
Há momentos em que dou por mim a pensar que se desaparecesse neste momento tudo parava. Enfim, o metro continuaria a andar, o Carlos Queiroz continuaria a fazer-se de Calimero e o Sporting continuaria a perder, porque há coisas que nunca mudam. Mas a vida das pessoas que gostam de mim parariam. Essas vidas, na minha fantasia paranóica, ficaram semi-devastadas pela minha ausência.
Acho que a primeira vez que esta ideia me passou pela cabeça foi em vésperas da minha ida para Angola, quando comecei a meditar em quão triste e vazia seria a vida dos mais papás sem mim, filha única desde que nasci. E senti-me quase, quase, culpada por deixá-los sozinhos. Mas eis que os dois se aproximaram ainda mais, e tenho para mim que desde essa altura vivem existências mais bem preenchidas, quase como namorados casados há mais de 30 anos. Depois, pensei nos meus amigos, aqueles que tão estupefactos e tristes ficaram no dia em que anunciei a decisão de partir. Admito a hipótese de terem ficado apenas estupefactos, e de eu ter confundido com tristeza o espanto por tão insana e súbita decisão. O certo é que as suas respectivas vidas continuaram de forma plácida e serena, namoraram e desnamoraram, casaram, tiveram filhos, mudaram de casa, de emprego e de cidade (de sexo, creio eu que nenhum), e quando regressei, esperando encontrar a minha vida tal como a deixara, como se o tempo tivesse parado ali, eis que dou por mim num mundo novo, uma espécie de 6.º dimensão, onde toda a gente tinha metido a vida a andar e a avançar. Sem mim. Porque, afinal, ninguém é insubstituível.
Ainda há bem pouco tempo voltei a reviver esta traumatizante experiência. Peguei nas armas e bagagens (nunca percebi a expressão da “mudança de armas e bagagens”… é suposto levar comigo a caçadeira do meu pai?) e rumei a uma cidade diferente, onde conhecia duas ou três almas, e onde, once again, comecei do zero, do menos um, direi mesmo. Nos momentos mais difíceis batia à “porta” dos amigos que deixei para trás. Não havia telefone, mail ou sms que aguentasse a força da minha solidão e das minhas saudades. Para espanto meu todas essas pessoas continuaram as suas vidas como eu se eu nunca tivesse feito parte delas. Quando lhes ligava estavam soterradas por agendas ocupadíssimas. Ou tinham outra chamada em espera. Ou respondiam por monossílabos. E quantas vezes ouvia eu o som de um teclado do outro lado da linha enquanto lhes abria o coração ao telefone.
O que mais estranheza me causa é que parece que as pessoas que mais toquei foram aquelas que menos tempo conviveram comigo. Ainda hoje mantenho amizades fortes e firmes com amigos de outros países, com os quais convivi meros dias, semanas ou meses. Já os amigos de longa data parecem ter-me apagado das suas memórias. Que quererá isto dizer? Serei eu melhor na versão “amostra de perfumaria” do que na versão “frasco inteiro”? Será que as pessoas se apaixonam por mim à primeira vista mas se desenganam à segunda?
Porque ficarei eu triste quando parto? Porque deixo de ter as pessoas na minha vida? Porque deixo de ocupar a vida delas? Porque sinto que as abandono? Ou porque me dói que não se sintam abandonadas?
E assim se mistura o sentimento de culpa com megalomania e egocentrismo. Confesso: custa reconhecer que não sou o centro do mundo. Nem sequer o centro do mundo de alguém.