Mostrar mensagens com a etiqueta Idade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Idade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Nós, que nascemos nos 70


Quando eu era pequenina os 30 anos eram qualquer coisa de tremendamente distante. Tão distante que nunca sequer me imaginei com essa idade. O mais longe que a minha imaginação conseguiu chegar foi aos 24 anos, e isto porque coincidiam com a mudança de milénio. Mas na minha cabecinha, povoadas por centenas de episódios do “Era uma vez o espaço” e do “Buck Rogers no século XXI”, nessa altura eu viveria numa nave espacial e vestiria sempre um fato justo branco, de algum tecido ainda por inventar, e botinha branca a condizer. Sim, os meus fashion devaneios evidenciaram-se em idade precoce.
Mas para além desses 24 anos numa era espacial nada mais havia, até porque para mim qualquer pessoa que saísse da casa dos 20 estava em pé de igualdade com os meus avozinhos, nessa altura já bem velhinhos. De modo que aos olhos dos meus 6 ou 7 anos, eu sou, neste preciso momento, uma senhora da idade.
E, francamente, uma senhora que não sabe muito bem como viver a sua idade. Talvez porque nunca me tenha imaginado assim. Ou talvez porque quando olho para os meus supostos role-models a disparidade entre os modos de vida é tão grande que me causa confusão e me deixa perdida. Onde, onde pertenço eu? Ou melhor, a que década? Se é verdade que, como dizem, os 40 são os novos 30, e os 30 os novos 20, deveria requerer um novo cartão-jovem e fumar ganzas pela noite dentro?
Metade dos meus amigos e conhecidos está casado (alguns já em segundas núpcias) ou, pelo menos, monogamicamente acasalado. Vivem com uma cara-metade e um bando de crianças maravilhosas que me olham com um misto de admiração e temor. Não saem à noite, excepto se for um jantar por volta das 8h, mas de qualquer forma têm que estar em casa às 9h. E o dito jantar serve-me sempre para recolher uma série de informações úteis sofre diarreias provocadas por novas marcas de leite, dentinhos a romper e bacios. Enviam-me fotos dos filhotes pela net, passam as noites enroscados um no outro a ver filmes de há 10 anos e fazem-se sentir egoísta e encalhada. Não creio que pensem isso de mim, mas a verdade é que se me comparar a eles sou exactamente isso.
A outra metade dos meus amigos e conhecidos vive sozinha, não sei ao certo se por opção ou porque não têm mesmo outra opção (os mistérios da mente humana são insondáveis). Todos os meses me falam de um novo namorado/namorada, ou de qualquer coisa parecida com isso, porque a verdade é que as relações de hoje são mais fugazes que um par de sapatos em saldos. Trabalham como bestas, conhecem todos os restaurantes da cidade, nos fins de semana dormem quase até à hora de se aperaltarem e sair de novo, e ainda mantém alguns hábitos dos tempos de teen tais como o de vomitar atrás dos carros nas noites mais intensas. Estão sempre a par das últimas modas e fazem-se sentir antiquada e desadequada. Provavelmente pensam isso de mim, embora nunca me o tenham dito frontalmente.
Quem somos nós, os trintões do século XXI? Que tipo de responsabilidades se espera de nós? É suposto termos assentado ou continuarmos a gastar os últimos cartuchos de uma juventude que teima em arrastar-se até à meia-idade? Estaremos a ser inconsequentes para com a geração futura? Mal agradecidos para com a antecedente? Ou andamos todos ainda à procura do nosso lugar no mundo?
Mais propriamente, onde estou eu no meio disto tudo? Bem, por um lado, I’m living the dream, baby. Em certa medida tenho exactamente a vida que sempre quis ter (o que me leva a pensar nas sábias palavras da mamã: cuidado com o que desejas, pois pode concretizar-se). Ora, a questão é que esta vida de liberdade, leveza, e inevitável solidão, era desejada para os meus vinte anos. Nunca desejei mais que isso porque tão-pouco fui mais além na minha prospecção de futuro. Mas neste momento, que estou nos trintas e…, sabe-me a pouco. A questão é que também não sei exactamente o que me saberia bem a mim. Sei que não seria feliz se tivesse que abdicar das minhas viagens, das minhas conferencias, das minhas saídas nocturnas, ainda que esporádicas, das minhas orgias de compras e das pilhas de caixas de sapatos, substituídas por berços e roupinhas de bebé. Mas sei também, e ainda com maior convicção, que também não seria feliz como uma party girl.
Não vejam nisto qualquer juízo de censura face a algum destes modos de vista. Quem sou euzinha para ajuizar a vida de pessoas felizes, ou, menos pelos, que se conseguiram encontrar a si mesmas mais do que eu consegui? Só digo que eu não sou isso. Nem isso, nem aquilo, nem o outro. Não sei bem o que sou. Ter 30 anos hoje em dia é complicado e provavelmente eu estou a querer tudo. Quero o príncipe, os bebés, os sapatos e as malas, o sucesso profissional e os jantares em família. E quero tudo porque conheço quem o tenha tudo. Therefore, é possível.
Mas enquanto não se concretiza para mim, por aqui continuo um bocado à deriva, à procura de uma vida que me sirva, algures entre fraldas e sapatos de salto alto.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

