor da minha vida, desmorono-me um bocadinho também. O que não é mau de todo porque, afinal, perder o apetite nunca fez mal a ninguém e dá sempre jeito perder um par de quilos.
Esta era a “pequena coisa” de que falava. Agora uma “grande coisa”: vamos ficcionar porque é de mera ficção que se trata – que compro um vestido lindo, daqueles que escondem o que há que esconder, levantam o que há que levantar e fazer nascer curvas onde elas não existem e deveriam existir. Porém, com um grande senão: aquela cor, aquele azul do pequeno debruado do vestido não existe em nenhum sapato da minha colecção centenária. Claro que sempre poderia usar um sapato amarelo que, afinal, é a cor do vestido. Mas… há alguém que use sapatos da mesma cor do vestido? Ainda para mais, em amarelo? Mais vale mascarar-me de Piu-Piu de forma descarada.
O mundo está prestes a acabar!!!!! O que é que vou fazer com um vestido que me engoliu o salário se não tenho nada para calçar?.... Pensa Vera, pensa… Felizmente aparece sempre aquela amiga solicita que acabou de ver umas sandaloscas exactamente daquele azul no shopping junto à casa dela, que fica apenas… a 10 ou 20 paragens de metro… mas que se lixe! Valores mais altos se levantam! E é assim que euzinha começa logo a fazer filmes sobre o fabulosa que vou ficar com o vestido e as sandálias. E começo a pensar numa bandolete, nos brincos, na sombra, na bracelete do relógio. Em boa verdade, construo toda uma série de indumentárias com base nos sapatos novos que vou ter, e de repente, naquele mundo que existe na minha cabeça, já eu era a feliz possuidora de um guarda-fato novinho em folha. É que depois vou precisar de uma mala para dar com os sapatos, e seria um desperdício ter uma carteira amarelinha sem uma camisa que fizesse pandant, e esta, por sua vez, que bem ficaria com uma saia denim bem escuro, e aí por diante. Enfim, faço as tais 10 ou 20 estações de metro, chego à Meca que iria mudar a minha vida e, vai-se a ver, os sapatos eram feios como um liftiing mal feito, costuras imperfeitas, um material que tresandava a plástico e um salto digno do calçado Guimarães. Que posso eu dizer? Não há nenhuma lei que imponha que as amigas solícitas e simpáticas tenham igualmente bom gosto.
Ora, que fazer quando aquilo que mais queríamos – um par de sapatos amarelos, o amor da nossas vidas, um emprego, a admiração de uma amiga, um bebé tãodesejado, um laptop, a cura de uma doença, o que seja – não acontece? Que fazer quando o mundo se desmorona assim à nossa volta? Damos uma cabeçada na parede, gritamos furiosamente (aconselho a faze-lo protegida pelo toque de uma vuvuzela) e depois continuamos as nossas vidas, conformando-nos com as circunstâncias e adaptando-nos a elas. Como um camaleão.
Darwin tinha a sua razão quando advogou a selecção natural da espécie. De facto, só sobrevive o mais forte. Na selva que é a vida em comunidade só sobrevivem mantendo a sanidade mental e permitindo-se laivos de felicidade aqueles que conseguem viver com as desilusões e com as expectativas goradas. Eu, pessoalmente, tenho muita dificuldade em lidar com as frustrações. Sendo uma control freak, e metendo muito de mim em tudo aquilo que quero, o resultado óbvio são decepções brutais, equivalentes àqueles saltos em que o pára-quedas não abre e o fulano se estatela no chão. Assim sou eu. Dia sim, dia não, caio de cabeça e apercebo-me que aquele momento de felicidade brutal que tinha vivido ao convencer-me (primeiro da possibilidade e depois da efectividade) da realização de um sonho, afinal, não passa disso mesmo: um sonho. Por isso sou camaleónica. E mudo de sonho todos os dias, como quem muda de cor.
domingo, 13 de junho de 2010
A síndrome da emoção excessiva

É bem patente que fisicamente não sigo o estereótipo da mulher latina. Sim, o tamanho do rabo está cá (para mal das minhas calorias) mas o resto situa-me algures entre uma emigrante da Europa do Leste e uma princesa russa caída em desgraça.
