Mostrar mensagens com a etiqueta Sogras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sogras. Mostrar todas as mensagens

domingo, 18 de abril de 2010

A NORA PERFEITA


Conhecer os pais dele é sempre complicado. Não para mim, que sou perfeita. Eu penso que sim. O meu papá e a minha mamã pensam que sim. Logo, será de prever que os outros papás e as outras mamãs também assim considerem? Ou não?
Sempre encarei com extrema confiança o momento em que se conhecem os pais. Talvez porque nunca tenha perdido um segundo sequer a comprar-me com a ex do meu actual. Chamem-lhe egocentrismo, mas eu prefiro falar em “auto-consciências das minhas potencialidades”. Porém, quando me apercebi que estava a ocupar o lugar de uma menina prendada, tremi. Quando a bendita da ex é uma exímia dona de casa, pouco dada a saídas nocturnas e extravagâncias afins, sem grande experiencia no campo amoroso, recatada e discreta, damos por nós a pensar que neste campeonato dificilmente ganharemos a taça, pelo menos quando o júri seja a mãe, a tão temível “mãe”, vulgo (potencial) “sogrinha”.
Com calma, Vera, com calma. Tu tens um mestrado, publicas livros e dás conferências. Viajas por todo o mundo e és perfeitamente autónoma em termos económicos. Não és tu a nora ideal? E a pouco surpreendente resposta parece ser: NÃO. Porque eu já tive namorados. Porque eu tenho alguns furos no corpo e alguns desenhos na pele. Porque eu mal sei cozer um botão e deixo queimar o arroz (já agora, se alguém souber como se recupera um tacho esturricado…).
A verdade, nua e crua, é esta: para as mães deles, que por muito boas que sejamos, nunca estaremos suficientemente apta a cuidar do “menino”. Não fazemos sopinhas como elas, nem passamos camisas como elas, nem temos a paciência delas. Em suma, não há juiz mais exigente do que a mãe do nosso amor. Porque o bom do marmanjo pode ser um trintão com mais de 1,90m, mas para elas há-de ser sempre o “menino”. E nada é bom demais para ele. Muito menos nós. Já a ex… quem sabe…
Chegada aqui concluí que tudo aquilo que enche os nossos pais de orgulho passa ao lado das sogras. Pois que interessa que eu seja citada em acórdãos quando nem um ensopado sei fazer? De que me serve a mim ser fluente em várias línguas quando mal sei distinguir uma agulha de tricot de uma agulha de crochet? E já nem menciono as 20 flexões que faço sem apoiar os joelhos porque, em boa verdade, até ao lado dos meus pais isso passa.
As relações entre sogras e noras podem ser uma autêntica Faixa de Gaza. Há quem leve a mal que não nos levantemos para ajudar a levantar a mesa, mesmo que o próprio filho permaneça confortavelmente sentado a palitar os dentes. Convenhamos, ou se levantam os dois, ou apenas ele, ou ninguém. Mas nós seremos sempre as convidadas. De modo que nada nos deve ser exigido, e tudo o que se faça para além disso é uma gentileza que parte da vontade própria. Há quem queira uma companhia para as compras, que incluem naperons e tacinhas de vidro, matéria na qual sou evidentemente perita. Há quem procure uma confidente para se queixar do marido, como se nós não tivéssemos queixas suficientes da cria. Há quem anseie por uma menina que ocupe o seu lugar de protectora/empregada doméstica/ faz tudo. Há quem, em contrapartida, veja em nós potenciais ameaças ao seu papel avassalador e que, por conseguinte, prefira noras sossegadinha no seu canto, que não atentem contra o seu reinado matriarcal.
Mas também existem situações de autêntica paixão. Não falta quem confidencie que o que mais lhe custou ao terminar a relação foi cortar os laços com a nova família. Eu própria já estive “apaixonada” por uma potencial sogra, e no finalzinho custou-me tanto deixar a mãe dele quanto deixá-lo a ele.
Resta a questão crucial: Que procuramos nós numa sogra?
Quanto a mim, só peço que eduque a sua cria de forma a fazer-me feliz, o que pode ter múltiplos sentidos, conforme a potencial felizarda. A nossa felicidade pode passar por alguém que nos leve o pequeno-almoço à cama ou que escute as intermináveis divagações sobre o último projecto de trabalho, isso já depende de cada uma. Mas uma sogra que consiga este feito bem merece um lugarzinho no coração.
Que procuram as sogras em nós? Quero crer que exactamente o mesmo: alguém que torne o seu menino feliz, mais uma vez, seja lá o que isso signifique.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O menino da mamã