AFINAL, EU JÁ TENHO 34




Reencontrei há pouco uma amiga de longa data, e no meio das usuais conversas de meninas que não se vêm há milénios lá me confidencia ela que pinta o cabelo para esconder os brancos (convenhamos… tirando o Gere e o Clooney, o comum mortal não fica lindo esbranquiçado), ao que eu respondi, com alguma mágoa - e porque não dizê-lo? Comiseração – na voz: “Afinal, já temos 34!”.
E depois parei. Porque, em última instância, what a fuck does it mean? Sim, meus senhores, que raio significa hoje ter 34 anos? No tempo das nossas mães significava estar casada, ter filhos (no caso da minha mamã tinha-me a mim já bem crescidinha), ser uma senhora recatada, com saia direita e escura pelo joelho e serões em frente às novelas enquanto se fazia crochet ou tricot. Não que por essa altura não circulasse já por certos labirintos sociais o mito das trintonas (uuuuuu!), sex-symbols mais ou menos bem conservados que as actrizes e as vizinhas do lado foram fomentando. Mas era eram, no essencial, uma sentença de morte.
Quanto a mim, não me imagino assim nem quando for sessentona. Porque os meus 34, os teus, os nossos, são diferentes. A minha mãe morre um bocadinho de cada vez que vê as minhas (mico)mini-saias. Que já não sou uma miúda, diz ela. Que me devia comportar como uma senhora, acrescenta. Que tenho responsabilidades profissionais, reforça. E eu? Eu encolho os ombros, dispo a saia e visto uns calções ainda mais curtos. A questão, my dear friends, é a seguinte: que culpa tenho eu de ainda ter pernas giras para mostrar? Pois se hoje os ginásios, os cremes e uma nova percepção da existência feminina, permitem que usemos quase ad eternum as saias que as nossas mães só vestiram nos seus tempos de teen (e note-se que a minha abusava da mini-mini, de modo que isto é genético), porque me hei-de confinar a ser uma “senhora”, seja lá o que isso signifique? O tempo há-de chegar, não o apressem.
No fundo, hoje os 30 são os 20 de ontem. E os 40 os 30. E os 40 os 50, and so on. Basicamente, é como se as gerações tivessem recuado uma década na tentativa (quiçá frustrada) de driblar o tempo e o envelhecimento. Somo o CR9 (ex-CR7) a contornar adversários, com a sorte de o fazermos melhor do que ele ainda.
De facto, hoje vivemos a perpetuação dos eternos 20 anos. Roupa a mostrar pele, sapatilhas rotas, calças rasgadas, copos e noitadas, saltar da cama às tantas. Porquê? Porque não temos a responsabilidade de um bebé a chorar ou de um marido a querer o pequeno –almoço. E mesmo quando a temos dávamos a volta à coisa. Um grande bravo a todos os papás e mamãs que eu conheço que continuam a namorar e a sair, sem isso esquecer os biberões e as mudanças de fraldas. O que não significa irresponsabilidade. A tão falada “geração rasca” veio a revelar-se responsável, competitiva e produtiva. As aparências enganam, não é avó?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Declaração de direitos das mulheres de 30


Art. 1.º (Direito geral ao respeito)
As mulheres de 30 têm direito ao respeito adequado à sua idade, desde que o mesmo não seja equivalente ao correspondente a tias de 80 anos.