Mas cá dentro, ah, cá dentro sou do mais latino que há. You know what I mean. O sangue ferve-me nas veias de uma forma tal que poderia estrelar um ovo no antebraço.
É claro que me reporto a concepções estereotipadas do que são os povos do norte e do sul. Conheço por aí alguns hispânicos que são tão insonsos e “indoces” como a comida da minha avó, ao passo que o meu primeiro namoradinho, um polaco de quase 2 metros (sim, a certa altura da minha vida cheguei a acreditar que o meu apelido iria ser Jacinsky) parecia um latin stallion. Mas, de modo geral, os que estão abaixo da linha do Equador ou mesmo nós, que mais perto estamos dela, partilhamos alguns traços psicológicos que nos podem tornar apaixonantes… ou exasperantes. Por tudo é nós é, simplesmente, excessivo.
Acho que nunca na minha vida estive feliz. Nem triste. Porque aquilo que os outros chamam felicidade para mim torna-se o sentimento de suprema exultação, uma orgia cá dentro que me faz pensar estar acima dos comuns mortais, que se bastam com aquele estado de superficial alegria. Tristeza? Não. Uma demência que me arrasta para as profundezas mais recônditas da alma, lugares escuros e inóspitos, que me causam sintomas físicos profundos, como se tivesse sido assaltada por uma doença mortal: insónias, dores de estômago, vómitos. O sonho de qualquer mulher em regime de dieta porque nesse estado de sonambulismo emagreço mais depressa do que a Kate Moss.
Nem sequer acho que alguma vez na minha vida estive aborrecida com alguém. Tenho fúrias mortais em relação às pessoas, dignas do “Padrinho” de um filme de mafioso. Quando me magoam as minhas mágoas levam anos a sarar, deixando cicatrizes imensas, algumas duram até hoje. Em suma, nada é levado de ânimo leve.
Dito isto, é fácil antever como sou nas paixões. Arrebatadores, loucas, possessivas. Como se em cada relação revivesse Julieta pronta a morrer pelo seu Romeu.
Não é difícil concluir que as relações comigo são, no mínimo, atribuladas. Com os amigos, com todos aqueles de quem gosto, e especialmente, com aqueles de quem mais gosto. Não sou aventura para homens mais pacatos. Todas as minhas paixões foram atribuladas, cheias de discussões constantes para depois acabarem em lágrimas, pedidos de perdão, baba e ranho por tudo quanto é sítio, cenas melodramáticas. Ora, isto pode ser extenuante. Para mim, o amor é assim, mas como as pessoas normais têm percepções bem mais saudáveis do que é a vida em relação esbarro sempre na minha incapacidade para experimentar a serenidade de um amor tranquilo. Continuo à procura.
Nem sei ao certo o que mais me conviria a mim. Se alguém tão efusivo como eu, se alguém que, com a sua placitude, acalmasse a minha índole. Quanto estou com criaturas vulcânicas percebo perfeitamente que nos levaremos facilmente à loucura e que aquela paixão tem os dias contados, sob pena de tudo terminar num crime passional. Quando estou com homens tranquilos sinto a falta daquele ímpeto e parece que vou morrendo aos poucos de tédio.
Não sei viver de outra forma. Tenho-me esforçado por ser mais comedida, mais sensata, mais serena, mas não está no meu código genético. Se a vida de alguns dava um filme indiano, já a minha dava um romance do Dostoevsky.
Não me estou a vitimizar. Na verdade, nem sei se conseguiria a vida plácida e tranquila que o ser humano médio vive. De certa forma, a possibilidade de poder exponenciar as minhas emoções quase que tem alguma coisa de divino e me aproxima dos deuses. Lá no Olimpo não havia espaço para sentimentozinhos. É verdade que a minha tristeza é sempre uma angústia, e nunca sei se não me cai em cima uma dor tão profunda e lancinante que acabe de vez comigo e com este pobre coração já tão desgastado. Mas, por outro lado, quando estou feliz a minha felicidade é maior do que a vossa. E quando estou apaixonada sinto o amor como uma autêntica Dama das Camélias.