Imagine que você conhece finalmente o homem da sua vida. Perfeito, como você é. Mais que bonito, lindo. Mais que inteligente, brilhante. Tudo o que sempre sonhou. Porém, e porque para além da sua própria pessoa, verdadeiramente, a perfeição não existe, eis que a criatura padece de um vício que, fosse ele uma lei, o tornaria inconstitucional: é um menino da mamã.
Estou em crer que a principal causa de divórcio hoje em dia não são as infidelidades, nem o cessar da paixão, nem a monotonia, nem os problemas financeiros, nem as incompatibilidades de feitios e de projectos de vida, mas sim aquela algema que continua a prender os homens aos papás e às mamãs.
Não me compreendem mal. Pessoalmente acho muito sexy um homem que respeita e ama os pais. Que trata a mãe como uma rainha. Todavia, não confundamos os papéis que cada um ocupa nesta novela de relações humanas. “Mãe” é a mulher que o gerou, que o deu à luz, que o amamentou, que o educou para que ele seja o homem que é hoje e, por conseguinte, à qual muito agradecemos, caso contrário, ao invés de termos ao nosso lado esse homem limpinho e gentil que nos abre a porta do carro e nos faz o jantar quando chegamos cansadas teríamos um matarruano qualquer, que arrotaria à mesa e tomaria banho de mês a mês. Mas, nós, ai, nós somos nós, ou seja, as mulheres da vida deles. Com quem fazem amor, com quem esboçam planos, com quem têm filhos, com quem irão envelhecer. Por isso, a prioridade temos que ser nós. O que em nada retira ao amor e devoção que têm para com as mães. E para com os pais. E para com os irmãos. E para com as avôs e os avós. E para com a prima em 14.º grau. Simplesmente, cada um tem o seu devido posto. Nós não podemos ser mães. Aquele que procura na sua meia-laranja uma segunda mãe está fadado a ficar sozinho ou, pior ainda, a tornar alguém muito infeliz. É que as mães aturam aos meninos coisas que nós não aturamos, nem temos que aturar, e mal de nós (e do world as we know it) no dia em o fizermos. Para educar, limpar e aturar teremos filhos. Em relação aos nossos homens temos outras funções. Nomeadamente, tornar o seu presente e o seu futuro tão maravilhosos como as respectivas mãezinhas o fizeram no passado.
Falo deste tema confortavelmente e sem pudores porque eu própria sou mimada até à medula. A princesa dos papás. Mas nunca me lembraria de viver uma relação numa espécie de ménage a quatre. Amaremos os pais o resto das nossas vidas. Mas, se eles nos amam também, têm que nos deixar voar, encontrar o nosso rumo, seja ele qual for. Não há maior egoísmo do que pais que se tornam dependentes dos filhos, incutindo neles a ideia de que a sua presença é conditio sina qua non da sua existência. Note-se, da existência de pessoas que nesta altura que se viram livres do embrião/feto/criança/adolescente já deveriam ter encontrado outros interesses.
Este é o meu plano de vida mal deite cá para fora a criança. Ver-me livre dela logo que possível. E se a minha futura nora algum dia me acusar legitimamente algum de um destes pecados desde já a autorizo a detestar-me.
A sogra de uma amiga chorou baba e ranho no dia em que a cria casou, e bradava aos céus o que seria do filhote agora que ela já lá não estava para lhe fazer sopinhas e lhe passar a roupa. Ao que essa minha amiga, expedita e certeira, respondeu que a pobre senhora nada tinha com que se preocupar, pois elazinha não tencionava fazer nada disso pelo marmanjo (que, devo frisar, nasceu com um cérebro, dois braços e duas pernas), de modo que a dita poderia continuar a fazer-lhe as sopas e a engomar-lhe as camisas, já que ela, a minha amiga, tinha uma carreira com que se preocupar.
Nem podia ser de outra forma, digo eu. Não nos vale a pena competir com os inúmeros dotes de fada-do-lar das sogrinhas, do mesmo modo que nos é impossível competir com as nossas mães nesse aspecto. Afinal, levam-nos de avanços anos e anos e anos e anos de experiência. Nem tal nos compete. Para isso mais nos vale trabalhar mais e melhor naquilo em que verdadeiramente somos boas e pagar a uma empregada para tomar conta dos bebés-homens. O que não obsta, penso eu, a um miminho ou outro. Por mim até cozo meias e prepato chazinhos. Mas não queremos substituir nem destronar as mães. Ser-nos-ia impossível. Agora, não nos queiram elas destronar a nós. Nem nos queiram eles passar o final da sua lista de prioridades.
Em suma: é connosco que devem passar a maior parte do tempo disponível. Jantares e almoços em casa dos ascendentes não são para todos os domingos. A nossa vida é isso mesmo, nossa, de modo que não tem porque lhes ser relatada. Qualquer opinião sobre essa vida cabe-nos a nós, não a pessoas que tiveram a nossa idade há 20 ou 30 anos, quando o mundo era outro, desde logo, porque o século era outro.
E, sobretudo, é absolutamente proibido viver com receio de julgamentos paternos. Um homem que não nos assuma perante os pais; que invente histórias mirabolantes para justificar o tempo que passa connosco; que desmarca à última compromissos para não contrariar a vontade paterna; que não nos atende o telefone quando está com eles mas que não hesita em interromper a mais importante das nossas conversas só para prestar vassalagem aos ditos; esse homem não é para nós. Ou melhor, nós não somos para eles. Demasiada areia para uma camioneta tão pequenina.
É que esse homem está destinado a passar aniversários, passagens de anos e dia nos namorados na companhia dos paizinhos, até que estes sejam bem velhinhos. E um dia passá-los-á sozinho. Nunca poderá ser o pai dos nossos filhos, porque para formar uma família é preciso ter previamente estabelecido a fronteira com a família onde nasceu. A promiscuidade nunca foi boa conselheira, muito menos em relações pessoais.
Moral da história: o homem perfeito (se existe) é órfão.