Art. 2.º (Direito a evitar perguntas impertinentes)
1- São proibidas, e severamente sancionadas, perguntas inquisitórias destinadas a averiguar a data de eventuais casamentos ou o motivo pelo qual tal ainda não ocorreu.
2- O mesmo se aplica a quaisquer questões sobre:
a) Nascimento de hipotéticos filhos
b) Causas de ruptura de namoro
c) Idade
d) Peso
e) Numero da roupa


Art. 3.º (Direito à protecção do sigilo quanto à idade)
1 - A mulher de 30 tem direito a que a respectiva idade seja tida como sigilosa. Este respeito abrange o direito a bolos de aniversário sem número de velas, e a cantos de Bilhetes de Identidade insuspeitamente carcomidos no local onde revelariam a data de nascimento.
2- Não será considerada mentira a ocultação da idade, ainda que recorrendo a um número falto.

Art. 4.º (Direito à protecção do sigilo quanto ao peso)
1- A mulher de 30 tem direito a não revelar o seu peso exacto. Para este efeito admite-se que suba apenas um pé à balança.
2- Quanto o expediente anterior for de todo impossível deve subtrair-se ao peso indicado pela balança um valor que oscilará entre os 5 e os 10kg, dado ser de conhecimento comum que a sabedoria aumenta com a idade e a mesma adquire peso substancial na massa corporal.



eArt. 5.º (Direito a relacionamento com homens mais novos)
1- Em caso deve uma mulher de 30 ser forçada a conviver com espécimes do sexo masculino substancialmente mais novos, salvo na medida em que os mesmos sejam um boy toy ou a sua companhia se destine a um dos seguintes objectivos:
a) Despoletar inveja numa suposta amiga que se insira no qualificativo de “cabra”
b) Despoletar ciúme num ex-namorado
3- Quando o relacionamento com homens mais novos resultar da exclusiva vontade da mulher, deve o mesmo ser respeitado e quaisquer criticas daninhas poderão ser respondidas com sarcasmo e mesmo rudeza.

Art. 6.º (Direito a ser imune a tratamento inumano e degradante)
1- É considerado tratamento inumano e degradante comparar, por qualquer meio e à luz de qualquer critério, a aparência física da mulher de 30 à de miúdas de 20 anos.
2- Exceptua-se do numero anterior o casos em que o resultado da avaliação seja mais benéfico para a mulher de 30, caso em que deve o mesmo ser largamente publicitado, inclusive na comunicação social.


Art. 7.º (Direito a descontos obrigatórios)
Os estabelecimentos comerciais produtos largamente procurados pelas mulheres, mormente sapatos, roupa interior, malas e jóias, estão obrigados a fornecer os mesmos a preço reduzido de 50% às mulheres de 30, atendendo a todo o dinheiro que já gastaram nas ditas lojas ao longo dos anos.

Art. 8.º (Direito ao sucesso profissional)
À mulher de 30 tem direito a atender chamadas de trabalho durante encontros e desmarcar compromissos à altura da hora por questões laborais, sem por isso ser criticada pelo companheiro. Entende-se que esta importante ressalva se explica pelo facto de não a ter pedido em casamento antes dessa idade, levando a que ela se envolvesse cada vez mais na sua vida profissional. Por conseguinte, este comportamento feminino será, afinal, imputado ao homem.

Art. 9.º (Direito à designação apropriada)
1- A mulher de 30 tem direito a existir o tratamento por “senhora” ou por “menina”, confirme o trato que mais se adeqúe à situação.
2- A designação “trintona” será abolida do léxico português, bem como qualquer outra expressão que se pretenda referir às mulheres de 30, dado que não há palavra alguma com essa terminação que tenha conotação positiva
3- Em conformidade com o número anterior, as mulheres de 30 serão designadas de “trintinhas”
4- Do disposto no número 1 exceptua-se o termo “boazona”, uma vez que “boazinha” é expressão própria de pãezinhos sem sal e meninas de catequese.