Viva. Sinto-me sempre viva porque, afinal, sinto tudo. Nunca posso dizer que a minha existência é monótona. Viver no abismo. In the edge. Puxar a corda sempre mais um pouco. A emoção é sempre um bocadinho mais intensa. Quase que diria que sou viciada nisto. A minha heroína são os sentimentos. E o temor de uma overdose emocional está sempre à espreita.
Será isto uma doença? Uma deficiência? Será que me permite ter uns dias de baixa por cada mês? Ser-me-á permitido descontar no IRS a minha incapacidade psicológica? Ou, melhor ainda, posso ter um autocolante com um o desenho de uma cadeira de rodas na alma que me permita estacionar nos lugares para deficientes no centro comercial?
sexta-feira, 4 de junho de 2010
O melhor que há em nós

As pessoas são como o Corte Inglês: têm coisas bonitas e coisas verdadeiramente pavorosas. Nós temos defeitos feios, daqueles que nos fazem corar e que gostaríamos de esconder debaixo do tapete das nossas vidas. E temos qualidades capazes de nos fazer ganhar o Óscar de melhor pessoa do mundo. Ambas estas dimensões - chamemos-lhe o lado lunar e o lado solar – vivem cá dentro, mais ou menos misturadas, à espera que algum ímpeto exterior desperte um ou outro. Esses ímpetos são, em regra, outras pessoas.
Explicando: há seres humanos que nos fazem sentir bem e, por isso mesmo, despertam o melhor que há em nós, tornando-nos todos os dias pessoas mais bonitas e fazendo-nos sentir que estamos a crescer e a aperfeiçoar-nos; depois, há outros seres humanos que, por razões conhecidas ou desconhecidas, acendem a chama do nosso descontentamento, e fazem vir ao de cima os nossos traços mais feios, assim como a nata do leite logo emerge à superfície mal ele é aquecido.
Mas também nós temos o poder de provocar nos outros semelhante efeito, de tal forma que alguns se tornam pessoas melhores na nossa companhia, expandido ao máximo o seu potencial, ao passo que de outros só conseguimos arrancar os mais desvirtuosos defeitos.
Agora vamos à forma como tudo isto se relaciona com a minha já célebre teoria das meias-laranjas (e que, ao que parece, nem sequer é minha, porque já há muitas luas atrás a Cabala tinha avanço uma explicação semelhante para o amor mundial, se bem que gosto de pensar que a trabalhei e aperfeiçoei ao ponto de poder fazer minha).
As meias laranjas hão-de ter o poder de despertar os lados mais deliciosos que uma e outra têm. Ele faz de mim a pessoa que eu quero ser, e eu faço dele a pessoa que ele quer ser. E como a pessoa que eu quero ser coincide com a pessoa que ele quer que eu seja, e como a pessoa que ele quer ser coincide com a pessoa que eu quero que ele seja, tudo isto se harmoniza como se fosse uma palette de sobras Chanel.
Quando nos apaixonamos pelas pessoas é claro que o fazemos pelas suas qualidades e pelos seus defeitos também. Ou melhor, apesar dos seus defeitos. São as suas partes boas que nos atraem. Claro que tudo depende daquilo que cada um considera como sendo “uma parte boa”. Para alguns será um belo par de mamas ou um vigoroso par de bíceps. Para outros um cartão de crédito dourado. Quero crer que para a maior parte de nós as partes boas dos outros são a inteligência, a coragem, o sentido de humor, os bons valores.
Já lá vai o tempo em que os meus pelinhos dos braços (só esses) se arrepiavam com o primeiro filho da puta que circulasse num raio de 10km. Já lá vai o tempo em que acreditava piamente que os bad boys eram a coisinha mais sexy que Deus tinha posto neste mundo para nos tentar. Hoje em dia o que eu acho sexy, mas assim sexy, mesmo sexy, é gente bem-formada. De valores coesos, bem sedimentados. Um tipo que não mente tira-me do sério. E porque são tão difíceis de encontrar é que eu passo muito tempo séria nesta vida…
Que havemos de pensar então quando conhecemos uma pessoa assim, a bigger person so to say, que se torna a smaller person ao longo da nossa convivência? Alguém de elevado estatuto moral, com uma personalidade digna de nos fazer desejar ser como ele, alguém que admiramos e que tomamos como modelos de conduta, até ao dia em que nos apercebemos que afinal o príncipe se transformou em sapo.
Confrontados com este desfecho, só há duas conclusões possíveis. Uma é que essa pessoa nos enganou desde o primeiro momento, e que vivemos iludidos com a imagem de alguém que não existia senão nas nossas expectativas. E se fomos tão estúpidos a ponto de nos deixar burlar assim, durante meses a fio, ou mesmo anos a novelo (ou seja, uma imensidão de fios), então, merecemos mesmo aquela pessoazinha que temos ao lado, porque não pode haver clemência para os idiotas, e parece-me de suprema justiça que se contentem com as escolhas que a sua estupidez fez. Outra hipótese é que, pura e simplesmente, tivemos o (des)dom de acordar todas as coisas más e medonhas que o outro tinha dentro dele. Ou seja, em vez de o tornarmos uma pessoa melhor, tornamo-lo uma pessoa pior. Pela nossa mera presença. E o mais trágico neste drama é que se o tivéssemos deixado seguir o seu caminho com outro alguém, ou sozinho que fosse, hoje ele continuaria a ser… o que era antes de nós. Se alguma coisa podemos ainda fazer por ele é partir, e permitir-lhe voltar a ser aquele ser humano brilhante e especial que uma noite ao jantar nos roubou o coração.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Gotta find me an angel

Eu não devia acreditar em anjos. Não sou católica, não vou à missa, não rezo o terço (mas sei umas coisas da Bíblia).
Eu não devia acreditar em anjos. Mas acredito. Acredito no Pai Natal, em duendes, em nuvens de algodão doce, em bruxas más e em anjos.
Acredito porque tenho que acreditar. Porque senão já me tinha atirado deste 9.º andar abaixo. Porque senão nem me levantada da cama de manhã. Porque senão desistia e fechava os olhos.
Nunca acreditaram com todas as vossas forças que ia aparecer um ano para vos salvar da merda em que se tornou a vossa vida? Nunca souberam – com aquele grau de certeza que só os loucos e os ingénuos conseguem atingir – que iam chocar com um par de assas a qualquer momento?
Eu sei que o vou encontrar. No elevador, no táxi, no ginásio (espero que não no balneário porque não quero que o anjo veja as minhas misérias carnais), no metro, eu sei lá, até pode ser debaixo da minha cama, atafulhado entre sapatos e caixas de camisolas.
E quando ele me encontrar, ou eu o encontrar a ele (aqui tudo depende do grau de orientação do meu assudo) vai-me dizer que está tudo bem, que isto vai passar, mesmo que agora pareça o fim do mundo. E vai-me fazer festinhas na cabeça todas as noites para eu adormecer. E até se pode deixar um bocadinho ao pé de mim para afugentar os terrores nocturnos. E vai-me carregar ao colo enquanto o mundo se abate sobre a minha cabeça. E vai-me mostrar que sou mais forte do que penso. E vai-me fazer crer que sou imbatível. E vai-me pôr um curativo no coração e fazer um bypass à minha alma. E vai-me encher os pensamentos de caramelos e coisas boas. E vai-me garantir que amanhã o dia vai ser menos cinzento.
Depois de bater lá no fundo só se pode subir. E vai ficar tudo bem. O anjo vai-se certificar disso.
Gotta find me an angel, To fly away with me . Gotta find me an angel who set me free. My heart is without a home, I don't want to be alone. Gotta find me an angel in my life.
Too long have I loved so unattached within, so much that I learn That I need somebody so still I'll just go on hoping that I'll find someone. I know there must be someone, someone for me, I've lived too long without the love of someone and there's no misery, ike the misery I feel in me. Gotta find me an angel in my life. He'll be there, now don't you worry. Keep looking now just keep looking
domingo, 16 de maio de 2010
A estranha analogia entre desgostos de amor e infecções urinárias

“Descobri que já não te amo”.
Esta é provavelmente a pior sequência de palavras do mundo. Nunca andei perdida no meio de uma onda gigante (que já se vê que não faço surf) mas tenho para mim que a sensação deve ser próxima a esta. Tonturas. Náuseas. Falta de orientação. Aumento exponencial do batimento cardíaco. Uma sensação de vómito junto à boca. Vista turva. Nó na garganta. Dores de estômago. Olhos a arder com aquele oceano de lágrimas encurralado cá dentro. E tristeza. Uma tristeza absoluta, brutal, esmagadora.
Há muitas formas de terminar uma relação. A mais dolosa é aquela em o sentimento desaparece de um dos lados mas não do outro. Quando somos nós o “um” a ruptura não deixa de ser difícil. Mas quando o “outro” … quando somos o “outro” só queremos que alguém nos acorde, porque o que estamos a viver é demasiado mau para ser vivido, de modo que nos resta a hipótese de estamos a pesadelar (nota de rodapé: se as vidas se vivem e os sonhos se sonham, porque não se hão-de os pesadelos pesadelar?)
Quando uma coisa destas nos acontece não é só aquele amor que vivemos que fica irremediavelmente marcado. Nem só o período de luto e convalescença que se lhe segue. São, no fundo, todas as relações que venham a povoar as nossas vidas, pelo menos até conseguirmos ultrapassar a rejeição.
É como se até aí o nosso corpo fosse imune a certa doença, e a partir desse momento se tenha tornado irremediavelmente sensível ao vírus, de tal forma que o mais pequeno descuido nos faz adoecer de novo. E mesmo quando não estamos efectivamente doente paira sempre a sombra de que poderíamos estar. E o pior é isso mesmo, viver com uma sombra sobre a cabeça, na angústia do que poderá nunca acontecer, mas cuja ocorrência não é totalmente impossível.
Uma vez tive uma infecção urinária tão dolorosa e prolongada que durante quase um ano, sempre que ia repetidamente ao quarto de banho começa a pensar que a infecção tinha voltado e até chegava a sentir os restantes sintomas, o que me levou a usar e abusar de antibióticos, de tal forma que o meu médico diz que foi uma sorte o meu corpo ainda reagir a eles. Esta é a melhor analogia que consigo arranjar. Devido a um choque emocional particularmente intenso podemos ficar prisioneiros desse momento e transpor para as novas relações o nosso medo mais profundo de que se repita. Usamos e abusamos de meios de defesa que acabam, não por nos proteger, mas por nos afastar. De forma que quando o outro resvala para um comportamento minimamente parecido aquele que tão bem conhecemos – e tememos – fechamo-nos como um porco espinho porque aquela sirene irritante do nosso inconsciente começa a girar, a girar, até se torna num alarme ensurdecedor. Eventualmente acabamos por ser nós a terminar a relação porque, apesar de tudo, queremos manter uma réstia (mesmo bem pequenina) de dignidade.
Ele (ou ela) não liga durante um dia? Notámos uma entoação estranha na sua voz? Parece menos entusiasmado(a) com a nossa presença? Menos combalido pela nossa ausência? Permanece em silêncio enquanto despejamos frases inteiras? Obviamente que a história terminou. A certo ponto desejamos até que termine mesmo, e o mais depressa possível, só para pôr fim a esta ansiedade. Repare-se: tal como pode haver dez milhões de causas que nos levam a fazer xixi a toda a hora (nervos, excesso de água, demasiada cafeína) também existem hipoteticamente milhares de milhões de razões para os comportamentos dos outros. Só que, a certa altura desta nossa doença, aos nossos olhos todas essas razões se prendem connosco, com aquilo que somos ou com aquilo que não somos.
Chega-se ao ponto, verdadeiramente doentio, de transpor para a nossa vida aquilo que vemos na vida dos outros. Ela acabou com ele na serie da Fox? Certamente é o que nos espera amanhã à nós. O primo da tia da vizinha da nossa amiga terminou abruptamente com a namorada? Hum… antevemos já o nosso futuro. No fundo, não somos muito diferentes daquele hipocondríacos que sentem no corpo as maleitas dos outros mal ouvem a descrição dos sintomas.
Moral da historia: os desgostos de amor são infecções urinárias. Devemos precaver-nos dele mediante cuidados mínimos de higiene social e afectiva, atacá-los ao menor sinal, mas não perder tempo a pensar neles. Se tiver mesmo que ser, façam-no na casa de banho, com as cuequinhas pelos tornozelos.
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